Da coragem de nos capacitarmos fora de portas através de um outro olhar interior,
sobre nós e o todo do nosso Viver, surgirá o ânimo de ir alinhavando “espaços de amabilidade solidária”.
Em quatro dias, o 7MARGENS confrontou-nos com cinco textos, todos eles a convocarem contra o nosso esquecimento – a “guerra dos petrodólares” impôs-se no quotidiano – para a existência do «povo mártir da Palestina», no dizer habitual de Yasser Arafat.
O mais recente, publicado na quarta-feira, é um sentido retrato a propósito das dificuldades colocadas pelas autoridades israelitas às escolas palestinianas, na abertura do ano lectivo… Perante determinações maquiavélicas das autoridades de ocupação de Israel ou arbitrariedades da tropa e de funcionários, são suficientemente reveladoras de sabedoria destemida de quem resiste à política de etnocídio praticada por Israel, as palavras do patriarca latino de Jerusalém, Pierbattista Pizzaballa: “Sem oferecer educação às crianças, como pode haver esperança?”.
Na terça-feira, quase uma centena de padres da Rede Internacional Padres Contra o Genocídio realizou uma marcha em Roma, transportando um pano branco, no qual se inscreveram os nomes das 300 crianças palestinianas e libanesas mortas desde a declaração dos dois cessar-fogos. Dias antes, igualmente em Roma, o Instituto Católico para a Não Violência da Pax Christi Internacional reunira-se a confirmar que «a paz desarmada e desarmante» proclamada por Leão XIV «carece ainda de muita reflexão e muita iniciativa», como escreveu Manuel Pinto, presente no encontro. O evento foi esquecido pela Cúria Romana, tal como acontecera com a manifestação da Rede Internacional Padres Contra o Genocídio. E enquanto dava conta que, entre os militantes da Pax Christi ainda se acredita que «o Papa avance mais» com sinais concrectos para cumprir aquele seu propósito, Manuel Pinto deixava “escapar” o que viria a dar razão a esta crónica: naquele encontro surgiu uma proposta para que Leão XIV visite, «por livre iniciativa», «o povo e as comunidades cristãs de Gaza».
Dias depois ficaríamos a saber que a palestiniana Amira Mussallam, que estivera presente na reunião da Pax Christi, concrectizou o apelo a Leão XIV para visitar Gaza, numa carta pessoal dirigida ao Papa, enquanto tentava (em vão) por diversos meios, no Vaticano, conseguir uma audiência nos dias que lhe restavam da sua presença em Roma.
Uma carta com corpos que não usam armas

Irmã Nabila em frente à escola das Irmãs do Rosário, destruída pelas bombas, em Gaza. Foto © Fundação AIS | ACN Portugal
Amira Mussallam não se perdeu em delongas, e logo no início da sua carta dirigida a Leão XIV identifica-se e diz ao quem vem: católica palestiniana, mãe e «profundamente inspirada pelo seu apelo a uma “paz desarmada e que desarma”».
De imediato ficamos a saber que Amira concrectiza, há mais de duas décadas, o que acredita: «tentamos fazer todos os dias na Palestina através da Proteção Civil Desarmada estar ao lado de pessoas ameaçadas, acompanhar famílias e comunidades, reduzir a tensão e a violência sempre que possível e recusar-nos a deixar as pessoas sozinhas quando têm medo».
Mas o Papa não tinha tempo a perder… Havia que que cuidar de uma viagem programada a França e que se realizaria daí a dias (sexta-feira, dia 25) e que, segundo a agência LUSA, custará aos crentes católicos a módica quantia de 27 de milhões de euros.
Nem o sufoco e a angústia expressos nas palavras de Amira o desarmaram – é verdade que não sabemos se a carta lhe terá chegado às mãos, apesar de ela a ter deixado em cinco lugares diferentes no Vaticano: «Santidade, sabemos que está plenamente consciente do genocídio e da catástrofe humanitária em Gaza, bem como da escalada da limpeza étnica, da deslocação forçada, do terrorismo dos colonos, da violência militar e da expropriação em toda a Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Agradecemos profundamente os seus esforços para pôr fim a este sofrimento. Mas, pelo que testemunhamos e vivenciamos no terreno, o tempo está a esgotar-se.»
O que estava a esgotar era o prelúdio de mais uma viagem… 80 mil pessoas numa vigília no Stade de France, mais 500 mil numa missa entre a Praça da Concórdia e os Campos Elísios; depois entre o Santuário de Lurdes e a Catedral de Metz mais de 150 mil – ainda segundo a LUSA.
Uma pequena carta para o Papa «com apelido de imigrantes» [6]
Caríssimo bispo e meu irmão,

num livrinho (90 páginas), singelo, mas profundo, titulado L’intranquillité, a pastora Marion Muller-Colard, da Igreja Protestante Unida de França, escreve: «O Evangelho renuncia a fabricar super-homens para mergulhar na complexidade da humanidade tal como ela é».
Como nós dois (e todas as nossas irmãs e os nossos irmãos na fé) sabemos que foi assim mesmo que agiu o artesão de Nazaré… Estamos lembrados da fanfarronice de Pedro (João 13:34-38) e da vaidade dos dois filhos de Zebedeu (Marcos 10:35-45). Outros exemplos poderíamos citar…
De maneira avisada, no seu livro Jesus, Hans Küng recorda-nos: «Jesus, não monta o cavalo branco do vencedor, o animal símbolo dos dominadores, mas sim o burro dos pobres», para logo considerar que «Jesus não foi um homem do establishment [nem tão pouco] um conformista, um apologeta do sistema estabelecido». E por isso «questionou nos seus fundamentos o sistema religioso-social judaico, a ordem vigente da Lei e do Templo (…), [e] nesse sentido, teve a sua mensagem consequências políticas».
Aqui chegados, Hans Küng deixa-nos a seguinte nota: «Jesus não se limitou a falar, também interveio efectivamente», dado que a sua proposta de «reinado de Deus, não consiste apenas no perdão e na conversão, mas também na redenção e libertação do corpo e na transformação e consumação do mundo».
Caríssimo bispo Robert Prevost Martínez,
os desafios que hoje enfrentamos não são, na sua magnitude, maiores nem menores dos que à época de Jesus decorriam. O império romano era, na sua concepção política, filosófica, comercial e militar, de uma magnificência ainda hoje não totalmente descodificada – só na Europa, abrangia toda a península Itálica, a Hispânia (atual Portugal e Espanha), a Gália (França), a Britânia (sul da ilha da Grã-Bretanha), a Grécia, e os Balcãs até ao Danúbio, em África estendia-se pela faixa costeira do Norte de África, incluindo o Egito, a região oriental e as regiões desérticas da Líbia, além de toda a Ásia Menor.
O que actualmente defrontamos são desafios próprios, não somente de uma amálgama cultural talvez jamais experienciada, mas sobretudo um repto ainda mal digerido de toda uma tecnologia de conhecimentos ainda não totalmente conhecidos – quer na área da biologia, da engenharia quântica, onde se inserem a inteligência artificial, astrofísica e as ciências da terra e da atmosfera.
Mas não é este “tempo desconhecido” que nos deve fazer embarcar em pirómanos da insensatez… Não será jamais no multitudinário que a humanização da Humanidade terá futuro. Essa é a ilusão que “alguém” nos quer vender. E Jesus compreendeu isso tão bem ao privilegiar a relação pessoal…
As multitudes, caríssimo bispo, jamais conseguiram dispor corações a decidirem-se por gestos capazes de impedir o sofrimento causado pelo ser humano (a violência, a ganância, o poderio açambarcador, o individualismo). Os crucificados de hoje – os famintos que fogem da guerra, os deserdados, os mais fragilizados de toda ordem, os que são despejados das suas casas, aqueles a quem é negado o trabalho em nome do redimensionamento económico, os massacrados por juros de uma banca que recorre aos seus sacrifícios quando resvala por incompetência ou avidez – aguardam não uma mitologia salvadora do além.
«Uma vida indigna não pode adquirir dignidade por uma suposta confirmação divina», escreveu Juan Antonio Estrada, no seu livro Qué decimos cuando hablamos de Dios?.
Essa era “métrica” dos sacerdotes do templo de Jerusalém que tanto beneficiavam com as ofertas queimadas no altar para que o cheiro chegasse às narinas de um “deus desconhecido”. Mas Jesus revelou-nos uma outra dimensão ao contar a parábola do samaritano ao teólogo que, manhosamente para o experimentar, lhe perguntou como adquirir a vida eterna… Jesus respondeu-lhe não com “coisas do Alto”, mas com acontecimentos humanos.
Tenhamos a coragem de regressar ao aqui e agora, à realidade premente que nos convoca ao Amor dos pequenos/grandes gestos do pai bondoso que abriu a casa e fez festa com o filho que o renegara, mas que igualmente logo se assomou à porta para convidar a entrar naquela mesma festa o filho que se considerava fiel e único…
O seguimento de Jesus não é reconhecível «como adoração cultual», nem tão pouco «como identificação mística», recorda-nos Hans Küng no seu magnifícico manual de vida titulado Was ich glaube (O que eu acredito), para concluir: «ao crente abre-se um caminho que não ilude o sofrimento, mas sim que o atravessa», porque está disposto «a lutar contra o sofrimento e as suas causas».
Caríssimo bispo e meu irmão,
Não receie! Vá a Gaza, ao Sudão, à Ucrânia, à Líbia, a Nicarágua, a Cuba e à Venezuela… e aonde julgar ser mais urgente. Peço-lhe apenas uma coisa: não descure a sinodalidade. É aí que encontrará mais mulheres e homens disponíveis para se entregarem a fazer deste mundo um novo céu e uma nova terra.
Termino com palavras inspiradoras da pastora Marion Muller-Collard, no livro já citado: «A ambição de Jesus de Nazaré é que a humanidade saia da sua era de superstição».
[6] A sua ascendência de imigrantes italianos e franceses levou-me a identifica-lo assim no texto que escrevi no Expresso (edição de 16 de Maio 2025), por ocasião da sua eleição para Bispo de Roma.
Mário Robalo é jornalista. Na Associação Poilão, integrou, entre 1991 e 2003, a equipa de voluntários liderada pelo padre Valentim Gonçalves (Verbo Divino) em projectos de apoio escolar, alfabetização de adultos, acompanhamento social e legalização de imigrantes, nos bairros degradados da zona de Loures; participou no movimento de grupos intervenientes em bairros ilegais na região da Grande Lisboa para exigir do Governo uma habitação digna, do qual resultou o Programa Especial de Realojamento, aprovado em Conselho de Ministros, em Março de 1993. Entre 2002 e 2005, a convite do padre Victor Feytor Pinto, na paróquia do Campo Grande (Lisboa), participa na instalação de um centro de apoio social à população do Bairro das Fonsecas e Calçada.










