
Narges Mohammadi, 51 anos, ativista iraniana, vencedora do Prémio Nobel da Paz 2023. Foto © Reihane Taravati.
“Zan. Zendegi. Azadi”. Quando as três palavras em persa soaram, pausadamente, na manhã desta sexta-feira, 6 de outubro, a abrir o discurso de anúncio do Prémio Nobel da Paz 2023, muitos perceberam de imediato que a laureado seria uma iraniana. Essas mesmas palavras – que em português significam “mulher, vida, liberdade”, têm servido de slogan para as inúmeras manifestações contra a opressão das mulheres no Irão, na sequência da morte da jovem Mahsa Amini, há pouco mais de um ano. E correspondem a um “lema que expressa adequadamente a dedicação e trabalho de Narges Mohammadi”, a ativista de 51 anos premiada, que começou há mais de 30 a lutar pela liberdade das mulheres no país, e que não para de lutar, mesmo estando presa.
“É a pessoa mais determinada que conheço”, diz sem hesitar o marido e jornalista Taghi Tamani, que se encontra exilado em França com os dois filhos do casal, os gémeos Ali e Kiana, de 17 anos, desde que Mohammadi foi presa pela última vez, em 2015. “Este prémio Nobel irá encorajar a luta de Narges pelos direitos humanos”, acrescenta em declarações à Reuters, citadas no jornal The Guardian.
Narges Mohammadi confirma: “Nunca deixarei de lutar pela realização da democracia, da liberdade e da igualdade. Certamente, o Prémio Nobel da Paz tornar-me-á mais resiliente, determinada, esperançosa e entusiasmada neste caminho, e acelerará o meu ritmo”, assegura a própria ativista num comunicado divulgado após o anúncio deque tinha sido a vencedora.
Acusada de difusão de propaganda contra o Estado e a cumprir uma pena de cerca de 16 anos na prisão de Evin, no Teerão, esta defensora dos direitos humanos recusa-se ao silêncio que tentam impor-lhe. Atrás das grades, tem alertado e criticado a situação “lamentável” em que se encontram os reclusos no seu país e assinado dezenas de artigos sobre maus tratos e torturas de que estes são alvo, particularmente as mulheres.
Num livro intitulado “Tortura Branca”, publicado no final do ano passado, Mohammadi denuncia especificamente as condições em que são mantidas as prisioneiras de consciência na prisão onde se encontra – criada em 1972 pelo regime para encarcerar os opositores políticos – nomeadamente os assédios e ameaças de que são alvo, a recusa de tratamento médico, e a submissão ao regime de solitária, um abuso que ela própria diz ter sofrido.
Por insistir nestas denúncias, foi proibida de falar diretamente com o marido e os filhos durante os últimos 18 meses. “É uma dor insuportável e indescritível”, assumia a ativista em setembro, numa entrevista à agência France Presse sobre a separação da família, citada pela TV5.
“A sua corajosa luta trouxe-lhe enormes custos pessoais. Ao todo, o regime prendeu-a 13 vezes, condenou-a cinco vezes e sentenciou-a a um total de 31 anos de prisão e 154 chicotadas”, resumiu Berit Reiss-Andersen, presidente do Comité Nobel norueguês, no discurso de atribuição do prémio (cujo vídeo pode ser visto abaixo).
O texto recorda que, já na década de 1990, quando era uma jovem estudante de Física, Narges Mohammadi se distinguia como defensora da igualdade e dos direitos das mulheres. Depois de concluir os seus estudos, trabalhou como engenheira e também como colunista em vários jornais reformistas. Em 2003, integrou o Centro de Defensores dos Direitos Humanos, uma organização fundada por outra iraniana, também ela vencedora do Prémio Nobel da Paz em 2003, a advogada Shirin Ebadi. Atualmente, Mohammadi é a vice-Presidente do centro, e passados 20 anos sobre a atribuição do galardão a Ebadi, a luta permanece atual.
“Quanto mais de nós eles prendem, mais fortes nos tornamos”
A onda de protestos do ano passado, na sequência da morte de Mahsa Amini, chegou ao conhecimento dos presos políticos detidos em Evin. E, uma vez mais, “Mohammadi assumiu a liderança”, sublinha o Comité Nobel. “Da prisão, ela expressou apoio aos manifestantes e organizou ações de solidariedade entre os seus companheiros de prisão”. Mesmo assim, a agora Nobel da Paz “conseguiu contrabandear um artigo que o New York Times publicou no primeiro aniversário do assassinato de Mahsa Jina Amini. A mensagem era: ‘Quanto mais de nós eles prendem, mais fortes nos tornamos’. Do cativeiro, a Sra. Mohammadi ajudou a garantir que os protestos não diminuíssem”, destaca ainda o Comité Norueguês.
A luta de Mohammadi foi igualmente distinguida recentemente pela UNESCO e pela organização Repórteres Sem Fronteiras. Quanto ao Nobel da Paz, é um reconhecimento para ela, mas também para as “centenas de milhares de pessoas que, no ano anterior, se manifestaram contra as políticas de discriminação e opressão do regime teocrático contra as mulheres”.
Esta é a quinta vez que o Prémio Nobel da Paz é atribuído a uma pessoa que se encontra na prisão. A primeira aconteceu em 1935, com o alemão Carl von Ossietzky, um crítico do regime nazi. Os outros três casos aconteceram nas últimas três décadas e envolveram a líder pró-democracia birmanesa Aung San Suu Kyi (1991), o ativista dos direitos humanos chinês Liu Xiaobo (2010) e o bielorrusso Ales Bialiatski (2022).
O Prémio Nobel da Paz, no valor de 11 milhões de coroas suecas (949 mil euros), será entregue em Oslo no dia 10 de Dezembro, aniversário da morte de Alfred Nobel, o industrial sueco que fundou os prémios no seu testamento de 1895. Resta saber se Narges Mohammadi poderá estar em Oslo, nesse dia, para o receber. “Se as autoridades iranianas tomarem a decisão certa, vão libertá-la para que possa estar presente na cerimónia de entrega do prémio em dezembro”, afirmou Berit Reiss-Andersen na conferência de imprensa após o anúncio.
A importância que a questão da justiça de género merece
“Oxalá esta homenagem deste Nobel da Paz do Comité Nobel sirva sobretudo para trazer atenção e mediatismo a esta mulher que tanto tem feito pelos direitos humanos no Irão”, afirmou o diretor executivo da Amnistia Internacional Portugal em declarações à TSF. Pedro Neto acredita que “isto pode ser uma ajuda grande para que a pressão sobre as autoridades os leve a atuar e a mudar a sua forma de estar e a forma como lidam com esta mulher e a libertem imediatamente”.
Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, a atribuição do prémio a Mohammadi é um “lembrete importante” de que os direitos das mulheres enfrentam um “forte retrocesso” no Irão e noutros lugares do mundo. “Este Prémio Nobel da Paz é um tributo a todas as mulheres que lutam pelos seus direitos arriscando a sua liberdade, a sua saúde e até as suas vidas”, acrescentou o representante das Nações Unidas.
Também Jerry Pillay, secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas, considera que o Comité não poderia ter feito melhor escolha. “Este prémio reconhece não só o trabalho da Sra. Mohammadi nesta área, como dá destaque à questão da justiça de género a um nível global com a importância que ela merece”, pode ler-se no comunicado divulgado pela organização na tarde desta sexta-feira, que assinala ainda: “Com o autoritarismo em ascensão em muitas partes do mundo hoje, as mulheres e as meninas têm sido fortemente afetadas por tendências regressivas em muitos casos, e a situação de Narges Mohammadi é emblemática dos desafios contínuos e, em alguns lugares, crescentes, da luta pela igualdade de direitos e pela dignidade”.









