A arte de silenciar todos os alarmes

| 26 Out 2023

Alarme, despertador, crise climática. Foto Fotonen

Três diferentes relatórios sobre o estado do planeta dispararam todos os alarmes. Podemos continuar a dormir tranquilamente? Foto © Fotonen.

 

O despertador toca com violência. Uma mão estremunhada, comandada por um cérebro enevoado sonhando com mais uns minutos de sono, silencia-o como uma pancada. Mas de novo, 10 minutos passados, novo alarme, nova pancada. O sonho de continuar no sono, impõe-se, irresistível. As lutas para continuar de olhos fechados não são apenas matinais. Ontem, 25 de outubro, três diferentes relatórios sobre o estado do planeta dispararam todos os alarmes. Felizmente foi ontem. Hoje podemos regressar ao nosso tranquilo sono.

Vamos aos periódicos. Tomemos The Guardian de ontem. Artigo sobre os efeitos devastadores da tempestade Babet na agricultura do Reino Unido: “A tempestade deixou pelo menos sete mortos e centenas de pessoas sem abrigo (…). Estima-se que em Inglaterra 1.250 propriedades tenham sido inundadas, enquanto cerca de 30.000 propriedades necessitaram de erguer proteções contra as inundações”. Ou seja: “Prevê-se que as culturas de batata e de cereais tenham sido fortemente danificadas pelas recentes inundações (…)”. Tudo isto por causa de “fenómenos meteorológicos extremos que se estão a tornar mais ​​frequentes devido ao colapso climático, causando escassez de alimentos e aumentos dos preços” dos bens agrícolas. Ciclo alarmante: quebra da produção, quebra de rendimentos, aumento da inflação.

O Público de ontem referia o alerta lançado pelo relatório da Universidade das Nações Unidas titulando “Humanidade caminha para riscos humanos ‘irreversíveis’: seis ameaças que podem ser catastróficas”. Ameaças que “podem dificultar o quotidiano das sociedades com ‘impactos irreversíveis, catastróficos’”. Entre aquelas seis, “o caso do lixo espacial talvez seja o menos óbvio. Neste momento, existem cerca de 8.000 aparelhos em órbita da Terra e muitos mais pedaços e pedacinhos de lixo espacial que viajam a grandes velocidades, com capacidade de provocar danos nos satélites caso haja colisões. Até 2030, estima-se que sejam colocados mais 100.000 aparelhos em órbita”. Nem o espaço escapa à sobre-exploração causada pela atividade humana!

Regressemos a The Guardian para ficarmos a saber que a União Europeia tem de “reduzir a poluição provocada pelos gases com efeito de estufa quase três vezes mais rapidamente do que o fez na última década” sob pena de não cumprir as metas climáticas que fixou. O alarme está no relatório da Comissão Europeia que lembra o compromisso assumido” para em 2030 produzir 55 por cento menos de gases que aquecem o planeta do que produzia em 1990. Mas nas últimas três décadas reduziu as emissões em apenas 32 por cento”! Em sete anos conseguirá uma redução de 23 por cento? É caso para alarme!

 

Mais conhecimento, maior envolvimento?

Escultura de homem com os olhos vendados. Foto Xtvon

Como se vence a vontade de nos mantermos de olhos fechados por sabermos que se abrimos os olhos algo teremos de mudar nos nossos comportamentos, prioridades e modos de vida? Foto © Xtvon.

 

Relatórios. Cálculos. Números. Alarmes. Alarmes? – Pancada neles que queremos continuar na nossa sonolenta modorra com toda a tranquilidade!

Essa é a questão, a grande questão: por que razão o conhecimento desperta uns e mantém outros de olhos fechados? Como se vence a vontade de nos mantermos de olhos fechados por sabermos que se abrimos os olhos algo teremos de mudar nos nossos comportamentos, prioridades e modos de vida? Contudo, ao contrário do que possa parecer, optar por uma vida favorável à sustentabilidade do planeta é escolher viver de modo saudável. Dois exemplos: andar mais a pé e de bicicleta do que de carro; comer menos carne de vaca e mais legumes – quantas horas menos de ginásio?

Para nos desviarmos do apocalipse não é preciso viver individualmente no inferno. Pelo contrário, contribuir para salvar o planeta dos efeitos calamitosos da barbárie extrativa humana permite não apenas garantir um paraíso futuro, mas obter, desde já, uma vida melhor.

Porém, “a desenfreada intervenção humana sobre a natureza nos últimos dois séculos”[1] levou-nos a uma situação desastrosa, impossível de inverter apenas pela ação dos cidadãos e das famílias. Precisamos de políticas decididas suportadas por escolhas societais. Mas neste campo os últimos três anos caracterizam-se pela tibieza das decisões e pelo empurrar com a barriga para a frente.

O Conselho Europeu da semana passada, destinado a preparar a posição da União na 28ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP28 ) que terá lugar no Dubai de 30 de novembro a 12 de dezembro, terminou com um longo comunicado cheio de nada. Tal é o estado a que chegou a União, o tal ator “mais dinâmico da transição ecológica”. Nenhum novo compromisso concreto, nenhuma proposta quantificada e monitorizável para as três grandes questões que a COP28 enfrenta: financiar e operacionalizar o fundo das perdas e danos [quanto devem os países mais ricos pagar aos países mais pobres pelos custos que estes têm de suportar pelas alterações climáticas decorrentes das emissões de gases com efeito de estufa com origem nos primeiros]; acabar com a extração e o uso do carvão; descarbonizar as economias (fixar metas para acabar com o uso dos combustíveis fósseis e para a emissão de quaisquer gases com efeito de estufa). O comunicado espelha uma União escudada numa retórica bem-intencionada e politicamente correta, repleta de tantos desejos, quanto cheia de medo de propor metas e objetivos mais exigentes.

A ação resoluta pela sustentabilidade do planeta azul, requer, tanto a nível individual como coletivo, uma mudança de perspetiva: deixar para trás a conceção do animal humano como o centro de um mundo visto como “um objeto de exploração, utilização desenfreada, ambição sem limites”[2], acabarmos com a ideia “de um ser humano autónomo, omnipotente e ilimitado” para “nos compreendermos de maneira mais humilde e mais rica”, reconhecendo que “a vida humana não se pode compreender nem sustentar sem as outras criaturas”[3].

Só este movimento de nos deslocarmos do poderoso cimo da pirâmide para o vale partilhado com todas as formas de vida nos permitirá escutar os alarmes que não param de soar  à nossa volta.

 

[1] Exortação apostólica Laudate Deum [LD] nº 10
[2] Ibid. nº 25
[3] Ibid. nºs 67 e 68

 

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