Indígenas brasileiros em protesto contra “etnocídio” e ameaças aos seus territórios

| 31 Jan 19 | Casa Comum, Destaques, Espiritualidades, Estilos de vida alternativos, Últimas

Marcas de balas na placa da terra da tribo Uru-Eu-Wau-Wau, na Rondónia Foto © Divulgação / Funai

 

Vigílias de solidariedade decorrem também hoje, 31 de Janeiro, em Lisboa, Porto e Coimbra e em mais cinco países 

 

Encerrando as atividades do movimento “#JaneiroVermelho – Sangue Indígena, Nenhuma Gota a Mais” os povos indígenas brasileiros realizam uma série de ações em todo o país nesta quinta-feira, 31 de janeiro. O objetivo, segundo o Conselho Indigenista Missionário, é denunciar a “crescente ameaça que os povos originários e seus territórios têm sofrido, bem como os retrocessos impostos pelo Estado brasileiro.” A mobilização é organizada pela APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e apoiada pela Mobilização Nacional Indígena (MNI).

As preocupações advém das declarações e medidas que o recém-eleito presidente Jair Bolsonaro tem tomado contra os povos indígenas e restantes povos tradicionais. Retirou à Fundação Nacional do Índio (Funai) a delegação de identificar, demarcar e registar terras indígenas, passando-a para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Para o Conselho Indigenista Missionário, isto equivale a dar “carta branca” para que os que estão relacionados com o meio rural ditem as suas regras sobre demarcação das terras indígenas, já que a titular da pasta, Tereza Cristina, representa também os interesses do agronegócio.

Na sequência desta medida, várias comunidades têm sofrido invasões e ataques concretos. A tribo Pankararu, do estado de Pernambuco, começou no final do ano passado a receber cartas com ameaças de morte. Ao Conselho Indigenista Missionário, um dos membros da tribo relatou: “Um grupo de não-índios, que já recebeu as indemnizações, [continua circulando] em nossas terras, causando transtornos e insegurança, inclusive verbalizam pra gente ‘que isso não vai ficar assim’”.

Mais recentemente, no estado brasileiro da Rondónia, na região oeste do Brasil, homens armados invadiram terrenos dos povos Karipuna e Uru-Eu-Wau-Wau dizendo que “agora é Bolsonaro o presidente”.

À revista brasileira Época, o presidente da Funai, Franklimberg de Freitas, afirmou: “Algumas lideranças indígenas dos povos Karipuna e Uru-Eu-Wau-Wau relataram dificuldades que estão passando em razão das frequentes invasões de posseiros [pessoas que tomam posse de terras devolutas ou abandonadas], interessados em atuar na extração de madeira e no garimpo ilegais”.

A demarcação de terras indígenas, que advém luta histórica dos povos originários, representa um direito de proteção das florestas e biodiversidade mas é sobretudo uma base fundamental para garantir a reprodução física e cultural dos povos e comunidades indígenas.

Suíça, Inglaterra, Irlanda, Estados Unidos, Canadá e Portugal são os outros seis países que se solidarizam com o protesto dos indígenas brasileiros. Em Portugal, a praça Luís de Camões, em Lisboa, foi palco de uma vigília, a partir das 14h00. No Porto, à mesma hora, teve lugar uma concentração e vigília na Praça da Liberdade. Em Coimbra, às 20h00, no Ateneu, há uma conversa aberta e um espetáculo.

Em nota enviada à Lusa (e reproduzida pela RTP), Mariana Nobre, da Reflorestar Portugal, afirmou: “Vamos criar um espaço seguro para que possa haver um debate saudável sobre este assunto. Queremos que haja uma tomada de consciência por parte da sociedade portuguesa, para que não compactue com o etnocídio e ecocídio em curso no Brasil.”

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