AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

[Brasil, Religião e Poder]

“Desigrejados” e crescimento de templos evangélicos: aparente contradição?

Culto evangélico: os desigrejados” mantêm a sua fé, mas optaram por uma expressão mais descentralizada da prática religiosa. Foto © JF/Pixabay

 

 

O último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizado em 2010, indicou que a categoria de “cristãos evangélicos não determinados” somava 9,2 milhões de pessoas, representando 21% do total de evangélicos na época. Os cristãos “indeterminados” constituem uma categoria de evangélicos que, embora não tenham abandonado as confissões dogmáticas do cristianismo, desligaram-se da estrutura institucional das igrejas. Popularmente conhecidos no meio do evangelicalismo brasileiro como “desigrejados”, esses indivíduos mantêm sua fé, mas optaram por uma expressão mais independente e descentralizada da prática religiosa.

Sem dúvida, o fenómeno dos “desigrejados” começou a ser delineado com dois marcos importantes no desenvolvimento da comunicação em massa: o rádio e a televisão. Quando grandes igrejas ou pregadores independentes começaram a fazer uso abrangente destes meios de comunicação de massa, rádio e, posteriormente, televisão, testemunhamos um marco significativo na disseminação da fé. É digno de nota o fenómeno dos telepregadores nos Estados Unidos entre 1970 e 1990, que deram origem ao que na literatura foi denominado “igreja eletrônica”.

Esse modelo rapidamente encontrou eco na América Latina, resultando no surgimento de novas igrejas de inspiração Pentecostal (PACE, Enzo; GIORDAN, 2012). Mais tarde, a internet fez uma verdadeira revolução, inaugurou a comunicação em rede e, posteriormente, as mídias sociais, como Facebook, Twitter, Instagram e outras plataformas, que proporcionam interações em tempo real e a disseminação de informações em escala global.

Nesse contexto, o duplo ou múltiplo pertencimento religioso tornou-se mais evidente do que nunca. Em nossa formação histórica, a interação entre as religiões indígenas, africanas e o catolicismo ibérico resultou em uma reconfiguração de símbolos e crenças. Esse fenômeno de duplo ou múltiplo pertencimento religioso emerge como uma característica intrínseca à realidade do cenário religioso brasileiro (RIBEIRO, 2018) e é cada vez mais fortalecido pelas mídias sociais, uma vez que, em uma rápida navegação, podemos compor nossa experiência religiosa a partir de símbolos e crenças que podem até ser conflitantes, mas que ganham um novo sentido quando reorganizadas, em uma espécie de “colagem”, por cada individuo.

Por outro lado, o recente estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) demonstrou um notável crescimento dos estabelecimentos religiosos no Brasil ao longo das duas últimas décadas. Em 2021, dos 124.529 estabelecimentos registrados no país, 52% são identificados como evangélicos pentecostais ou neopentecostais, posicionando-se como a corrente dominante, seguidos por 19% de evangélicos tradicionais e 11% de católicos. Dentre os evangélicos pentecostais, a Assembleia de Deus se destaca, representando 14% do total de estabelecimentos dessa vertente religiosa. Este dado revela não apenas a diversidade, mas também a influência significativa dessas correntes no panorama religioso brasileiro e coloca novas questões: se em 2010, 21% dos evangélicos estavam desligados das instituições religiosas, por que, em contrapartida, o número de igrejas no país cresceu nas últimas duas décadas? O crescimento das igrejas é, realmente, acompanhado pelo crescimento de membros?

É inegável que experimentamos um crescimento populacional significativo durante este intervalo de tempo, somado aos impactos da pandemia, que podem ter alterado a percepção das pessoas em relação às suas práticas de fé. Além disso, as dinâmicas internas do movimento evangélico, abrangendo liderança, teologia e estilo de culto, desempenham um papel crucial no surgimento de novas igrejas que buscam se distinguir. No entanto, a pergunta central persiste: quais foram as mudanças no campo religioso brasileiro, especialmente no âmbito evangélico, nas últimas duas décadas? E como explicar a aparente contradição desses dados à primeira vista?

Apesar da possibilidade de o Brasil caminhar para se tornar maioritariamente evangélico, a categoria “evangélicos” não está estritamente ligada ao número de igrejas. A resposta a essa questão demanda estudos mais aprofundados sobre o papel específico que as igrejas desempenham no país. Para além do fornecimento de alimento espiritual, em algumas regiões, o surgimento de novas igrejas pode atender a demandas específicas das comunidades locais, muitas vezes preenchendo o vazio deixado pelo Estado e fornecendo suporte social à população. Outra perspectiva possível é enxergar isso como a expansão de um modelo de negócio, dada a facilidade de abertura de templos no país desde o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2003.

 

Referências:
RIBEIRO, Claudio de Oliveira. Dupla e múltipla pertença religiosa no Brasil. Estudos de Religião, v. 32, n. 3, p. 93-115, set.-dez. 2018.
PACE, Enzo; GIORDAN, Giuseppe. A religião como comunicação na era digital. Dossiê: Religião – perspectivas contemporâneas. Civitas, Rev. Ciênc. Soc. 12 (3), Sep-Dec. 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/civitas/a/7C9KvBC6DcQTxZwGNXYbhMP/#. Acesso em 04 dez. 2023.

 

Maria Angélica Martins é socióloga e mestra em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil. Pesquisa a relação entre fenómeno religioso e política com ênfase para o protestantismo histórico e o neocalvinismo holandês.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

O meu tio Fred

[Arquipélago Jerusalém]

O meu tio Fred novidade

Contra a vaga da direita radical e de antisemitismo que assalta a França e a Alemanha e que tem expressão em vitórias eleitorais, gostaria de evocar o legado do meu tio-bisavô Fréderic Kohn-Abrest (1850-1893). Foi um ilustre jornalista, dramaturgo e ensaísta que viveu entre Paris e Viena e lutou nesses tempos longínquos para criar pontes entre os europeus. [Texto de Mendo Castro Henriques].

Disponibilizada tradução provisória do Livro de Baruc e Carta de Jeremias

Bíblia da CEP

Disponibilizada tradução provisória do Livro de Baruc e Carta de Jeremias novidade

A Comissão Coordenadora da Tradução da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) disponibilizou a tradução provisória do Livro de Baruc e da Carta de Jeremias, dando continuidade ao processo de revisão e tradução dos textos bíblicos. Como nas restantes publicações, a comissão convida os leitores a enviar sugestões e comentários para contribuir para a revisão do texto.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This