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Obra de Isabel Allegro de Magalhães

A arte de sempre procurar mais do que aquilo que se vê

| 15/02/2026

 

Há neste livro Arte, Política e Transcendência, de Isabel Allegro de Magalhães, algumas palavras-chave: cultura, mais do que arte; bem comum e cuidado (na senda aberta por Maria de Lourdes Pintasilgo), mais do que política; participação e cidadania, mais do que pertença ou identidade; responsabilidade e liberdade, mais do que normas e preceitos; corpo de mulher, mais do que feminismo; mistério, busca e transcendência, mais do que doutrina ou certezas. São 18 textos muito diversos, mas todos marcados pela mesma procura.

De facto, se existe um motivo, uma interrogação presente em todos os textos, encontro-a na página 183: “A interrogação primeira não é pois se Deus existe, ou não, e quem é, mas [sim] a condição de existir com outros na Terra, perguntando pelo sentido disso.”  Seja. O convite não é, pois, partir do conceito, ou da revelação, das revelações, ou de qualquer pré-conhecimento que nos desvie da interrogação: “existo com outros – que sentido tem isso, que destino nos une?” E esta interrogação não é um porquê a que a ciência pode responder, explicando e demonstrando. É um para quê a que cada um, cada uma, terá de responder ao longo da sua vida.

Ou, não. Pois também se pode viver toda uma vida sem se enfrentar a questão dos fins. Ele há tanta distração para consumir, tanto lugar para onde se evadir, tanta ‘experiência única’ para comprar, tantos modos de gastar a vida vivendo para consumir… Na metáfora de Byung-Chul Han, em Conversas Sobre Deus [página 12]: “empanturramo-nos com lixo informativo e comunicativo, com lixo sonoro e visual. Transformando-nos em gado de consumo (…) a perceção que só está ocupada em comer, já não consegue ver.” Não é a esmagadora maioria do entretenimento que nos é proposto expressão deste imediatismo comestível de satisfação instantânea sem preocupação pelo futuro, pelo sentido da vida?

Arte, Política e Transcendência está (e convida-nos a ficar) nos antípodas desta atitude “mantendo uma estruturante interrogação quanto ao sentido do ser humano sobre a Terra” [42] e ousa opor-se àquela felicidade baseada na libertária procura de autorrealização individual proposta nas ruas de Paris durante o Maio de 68. Opta antes por afirmar: “A responsabilidade humana precede ontologicamente a liberdade individual. A responsabilidade pelo ser do outro e pelas suas condições de vida passa à frente da própria liberdade.” [143]. A nossa Casa Comum seria muito diferente se tal desígnio fosse mais amplamente partilhado!

 

Gratidão e confiança

Os 18 textos que a autora escolheu para reunir neste livro foram escritos entre 2000 e 2022. Uns mais circunstanciais do que outros, mas todos surpreendentemente atuais. São fruto dos numerosos combates travados pela autora, uns ganhos, outros ainda por ganhar, mas nunca perdidos. São também intervenções curtas. Curtas, mas não pequenas. Um género difícil, mas cheio de virtualidades, que obriga a ir rapidamente ao núcleo central daquilo que se quer tratar, sem divagações ocas. Seguindo esse princípio, sublinho dois temas, entre tantos outros que a leitura de Arte, Política e Transcendência aborda.

Faz bem a toda a gente ler o texto com que este livro se inicia. Por um monte de boas razões. Mas também por isto: num tempo em que o espaço público é inundado pela querela violenta, pela confrontação ruidosa e pela gritaria insultuosa, praticadas para humilhar, destruir e fazer desaparecer o opositor, os outros, o outro, faz bem percorrermos páginas como estas.

Em 20 páginas à procura de A Questão do Divino na Cultura Contemporânea, Isabel Allegro de Magalhães cita mais de uma centena (102, contei eu) de autores. Da ficção à ciência e à filosofia, a realizadores, atores, artistas, pensadores e teólogos. Não é sua intenção exibir erudição. O que sobressai é a atitude de reconhecido agradecimento aos homens e mulheres que a ajudaram a dar nota (ou a inteligentemente negá-la) dessa presença do divino na cultura contemporânea. Todas e todos aquelas e aqueles que a autora convoca para esse perscrutar da “sede última e mais silenciosa”, desse mistério que “apesar de todas as Revelações continua a ser desconhecido” [11] são referidos por (alguns, apesar deles próprios) iluminarem essa Presença que ela procura.

O louvor da vida, dos outros, da descoberta, da possibilidade de sentir, pensar e agir são presença constante nas páginas deste livro. Não apenas aquela gratidão que permite pensar, tal como sublinha o filósofo: “Primeiro aprendam a agradecer – e então poderão pensar”, mas também como fundamento da “confiança que está a montante de todas as outras atitudes” [citando Fernando Gil, página 117].

Confiança que não ilude “este tempo terrível e inesperado na Europa, tempo de verdadeiro retrocesso civilizacional e cultural” [109]. Tempo que exige aos cristãos, mais do que nunca, “uma análise não impressionista e subjectiva, mas crítica, do real social; um conhecimento rigoroso dos mecanismos sócio-económicos que produzem a riqueza de alguns à custa da pobreza ou miséria de maiorias” [147]. A confiança da autora não nega a dura realidade, mas alimenta-se dessas múltiplas tradições de homens e mulheres de pé, capazes de pensar e agir no seu tempo em defesa do bem comum e em defesa do outro, do planeta, procurando suscitar convergências para cuidar o futuro.

Gratidão e confiança são atitudes indispensáveis para quem, como a autora, descrê na “competição como única forma de viver” [86] e aponta a “convivência e a colaboração como formas de sobreviver no Planeta e do Planeta [sobreviver].” [88].

 

O “movimento interior”

Simone Weil

‘Simone Weil para quem “basta olhar com atenção para encontrarmos Deus em todos os lugares” e assim valorizar “os extraordinários testemunhos (…) por parte de pessoas e grupos com grandeza interior capaz de compaixão e cuidados gratuitos”’ Imagem de arte de rua da filósofa Simone Weil, Berlín Kreuzberg (2019)


Outro aspeto, em jeito de espanto, que a leitura deste livro proporciona é a numerosa identificação que a autora faz dos sinais da busca de Deus, da procura da presença do divino por parte dos nossos contemporâneos, sobretudo daqueles que connosco partilham a tradição cultural dita ocidental. Levantamento em contradição, talvez não só aparente, com o hedonismo individualista que impera nas sociedades ocidentais.

Porém, o segredo último dessa capacidade de descortinar sinais “tantas vezes oblíquos ou a tracejado, nas entrelinhas ou na própria sombra daquilo que é iluminado e valioso” [23] reside no olhar de quem procura: “no movimento interior, em abertura e escuta, disponível para abrir os sentidos ao que pode haver para além da superfície e aceitar mergulhar, para ver lá, o que na superfície do real é invisível” [22/23]. Existe, portanto, segundo a autora, uma pré-condição para se poder ver o que nem sempre é visível aos olhos. E essa condição é descrita como “um movimento interior”.

Significa isto não se contentar com a espera de uma evidência de Deus, nunca por nunca oferecida, mas seguir Simone Weil para quem “basta olhar com atenção para encontrarmos Deus em todos os lugares” e assim valorizar “os extraordinários testemunhos (…) por parte de pessoas e grupos com grandeza interior capaz de compaixão e cuidados gratuitos” nos quais, acrescenta Isabel Allegro  de Magalhães, “se manifestam por excelência sinais de Deus para lá de todos os nomes, porque o maior e mais contagiante sinal do Divino será sempre o de uma prática da bondade, do respeito pelo ‘rosto do outro’, do amor e da generosidade, da ‘autenticidade e da esperança’, do apagamento do eu e de um essencial  despojamento do que não é essencial ao coração e ao espírito” [30].

Se para ler, hoje, o divino nas nossas sociedades é necessário aquele “movimento interior” que a autora refere e que se pode descrever como espiritualidade capaz de gerar a “atenção” que Simone Weil colocava no centro da relação com o mundo e os outros, então apetece deixar um desafio à autora. O de oferecer em próximo livro a partilha do seu percurso interior, dos seus encontros e desencontros de crença e descrença, das noites escuras e das manhãs luminosas vividas nesse caminho de aprofundamento espiritual. Não para satisfazer curiosidades alheias. Mas antes como estímulo a que outros percorram, com a confiança e a coragem que a companhia fortalece, as frágeis veredas que cada uma e cada um vai tateando para “encontrar Deus em todos os lugares” e encontrá-Lo como “Alguém mais íntimo de mim do que eu próprio”.

 

Arte, Política e Transcendência
Autora: Isabel Allegro de Magalhães

Editora: Caleidoscópio
192 páginas, €25,00

 

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