A arte de ouvir

| 2 Jan 2021

” Vozes que querem ser ouvidas, mas que não ouvem”. Núcleo Editorial – Ilustração Redes Sociais / Autora: Laura B. / Wikimedia Commons

 

Nunca nos foi tão fácil ver os outros. A globalização e o avanço tecnológico trouxeram-nos uma ligação constante a tudo aquilo que nos rodeia. Aos acontecimentos que nos são disponibilizados através da enorme variabilidade de plataformas digitais. Há uma constante partilha de vozes. Vozes que querem ser ouvidas, mas que não ouvem. Criando um barulho silencioso nas nossas cabeças. Dando lugar a um mundo cada vez mais solitário. O sentido de comunidade foi substituído pelo ego crescente. Egos particularmente curiosos, uma vez que se desenvolvem abundantemente, mas cada vez mais frágeis, inseguros e vulneráveis. Procuram o seu lugar neste palco cada vez maior, obcecados pelo seu lugar ao centro. Sem olhar para todos aqueles que também o querem pisar.

Somos peritos em nos cercarmos por muros. Desesperados para que alguém consiga saltar para o lado onde nos escondemos. Todos nós partilhamos esse segredo de querermos ser descobertos. Explorados e cuidados. Alguém que consiga compreender os lugares mais obscuros por entre a nossa vasta propriedade. Alguns fecham-se a sete chaves, com medo de que a sua vulnerabilidade seja descoberta. Ninguém quer ser visto como a pessoa frágil que é. Outros enviam mensagens subliminares através das plataformas que lhes parecer melhor, na esperança de que alguém os acuda. No entanto, apesar de nos sentirmos reféns da negligência de potenciais exploradores, falta-nos também o espírito de explorador. Não podemos apenas querer ser ouvidos.

Todos estamos sozinhos neste mundo. Cada um de nós vive na prisão da sua própria condição. Todavia, essa condição natural não nos deverá impedir de prestar atenção à imensidão dos pequenos mundos que nos rodeiam. Existe, de facto, uma necessidade urgente de escutar. Com a mesma atenção com que nos escutamos a nós próprios. Toda a nossa existência é repleta de falhas e de medos. À espera de serem amparados.

A arte de ouvir e de procurar criar a felicidade naqueles que nos rodeiam é, em muitas situações, mais importante do que ir em busca dela. Nada disto se afigura fácil. Escutar atentamente as necessidades dos outros – negligenciando as nossas – é cada vez mais uma raridade. Conseguir ver o positivo onde os outros apenas conseguem ver o negativo e mostrar-lhes o caminho. Mesmo que ainda não tenhamos encontrado o nosso. Ouvir os pensamentos daqueles que nos são próximos, e ir ao seu encontro.

Aprender a ouvir os outros pode ser uma das maiores lições da nossa vida. Não iremos apenas escutar e entregar aquilo que temos. Vamos também crescer e absorver o conhecimento de outrem, questionando as nossas escolhas e apontando para novos caminhos. Falta-nos esta bonita vontade de querermos subjugar o nosso ego à criação de felicidade alheia. E, quem sabe, até nos possa levar para mais perto daquilo que idealizamos como uma plena paz de espírito. Uma felicidade menos artificial.

 

Ricardo Guimarães é natural de Braga, onde se formou em Direito, e exerce a sua atividade profissional no Porto.

 

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