
A fé tem dado alento a este grupo de refugiados acolhidos em Mafra pela associação UAPT. No passado domingo celebraram a preceito a Páscoa ortodoxa. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.
Faz este domingo, 23 de abril, um ano. Era o 59º dia de guerra. A Páscoa seria no dia seguinte e Iryna e Oleksii Lebedyeva só queriam dar um pouco de normalidade aos filhos de cinco e seis anos. A normalidade possível quando se vive num país que está sob ataque. Odessa, cidade no sul da Ucrânia onde viviam, amanheceu tranquila. Arriscaram sair de casa: enquanto ela foi ao cabeleireiro, ele levou as crianças ao supermercado para comprarem os doces e decorações típicos da época. No regresso, quando estavam parados num sinal vermelho, ansiosos para chegar a casa e começar a pintar os seus ovos, ouviram um enorme silvo e pela janela do carro viram um míssil a ser interceptado. Descobririam poucas horas depois que outros dois mísseis tinham atingido os seus alvos na cidade, um deles a pouco mais de um quilómetro da sua casa, destruindo um edifício de habitação e matando uma bebé de três meses, a sua mãe e a avó. Nesse dia, Iryna e Oleksii souberam que, mais cedo ou mais tarde, haveriam de deixar o seu país.
O que não imaginavam era que, precisamente no dia em que voltassem a celebrar a Páscoa (o que este ano, para os ortodoxos, aconteceu no passado domingo, 16 de abril), partilhariam a sua história no adro da Igreja de Santo André, em Mafra, ao som dos pássaros, sentindo a brisa primaveril vinda do Atlântico, com os filhos a correr pela relva e a apontar para o céu, genuinamente felizes por verem um avião de passageiros. Até porque a decisão de deixar a Ucrânia não foi fácil, e não foi tomada de imediato.
Naquele mês de abril, Iryna e Oleksii tomaram a decisão de esperar mais algum tempo. Tentariam aguentar pelo menos o verão e matricular a filha mais velha, que ia para o segundo ano, numa escola privada (porque na pública praticamente não tinha aulas). Eles, que já tinham abandonado a sua casa uma vez, em 2014, pouco depois de se terem casado, porque a sua cidade natal, Luhansk (na região leste de Donbass) sofrera então as primeiras tentativas de invasão russa. Eles, que se haviam mudado meses antes para uma casa nova, maior, em Odessa, e que tinham empregos estáveis: Iryna como auditora financeira, Oleksii como advogado.

Os filhos de Iryna e Oleksii, com uma vizinha (ao centro), na cave da sua casa, onde passaram a dormir após os primeiros bombardeamentos, para se sentirem mais protegidos. Foto: Direitos reservados.
“Preparámo-nos para sobreviver mesmo que faltasse a água e a eletricidade, e os nossos filhos passaram a dormir sempre na cave, na zona onde tínhamos a lavandaria, para se sentirem mais protegidos”, recorda Iryna. “Mas em outubro começaram os blackouts, e tudo foi ficando pior, e pior, e pior”, diz com um olhar triste. “Eram demasiadas horas sem eletricidade e os aparelhos eletrónicos começaram todos a avariar… Tínhamos geradores, mas esses aparelhos não estão preparados para serem usados 24 sobre 24 horas, e além disso consomem três litros de petróleo por hora, o que é extremamente caro”, explica.
A rede de Internet e telemóvel também falhava constantemente, trabalhar tornava-se quase impossível, as crianças continuavam com medo e o frio começava a fazer-se sentir. “A gota de água foi quando ficámos sem aquecimento: dentro da nossa casa não estavam mais do que 11 graus, lá fora as temperaturas já estavam perto de zero, e ainda ia ficar mais frio. Foi aí que tomámos a decisão de sair da Ucrânia”, recorda Iryna. Já estavam em dezembro.
Foi então que viu, num grupo da rede social Telegram, uma publicação a divulgar um voo humanitário para Portugal. “Tocou-me muito aquela publicação, porque eu e o meu marido já tínhamos estado em Lisboa há dez anos, a celebrar o meu aniversário, e apesar de termos apanhado muita chuva tínhamos adorado a cidade e as pessoas. E então resolvemos tentar”, partilha Iryna, 44 anos.
Mesmo assim, à cautela, não vieram todos. Começou por vir apenas Iryna com a filha, Sonya, que estava de férias da escola, e o marido e o filho, Yuriy, permaneceram em Odessa. “Não sabíamos o que iríamos encontrar, e ainda por cima eu estava a atravessar um período complicado em termos de saúde… achei melhor não arriscar trazer os dois, apesar de nos ter custado muito a separação”, explica.
O apoio crucial da associação UAPT
“A Iryna e a Sonya chegaram a Portugal no dia 22 de dezembro de 2022, no sexto voo humanitário que organizámos”, confirma Vitaliy Melnychuk, um dos coordenadores da associação Ukrainian Refugees UAPT, que se constituiu em Lisboa quatro dias após o início da invasão russa e que desde então trouxe 1675 refugiados para Portugal e os ajudou com alojamento, emprego, apoio médico, psicológico, económico e jurídico. “É provável que esse tenha sido o último voo humanitário, porque quem queria sair da Ucrânia já saiu”.
Esta organização sem fins lucrativos, que chegou a gerir seis centros de acolhimento e diversos apartamentos cedidos por particulares onde os refugiados ficaram alojados nos primeiros meses até conseguirem subsistir autonomamente, mantém atualmente apenas o centro de acolhimento de Mafra, a 35 km de Lisboa. Este centro fica num antigo palacete que funcionava como pousada, propriedade do consulado da Albânia, que começou por ceder o espaço à UAPT e que entretanto a associação decidiu arrendar para continuar a acolher os refugiados que se encontram numa situação humanitária mais frágil, por serem idosos, mulheres sozinhas com filhos pequenos ou por terem problemas de saúde. Neste momento, alberga cerca de 30 pessoas. “É o lugar perfeito, porque fica perto de Lisboa, e alguns refugiados entretanto encontraram trabalho lá, e ao mesmo tempo está inserido numa localidade muito tranquila, com a natureza à volta, onde só se ouvem os passarinhos cantar e podem estar verdadeiramente em sossego e ter paz”, sublinha Vitaliy Melnychuk.
Vitaliy, 29 anos, é ucraniano e vive há 22 em Portugal. “Vim com os meus pais, que estavam à procura de melhores condições de vida, e fui das primeiras crianças ucranianas a chegar aqui”, assinala. Hoje, já casado e com dois filhos de seis e três anos, admite que nunca tinha pensado regressar ao seu país, mas a invasão russa veio mexer com os seus planos. “Não digo que regresse, mas tenho de ajudar a Ucrânia a ultrapassar esta fase e contribuir para a reconstrução do país… Acho que vou viver dentro do avião”, diz, meio a brincar meio a sério. “Sinto uma grande responsabilidade de ajudar o meu país.”

Para Vitaliy Melnychuk, da direção da associação UAPT, o centro de acolhimento de Mafra “é o lugar perfeito,(….) onde só se ouvem os passarinhos cantar e os refugiados podem estar verdadeiramente em sossego e ter paz”. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.
Por já ter trabalhado como militar, Vitaliy sabia “o que é necessário na linha da frente de uma guerra”. E foi por isso que surgiu a sua ligação à UAPT. “Quando começou a guerra, fui com a minha mulher às compras e comecei a formar rações de combate e conjuntos de primeiros socorros para os militares, que depois entregava à UAPT para que os fizessem chegar à Ucrânia”. Na altura, trabalhava a tempo inteiro como motorista de autocarros, mas a ligação à associação tornou-se tão intensa e o trabalho a fazer era tanto que acabou por deixar o seu emprego e integrar a UAPT a “mais do que tempo inteiro”. Hoje, faz parte da direção.
Fundada por dois ucranianos que viviam há vários anos em Portugal (Roman Kurtysh, empresário na área da construção civil, e Iryna Davidovska, enfermeira), a UAPT já enviou para a Ucrânia, com carga humanitária, 40 camiões TIR, nove carruagens de comboio e seis aviões (os que trouxeram os refugiados). Ao todo, foram mais de mil toneladas de produtos e quase um milhão de euros em bens essenciais, que terão ajudado de alguma forma dois milhões de pessoas.
Agora, a associação tem um “novo e muito importante” projeto em mãos, revela Vitaliy. Trata-se do Centro de Apoio a Feridos de Guerra da Ucrânia, que está prestes a nascer em Ourém, numa propriedade de quatro hectares que durante mais de 30 anos albergou o Seminário Apostólico Dominicano, em Aldeia Nova, cedida pelos proprietários por um período de sete anos. A ideia partiu de Iryna Davidovska, que, em contacto com uma associação congénere de Lviv e com o ministério da Saúde da Ucrânia, se apercebeu das enormes dificuldades existentes nos hospitais do país, aonde chegam diariamente dezenas de militares feridos depois de terem recebido uma primeira intervenção das unidades médicas da frente de guerra, e onde não há capacidade nem espaço para lhes proporcionar os tratamentos de que necessitam para recuperarem. O centro, pioneiro a nível mundial, terá capacidade para 100 utentes, incluindo residências para familiares, e deverá receber os primeiros militares já em maio.
Gratidão e muita vontade de regressar
Sentado á mesa do refeitório do centro de acolhimento de Mafra, Vitaliy não esconde o seu entusiasmo com o novo projeto de Ourém, e partilha que um dos trabalhos que mais tem gostado de fazer na associação é o de acolher os refugiados. “Quando chegam, fazemos sempre uma entrevista, tenho uma conversa com eles para conhecer a sua história, as suas preocupações, os seus objetivos e expectativas, e ver como podemos ajudar”, explica.
Foi assim que conheceu Yullia Poperechna, 35 anos, e o seu filho Yegor, de 11. E com alegria descobriu que tinham sido vizinhos na Ucrânia. “Ela é da minha cidade, Vinnytsia, mesmo no centro do país”, diz, sorridente. Acrescenta, orgulhoso, que agora são colegas porque entretanto a associação também a contratou. “Como o filho dela tem uma paralisia, ela precisa de lhe dar muito apoio, não pode trabalhar a tempo inteiro, nem afastar-se muito do centro, então propusemos-lhe que ficasse responsável pela cozinha, e ela aceitou”, explica, antes de Yullia se sentar ao seu lado e se juntar à conversa.

Yullia e o filho Iegor, na sala de estar do centro de acolhimento de refugiados, em Mafra. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.
Em Vinnytsia, Yullia era gerente de uma rede de supermercados. O seu marido, militar da Força Aérea ucraniana, não foi autorizado a sair do país. A última vez que esteve com ele foi na noite em que começou a guerra, a noite em que a sua vida mudou. “Estávamos a dormir, ele recebeu uma chamada do trabalho a pedir que se apresentasse urgentemente na sua unidade e saiu de imediato. Ligou-me de manhã a dizer que a guerra tinha começado e que eu tinha de pegar no essencial e sair do país o mais rápido possível”, conta.
Deixar a Ucrânia era a última coisa que Yullia queria, mas percebeu, pela forma como o marido falou, que tinha mesmo de o fazer. Reuniu o historial clínico e os medicamentos de Yegor (que aos três anos tinha sido operado ao cérebro devido a um aneurisma e ficado com uma paralisia do lado esquerdo), e foi já ao som de sirenes e das primeiras explosões que saiu de casa com o filho. Conduziu em direção à Polónia, sempre a tentar acalmar Yegor, que no banco de trás tinha uma crise de tiques nervosos e não parava de perguntar: “Mãe, vão matar-nos?”. Deixou o carro em Ivano-Frankivs’k, cidade próxima da fronteira, e ali apanharam um autocarro que os levou até Lublin, de onde partiria o voo com destino a Portugal. Lá, já os esperava Iryna Davidovska, da UAPT, que é madrinha de batismo de Yullia. e que fez questão de acompanhar aquele que foi o primeiro dos seis voos humanitários organizados pela associação.
Quando aterraram em Portugal, a 10 de março, a primeira sensação que Yullia teve foi a de que estavam “protegidos”. Chegaram a Mafra já de noite, e “logo na manhã seguinte havia ucranianos que já viviam em Portugal e vários portugueses a trazer-nos coisas e a oferecer-nos ajuda. Fiquei surpreendida com tanta solidariedade e sinto-me muito grata a todas essas pessoas, à UAPT e aos embaixadores da Albânia por terem cedido este espaço”, diz a refugiada.
Apesar da gratidão, Yullia não esconde a tristeza que sente por estar longe do seu país e confessa que nunca pensou ter de ficar tanto tempo em Portugal. Ainda hoje, continua a ter dificuldade em acreditar “em todo o horror que está a acontecer na Ucrânia”. O marido telefona-lhe todos os dias, e nos fins de semana em que vai a casa fazem vídeochamadas, mas as saudades aumentam a cada dia que passa. Felizmente, ele não está na linha da frente da guerra, mas Yullia tem muito medo do que possa acontecer e, sem poder fazer mais nada, reza. Diz que lhe “alivia a alma”. “Por vezes, pergunto-me onde está Deus, perante tantas pessoas inocentes, e em particular crianças, a sofrer e a morrer”, partilha. “Mas não deixo de acreditar nele e de ter esperança de que nos ajude.”
Acreditar em Deus “tem ajudado verdadeiramente”

Missa de Páscoa com a comunidade ucraniana ortodoxa, celebrada na Igreja de Santo André, em Mafra, no passado dia 16 de abril. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.
Na Ucrânia, Yullia só ia à igreja no Natal e na Páscoa. Em Mafra, passou a frequentar as missas ortodoxas que há na Igreja de Santo André, mesmo em frente ao centro de acolhimento, todos os primeiros e terceiros domingos do mês. São bem cedo, logo às 7h30 da manhã, porque muitos dos ucranianos que as frequentam trabalham na restauração. Desse modo, ficam livres a tempo de irem para os seus empregos.

Dentro dos cestos de Páscoa que as famílias levam para a missa, estão normalmente os bolos paska, chouriço, carne fumada, sal, manteiga, queijo fresco, ovos pintados, entre outras iguarias.
Quem celebra estas missas é o padre Igor Nevinskyy, também ele ucraniano. Veio para Portugal em 2001, pouco tempo depois de ter concluído o seminário, e fixou-se em Mafra, onde arranjou trabalho como padeiro e pasteleiro para poder subsistir, já que os padres ortodoxos não são remunerados. O seu principal objetivo era dar apoio espiritual à comunidade ucraniana que já então ia crescendo na Grande Lisboa. Não se esquece da primeira missa que celebrou, precisamente por altura da Páscoa. “Como não tinha conseguido autorização do Patriarcado de Lisboa para usar um templo católico, deixaram-me usar um espaço que é usado para estacionamento e festas, ao pé da Igreja de Santo André”, conta. “Veio muita gente e também um ou dois jornais ucranianos, que fizeram uma reportagem. Essa reportagem chegou às mãos de um padre ortodoxo que estava no Porto, e que viria a ser bispo, que me telefonou a perguntar se eu precisava de ajuda. Foi ele que enviou todos os meus documentos ao Patriarca Bartolomeu e conseguiu que eu obtivesse autorização para celebrar missas aqui e em Lisboa.”
Desde então, o número de fiéis nas missas não parou de aumentar, tanto que nos primeiros anos a missa acontecia apenas uma vez por mês e teve de passar para duas. Mas nunca o padre Igor tinha visto a Igreja de Santo André tão cheia como nesta Páscoa. “Participaram mais de mil pessoas. só da região de Mafra e arredores”, garantiu ao 7MARGENS após a celebração. Na verdade, muitos tiveram de ficar fora da igreja, pois no interior não cabia nem mais uma agulha. Homens e mulheres (sobretudo mulheres) com a sua melhor roupa, meninas de cabelo entrançado e fitas azuis e amarelas, meninos com as típicas blusas bordadas, famílias inteiras carregando consigo os tradicionais cestos de Páscoa: lá dentro, um ou mais bolos paska, chouriço, carne fumada, sal, manteiga, queijo fresco, ovos pintados, entre outras iguarias para serem degustadas no tradicional almoço que se seguiria à missa. “Mas só depois de tudo ser benzido, os cestos e as pessoas”, explica o padre Igor.
Ainda antes da benção, que acontece já fora da igreja, à volta da qual os fiéis se dispõem, o padre Igor fez questão de rezar pelos soldados ucranianos e por todos os que estão a sofrer com a guerra, pedindo a Deus que também eles pudessem celebrar a Páscoa. Saudou os aniversariantes, agradeceu a presença de tantos fiéis e lembrou os que gostariam de ter estado e não puderam, “em particular um casal de 60 anos que costuma vir sempre à missa, cujo genro faleceu em combate há um mês e que regressaram à Ucrânia para apoiar a filha e fazer o funeral, mas para grande tristeza não conseguem sequer que lhes entreguem o corpo”, partilha.

Nos seus mais de 20 anos como padre ortodoxo em Mafra, Igor Nevinskyy nunca tinha visto uma celebração tão participada. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.
“É preciso mais oração do que nunca para que esta guerra termine”, afirmou o padre Igor perante as centenas de ucranianos. “Mas não percam a esperança, porque aquilo que nós não podemos fazer, Deus consegue”, assegurou, para logo a seguir iniciar a benção, ao mesmo tempo que repetia “Cristo ressuscitou! Ele ressuscitou de facto!”
Palavras que ressoaram particularmente no coração de Iryna, cujo marido e filho mais novo haviam conseguido chegar a Portugal no dia anterior e estavam também ali, naquele que para ela foi um autêntico “milagre de Páscoa”. No final da celebração, ao regressar ao centro de acolhimento onde Yullia tinha já tudo a postos para o almoço desta “nova grande família”, Iryna confidenciava ao 7MARGENS: “Houve dias em que a fé foi a única coisa em que nos pudemos apoiar, e o melhor conselho que recebi foi que acreditássemos em Deus. Isso tem ajudado verdadeiramente.”
Quanto ao futuro, “só Deus sabe”, diz Oleksii. Apesar de ter conseguido uma autorização temporária para sair da Ucrânia por trabalhar para uma empresa multinacional, está consciente que terá de regressar em breve. “Pelo menos para nós, esta Páscoa foi muito mais feliz que a anterior”, desabafa. Falta agora que se concretize “o milagre maior de que todos precisamos”: que a Rússia retire as suas tropas e a Ucrânia possa iniciar a sua reconstrução.

Depois de quatro meses sem ver o marido e o filho mais novo, que tinham ficado na Ucrânia, Iryna conseguiu ter a família reunida mesmo a tempo da celebração da Páscoa. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.










