A alma de Eduardo Lourenço

| 16 Dez 20

Nem sempre se consegue escrever um texto de homenagem em cima da hora da partida de figuras que a vida agigantou, até porque outros o fazem por dever de ofício. Por vezes torna-se necessário algum tempo de reflexão, de nojo.

“Europeísta convicto, o filósofo focava-se bastante na crise da identidade nacional, rejeitando a ideia de “crucificar este velho país” pela gesta dos Descobrimentos…l”. Foto: Direitos reservados/SNPC

 

Em entrevista realizada em 2006 Eduardo Lourenço afirmava: “O que define o Homem é o facto de ele ser uma alma”, querendo significar que a pessoa humana está muito para lá da mera corporeidade. O país tem prestado homenagem ao insigne pensador, em especial nas últimas semanas, devido ao seu desaparecimento, mas o facto é que estamos perante um pensador com alma.

Sim, um homem que nasceu rural (São Pedro de Rio Seco, 1923), estudou na Universidade de Coimbra, mas cuja trajectória de vida o levou a conhecer o país e o mundo, e talvez tenha sido esta ligação entre o local e o universal que lhe tenha conferido essa invulgar capacidade de desbravar a identidade portuguesa. Por vezes, quando mais nos afastamos dum objecto melhor o conseguimos ver nas suas diferentes dimensões, pois demasiado perto tendemos a perder a perspectiva.

Não fui íntimo nem cheguei a conviver de perto com ele, mas estivemos juntos no congresso internacional que ajudei a organizar em 2017, e que decorreu na Fundação Gulbenkian e na Universidade Lusófona, dedicado à figura de Lutero e à celebração dos 500 anos passados sobre a data convencionada para o início da Reforma protestante na Europa. Como não podia deixar de ser Eduardo Lourenço era um homem interessado nesse vasto movimento religioso, cultural, social e político que reconfigurou o espaço europeu e redesenhou a própria história mundial, contribuindo para abrir caminho à Modernidade. Por isso participou no evento e na sua promoção, com todo o interesse, a convite do Prof. José Eduardo Franco, apesar da idade já muito avançada.

Em tempos de uma fina especialização cultural e científica, Eduardo Lourenço apurou uma capacidade invulgar de juntar as peças do puzzle e conseguir um olhar integrado sobre a realidade da vida: “Cada um dos assuntos porque me interesso daria para ocupar várias pessoas durante toda a vida. Por isso, como não possuo vocação heteronímica, tenho procurado encontrar um nexo entre as minhas diversas abordagens da realidade. No fundo é a procura de um só tema. E, de facto, se virmos bem, o fio condutor do que venho fazendo, e procuro ainda fazer, é uma reflexão constante sobre o tempo. Ou melhor, a temporalidade” (Diário de Notícias, 1998).

Por alguma razão um dos homens que melhor pensou Portugal e a Europa acreditava que a fé cristã ainda tinha muito para dar: “A grande revolução humana que se operou na história foi a do cristianismo. Os efeitos da revolução cristã ainda não acabaram. Diria mesmo que, no limite, ainda nem sequer começaram.” O facto de o ensaísta considerar o homem como um ser espiritual (“ser uma alma”), associado à expectativa da “revolução cristã” surgem como contra-corrente no mainstream do pensamento contemporâneo, altamente ateu e secularizado, em particular nos meios intelectuais, revelando o posicionamento independente de um espírito superior que marca o seu percurso e faz um caminho próprio. Em boa hora a Sociedade Bíblica de Portugal veio relembrar o homem que dizia não saber fazer outra coisa senão pensar, ao recuperar uma frase sua: “O nosso livro fundamental é a Bíblia, pelo menos até agora. Não creio que a Bíblia naufrague, mesmo numa civilização tão desapiedada, tão violenta internamente, tão pouco cheia de misericórdia como é a nossa nestes tempos que correm”.

João Céu e Silva talhou uma expressão feliz no DN ao dizer que Eduardo Lourenço foi o filósofo que procurou Portugal no seu labirinto, aludindo ao título da sua obra mais icónica “O Labirinto da Saudade – Psicanálise Mítica do Destino Português” (Dom Quixote, 1991). Europeísta convicto, o filósofo focava-se bastante na crise da identidade nacional, rejeitando a ideia de “crucificar este velho país” pela gesta dos Descobrimentos, quando afinal, nesse tempo a colonização era animada por uma “intenção louvável”.

O autor não tinha vergonha de ser branco, português e europeu. Assumia todo o património histórico de um grande povo num pequeno mais persistente território nas margens do continente, mas que teve arte e engenho de puxar para si o centro do mundo numa certa época. Clara Ferreira Alves diz que o filósofo nos inscreveu “na modernidade histórica ao analisar o nosso século XX político, intelectual, literário, filosófico, social”.

Creio que vale a pena revisitar a obra e o pensamento de Eduardo Lourenço nestes tempos de desvario ideológico, em que alguns fazem tudo para apoucar quem somos, numa espécie de auto-flagelação patológica, e outros, alheios à mudança dos tempos, persistem no sonho em querer regressar ao passado. O autor não renega o património histórico, compreendendo o império português no seu contexto, mas também não desiste do futuro que é a democracia e a Europa, essa “civilização que construiu catedrais, pintou a Sistina e descobriu as leis da natureza.” Procurou puxar pela auto-estima do país após o fim do império levando-o a olhar para a integração no espaço europeu, de modo a abandonar “a espécie de enteroscopia delicada das qualidades imponderáveis deste Portugal perdido no labirinto de si mesmo”.

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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