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Walter Osswald, médico, bioética
Walter Osswald numa fotografia de 2018: um homem sólido. Foto: Direitos reservados.

In Memoriam

Walter Osswald (1928-2026): um homem sólido, um grande coração

| 04/10/2026

Há vidas tão belas, tão ricas e tão bem preenchidas que a sua morte, apesar e além da profunda tristeza que suscita em nós, consegue ao mesmo tempo segregar o perfume de um profundo êxito. É o caso de Walter Osswald [cientista e professor universitário, que morreu no passado dia 22 de setembro, dois dias depois de ter completado 98 anos – nasceu a 20 de setembro de 1928].

Do outro lado da morte física há de certeza uma grande festa para o cristão Walter Osswald, que sempre pôs toda a sua confiança em Deus e na salvação que nos vem de Cristo. Esta certeza, contudo, não nos torna fácil o último adeus terrestre ao Walter, porque ele nos faz profundamente falta nesta terra. Com efeito, cada um de nós pode lembrar a figura tão multifacetada do Walter Osswald, marido, pai, avô e bisavô, cientista, professor, conferencista e, para nós, amigo extraordinário. Através de todas as vicissitudes históricas que atravessou – e não foram poucas em quase um século de existência – Walter Osswald tem sido um homem sólido, no qual se podia ter plena confiança e, por isso mesmo, ele foi um conselheiro precioso e ativo em quase todos os campos de atividade.

Era conhecido como brilhante professor de medicina, autor de um guia terapêutico na mão de quase todos aos médicos, mas não me pertence comentar esta aspeto da sua vida profissional; só sei que muita gente, e nós incluídos, gostávamos de recorrer a ele para ter um parecer ajuizado sobre a nossa saúde.

Como conferencista e autor de livros o Walter Osswald teve uma atividade intensíssima, não apenas pela quantidade e pelo rigor, mas pela variedade dos assuntos tratados. É por isso que, auditores das suas conferências, fomos profundos admiradores face à vastidão dos campos do saber nos quais falava com uma competência que nos surpreendia e alegrava, desde a ciência até à literatura, à ética médica e bioética, à filosofia e à fé cristã. Numa palavra, era um verdadeiro mestre. A este respeito é preciso sublinhar alguns aspetos da sua personalidade, que se refletem no percurso das suas atividades. Da sua maravilhosa família só se pode dizer que foi, por ela, recompensado de todos os esforços que, como se pode imaginar, ele deve ter feito ao longo dos anos.

 

Cister, uma paixão

Mosteiro São Cristóvão de Lafões, Ordem de Cister, Walter Osswald

Vista aérea do mosteiro cisterciense de São Cristóvão de Lafões: a visita guiada por Walter Osswald deixava uma lembrança muito forte a quem tinha a sorte de o acompanhar. Foto: Direitos reservados.

Foram as conferências sobre a cultura e a fé organizadas pelos padres jesuítas de Coimbra que nos aproximaram e despoletaram a nossa amizade. Nos anos oitenta chegámos a saber que o Walter estava a reconstruir o mosteiro cisterciense de São Cristóvão de Lafões, um dos primeiros ou provavelmente o primeiro da Ordem de Cister em Portugal (1130-1136). Após os anos de reconstrução e uma vez aberta uma parte do mosteiro para estadias turísticas, este mosteiro foi descoberto por milhares de visitantes.

Ao mesmo tempo o Walter, que tinha adquirido e estudado os melhores livros sobre a espiritualidade de São Bernardo, reservava aos seus ocupantes de passagem mais de uma hora de visita turística de todo o mosteiro, explicando o modo de viver e rezar dos monges. Somos testemunhas de que esta visita guiada deixava sempre uma lembrança muito forte e positiva a esses milhares de visitantes, que tiveram a sorte de o acompanhar.

Em 2012 o Walter publicou o livro intitulado Mosteiros Cistercienses em Portugal. Pequeno Roteiro (Edições Afrontamento), resultado do seu estudo pessoal sobre todas as antigas abadias cistercienses de Portugal; trata-se de um livro precioso, acompanhado de fotografias e realizado com um cuidado notável. A autora do seu prefácio fala do «Professor Doutor Walter Osswald, talvez o mais apaixonado leigo português de Cister». Além disso, durante anos e nas suas férias, o Walter organizava viagens na Europa para visitar um grande número das melhores e mais belas abadias cistercienses de toda a Europa. Acrescento que, graças às diligências do casal Osswald, assim como ao esforço dos paroquianos de São Cristóvão de Lafões, a igreja do mosteiro foi magnificamente restaurada, enriquecendo desta maneira o património cultural.

Além disso, durante quatorze anos, o Mosteiro de São Cristóvão foi o lugar de realização de um ciclo de conferências científicas, colóquios preparados principalmente por um dos seus genros e incidindo, cada um deles, num aspeto diferente da espiritualidade cisterciense sobretudo medieval. Cada um destes grandes colóquios deu origem à publicação integral das suas Atas.

O interesse permanente pela espiritualidade de São Bernardo contribuiu de certeza para moldar a personalidade e a vida do Walter Osswald. Podemos e devemos assim pensar que, no além, São Bernardo já esteve e já está presente no comité de acolhimento do Walter, na felicidade que o Senhor lhe reservou.

 

A família, o médico e o artesão da bioética

Walter Osswald, São Cristóvão de Lafões, Ordem de Cister

Walter Osswald em Julho de 2025 no mosteiro por ele adquirido e recuperado. Foto: Direitos reservados.

Vale ainda a pena referir, muito brevemente e sem comentário, cinco campos de atividade que o Walter preencheu com dedicação e fidelidade.

O primeiro diz respeito à sua pertença ao movimento católico dos Casais da Nossa Senhora («Porto 42»), movimento que implica a presença mensal de um grupo permanente de casais, que se encontram para rezar e aprofundar assuntos da nossa fé cristã. O casal Osswald participou nessas reuniões durante mais de cinquenta anos e de modo muito eficaz para o seu êxito. Na verdade, esses encontros estão em geral na origem de uma profunda amizade entre todos os seus membros, o que foi efetivamente o caso.

Em segundo lugar, não se pode esquecer que o nosso bom Amigo foi membro da Associação portuguesa dos Médicos Católicos. Dessa associação o Walter chegou a ser, durante alguns anos, presidente em Portugal. Mas dado que esta associação portuguesa depende também da sua centralização no Vaticano, ele foi solicitado, a partir de Roma, para assumir, sucessivamente, os mandatos de vice-presidente e de presidente mundial desta Associação dos Médicos Católicos. Não considerou esta tarefa como uma honra, mas como um serviço, que o obrigou a visitar e ajudar de modo eficaz os médicos católicos de vários países. Este serviço mereceu-lhe ser condecorado pelo Vaticano.

Entre as inúmeras tarefas que o Walter aceitou e os múltiplos livros que escreveu (ultimamente, sobre a morte e a eutanásia), não se pode esquecer que ele foi um dos fundadores da bioética em Portugal. Com amigos, nomeadamente Jorge Biscaia, Daniel Serrão, Barbosa de Melo, Henrique Vilaça Ramos, o padre Vasco Pinto de Magalhães e outros do mesmo grupo, fundou-se o primeiro Centro de Bioética em Portugal. Seguiu-se a publicação, com Jorge Biscaia, da primeira e única Revista Portuguesa de Bioética. Deste modo, o Walter foi, com os nomes já citados entre outros, um dos mais importantes iniciadores da bioética no nosso país.

Alguns anos depois foi também membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (1991-1996). Pode-se afirmar que o Walter Osswald, tal como Daniel Serrão, contribuiu para resolver os casos mais complexos das análises deste Conselho Nacional.

Em quinto lugar, no Porto, o Walter foi, para toda a Universidade Católica Portuguesa, o artesão principal da fundação do Instituto de Bioética e o seu primeiro presidente. Numa palavra, com as suas inúmeras conferencias, colóquios e livros publicados, podemos afirmar que a bioética em Portugal tem uma profunda dívida de gratidão ao Walter Osswald. É, portanto, muito justo que ele tenha sido várias vezes homenageado pelo Presidente da República com duas das mais altas condecorações do país.

Em conclusão, direi que toda a existência e o trabalho do Walter Oswald foram a expressão silenciosa de um grande coração, que nunca recusava um pedido de ajuda ou um conselho cheio de sabedoria. E a alegria com a qual convivia com os amigos foi sempre contagiosa. Hoje estamos na tristeza, mas podemos lembrar a alegria com a qual, todos os anos, nos quatro domingos do Advento, ele cantava com toda a sua família os cânticos do Natal, cânticos portugueses, alemães, ingleses e franceses. Hoje, este tempo feliz passou, mas são cânticos celestes que o devem ter acolhido na pátria desta felicidade definitiva que o Senhor lhe reservou, na companhia de todos os que ele, Walter, amou e que o precederam.

 

Michel Renaud é professor aposentado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, integrou vários mandatos do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida;  licenciou-se e doutorou-se em Filosofia e em Filosofia e Letras pela Université Catholique de Louvain (Bélgica).

 

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