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A conversa da família da jornalista Clara Raimundo com o Papa Leão. Foto: Direitos reservados.

Seis mil quilómetros para conhecer um Papa

A aventura de uma família em autocaravana de Fátima ao Vaticano (e volta)

| 12/10/2025

O Papa fez o convite e não se diz que não ao Papa. Bem, talvez não tenha sido propriamente um convite: foi mais um desafio. E, quando o lançou, talvez não se dirigisse exatamente a uma família como a nossa. Mas aceitámo-lo como se assim fosse.

Estávamos todos no Parque Tejo, em Lisboa, naquela manhã solarenga de 6 de agosto de 2023 – eu em trabalho, marido e filhos no meio das pessoas que participavam na missa de encerramento da Jornada Mundial da Juventude. No final, o Papa Francisco disse que nos esperava em Roma, dali a dois anos, para o Jubileu da Esperança.

Os miúdos – três rapazes que tinham na altura 10, 8 e 5 anos – ficaram eufóricos: “O Papa disse para irmos a Roma? Queremos ir! Vamos, não vamos? Temos de ir! Podemos ir? Podemos?”, insistiam. Era difícil resistir a tanto entusiasmo e àqueles olhinhos implorantes de Gato das Botas… a triplicar. Ainda por cima, tínhamos acabado de adquirir uma velhinha autocaravana e andávamos a sonhar com os lugares aonde nos levaria. Foi assim que, no calor do momento, ficaram decididas as férias de 2025: iríamos nela até ao Vaticano.

A viagem, na realidade, começou logo aí, mesmo que só tenhamos partido neste verão. E muita coisa mudou desde aquele agosto de 2023 – incluindo o Papa. Se pensámos em afinal não ir? Nem por isso. O convite de Francisco era para que fôssemos ao encontro do “sucessor de Pedro”, não ao seu encontro. E assim fomos. Agora também com a motivação de conhecer Leão XIV. Mal sabíamos nós que isso iria literalmente acontecer, mas já veremos o que sucedeu.

Quando partimos, sabíamos que o Papa estava, tal como nós, de férias. Leão XIV decidiu passar uns dias na residência de Castel Gandolfo (a 25 quilómetros de Roma, nas margens do lago Albano), retomando assim uma tradição secular interrompida por Francisco, que permanecia sempre no Vaticano durante o verão. E disse na homilia da missa que celebrou por esses dias a partir da catedral de Albano: “Saindo do turbilhão dos compromissos e das preocupações, aproveitemos os dias de verão para saborear alguns momentos de sossego e recolhimento, bem como para, indo a algum lado, partilhar a alegria de nos vermos.” Estava reforçado o convite. Aí íamos nós!

 

Muitas interrogações

Viagem Fátima Roma em autocaravana. Fatima Foto © Clara Raimundo

Primeira etapa, paragem em Fátima. Foto: Direitos reservados

O Santuário de Fátima, apesar de estar a poucos quilómetros de casa, tinha de ser a primeira paragem desta viagem. Já perdi a conta às vezes que lá estive – sozinha ou em família, em trabalho ou em peregrinação, num curto desvio de carro ou após dezenas de quilómetros a pé – e, no entanto, sempre que lá chego emociono-me como se fosse a primeira.

Acredite-se ou não que, naquele exato local, três crianças viram e escutaram Maria, a mãe de Jesus, é difícil não experimentar a atmosfera especial que ali se vive. Na Capelinha das Aparições lembrei-me do Papa Francisco, ele que ali esteve duas vezes ao longo dos seus 12 anos de pontificado e soube ver nela o essencial – e que paradoxalmente ela não tem: “A Capelinha onde nos encontramos constitui uma bela imagem da Igreja: acolhedora, sem portas. A Igreja não tem portas, para que todos possam entrar. E aqui podemos insistir também no facto que todos podem entrar, porque esta é a casa da Mãe, e uma mãe tem sempre o coração aberto para todos os seus filhos, todos, todos, todos, sem excluir nenhum”, disse ele em 2023, um dia antes de convidar todos a ir a Roma.

Sim, certamente que o convite era também para nós. Porque não? Despedimo-nos da imagem da Senhora de Fátima – ela que também irá até Roma ainda este ano, para o Jubileu da Espiritualidade Mariana, em outubro – e seguimos mais confiantes. Até porque – tenho de ser honesta – precisava mesmo dessa confiança: partir para uma viagem de mais de seis mil quilómetros numa autocaravana – e particularmente numa já com 30 anos, em que se levam três miúdos, um deles pré-adolescente – faz despertar uma série de dúvidas e inseguranças. E se temos um furo ou qualquer avaria mais complicada de resolver? E se não encontramos lugar onde estacionar para dormir? E se algum de nós fica doente? E se os miúdos não têm paciência para tantas horas de estrada e estas vão ficar nas suas memórias como as férias mais aborrecidas de sempre? A lista de interrogações poderia continuar, mas os receios não foram tão fortes que nos impedissem de continuar.

 

Nas pegadas de Teresa d’Ávila

Ávila continuou a espalhar o seu encanto ao amanhecer. Foto © Clara Raimundo

A segunda paragem seria já em Espanha: Ávila, a terra de Santa Teresa de Jesus. Chegámos mais tarde do que gostaríamos (logo ali aprendemos que é preciso adicionar 30 minutos às previsões do GPS por irmos de autocaravana, e outros 30 por irmos com crianças). Era já de noite, mas percebemos que, afinal, aquela tinha sido a melhor hora para chegar: a imagem da extensa muralha iluminada na escuridão, com a magnífica catedral gótica a despontar, é uma das mais belas que guardamos desta viagem.

Ávila continuou a espalhar o seu encanto ao amanhecer, despertando-nos ao toque dos sinos das inúmeras igrejas da cidade, que à vez pareciam querer dizer-nos “bom dia”, deixando-nos como única alternativa levantarmo-nos e explorar aquela que, desde 1985, é Património Mundial da Unesco.

No interior da muralha, são vários os locais de visita obrigatórios – a catedral de Ávila, a basílica que foi construída sobre a casa-natal de Santa Teresa de Jesus, a Plaza del Mercado Chico, a basílica de São Vicente… – e também a própria muralha, ao longo da qual se pode caminhar e desfrutar das vistas.

Mas o que mais nos marcou está fora dela: trata-se do Mosteiro da Encarnação, onde Teresa entrou, aos 20 anos, e onde passou a maior parte da sua vida. Com uma das suas áreas transformada em museu, cuja entrada custa apenas dois euros, permite aos visitantes cruzar a mesma porta que a futura santa atravessou em 1535, e percorrer alguns dos espaços onde passava os seus dias, nomeadamente a sua cela ou a escadaria onde ela conta que terá tido uma visão de Jesus enquanto criança. Na última sala, situada no antigo campanário do Mosteiro, é possível encontrar várias relíquias de Santa Teresa e alguns dos objetos que usava. Entre eles, uma pequena tábua de madeira que deixou os miúdos particularmente curiosos e impressionados: era a sua almofada. A partir dali, ninguém estava autorizado a reclamar das camas da autocaravana.

No fim da visita – que caso haja algum voluntário disponível é guiada –, ainda tivemos a oportunidade de conversar brevemente com uma das irmãs carmelitas que ali vivem atualmente. Dado tratar-se de um mosteiro de clausura, as conversas fazem-se através do torno, uma pequena abertura na parede que permite a passagem do som. Chamava-se Sagrario, tinha 56 anos, e quando lhe contámos que vínhamos de Fátima e perguntámos se conhecia o santuário, respondeu que nunca lá tinha estado, mas que aquele mosteiro onde estávamos também era um santuário mariano. Espantámo-nos: “A sério?”. “Sim, na igreja temos a imagem da Virgem da Clemência, no lugar da qual Santa Teresa viu um dia Nossa Senhora, a verdadeira, enquanto rezava as vésperas.” Fomos espreitar a imagem, que pode ser vista na igreja do mosteiro. E seguimos para a terceira paragem desta viagem (a que em rigor é melhor chamarmos peregrinação): Lourdes, já nos Pirinéus franceses.

 

Em Lourdes, uma grande notícia

Viagem Fátima Roma em autocaravana. Lourdes Foto Clara Raimundo

Ao anoitecer, o santuário de Lourdes deixa de ser iluminado pelo sol, mas enche-se de luz com a procissão das velas em que participam milhares de peregrinos de todo o mundo. Foto © Clara Raimundo

Foi precisamente quando acabávamos de cruzar os portões do Santuário de Lourdes que o telefone tocou. “Clara, como está a correr a viagem? Onde estão?”, perguntaram do outro lado da linha. “Está a correr tudo bem! Chegámos a Lourdes!”, respondi. “Bem, aparentemente, em Lourdes aconteceram coisas que mudaram a história da Igreja, e nós temos uma notícia para lhe dar que pode marcar a história da vossa família: vão poder saudar o Papa após a audiência-geral da próxima semana!” Precisei de me sentar – ali mesmo, no chão – para processar aquela informação.

Alguns dias antes, tinha feito o pedido à Prefeitura da Casa Pontifícia, mas sem muita esperança de que a resposta pudesse ser positiva. E quando entrámos em Lourdes, um lugar aonde tantos peregrinam na esperança de encontrar a cura para as suas doenças, físicas ou espirituais, recebemos aquela notícia. Só me vinha à mente uma frase do Papa Francisco: “A esperança nunca desilude!”.

Com a notícia, a visita ao Santuário teve, é claro, um sabor especial. Situado no coração dos Pirenéus, ele foi construído em torno da gruta onde a jovem Bernadette Soubirous contou que testemunhou 18 visões da mãe de Jesus, a partir de 11 de fevereiro de 1858. Só o caminho para lá chegar, vindos de Espanha, já tinha valido a pena. Faz-se por entre vales e montanhas, algumas delas ainda com neve no topo, e quase sempre com o som da água a correr por companhia.

Já no santuário, a água continua a ser protagonista. Conhecida pelas suas propriedades curativas, corre em mais de uma centena de fontes, e também nas piscinas, onde os peregrinos que queiram podem banhar-se.

Ao anoitecer, a partir das 21 horas, o santuário deixa de ser iluminado pelo sol, mas enche-se de luz com a procissão mariana em que participam milhares de peregrinos de todo o mundo, rezando o terço e cantando o Avé Maria de Lourdes. Muitos deixam depois as suas velas – ou acendem outras – nas chamadas Capelas da Luz, voltadas para a gruta, que ali ficam a arder a noite toda, como que prolongando a sua oração.

Já no parque de campismo que fica mesmo ao lado do santuário, sentada lá fora sob o céu estrelado, fui espreitar as notícias. Por onde andaria o Papa, com quem iríamos estar em breve? Descobri que se preparava para regressar a Roma. Nos últimos dias de férias, que disse aos jornalistas terem sido “de trabalho”, falara ao telefone com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e também com Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana. Apelara, uma vez mais, ao fim da guerra, à proteção dos civis, ao respeito pelo direito humanitário. Apelo que vem fazendo repetidamente, desde o dia em que assomou à varanda da Basílica de São Pedro e soubemos que seria ele o novo líder da Igreja Católica.

Percebi que Leão XIV também fora visitar o Observatório Astronómico do Vaticano, um dos mais antigos do mundo, que fica dentro das vilas pontifícias de Castel Gandolfo, e fizera uma videochamada com o astronauta norte-americano Buzz Aldrin. A dada altura, a conversa com aquele que foi o segundo homem a pisar a Lua e a ver com seus próprios olhos a Terra lá de cima, já lá vão 56 anos, “transformou-se em oração”, contava o jornalista Paolo Ruffini, prefeito do Dicastério para a Comunicação da Santa Sé. Terão lido juntos o Salmo 8, que fala sobre a grandeza da criação: o céu, a lua, as estrelas… e depois o homem, tão pequeno que não se vê do espaço, mas a quem “pouco falta para que seja um ser divino”, porque Deus o criou “acima das obras das suas mãos” e tudo sujeitou “aos seus pés”.

E ali, sob o céu estrelado e a lua em quarto minguante, compreendi: rezaram para que esta humanidade que pode fazer a guerra seja também capaz de restaurar a paz.

 

Carros de luxo e um santuário a céu aberto

Monaco Catedral © Diocese de Monaco

A Catedral de Nossa Senhora Imaculada, em pedra calcária branca no ponto mais alto do Mónaco, contrasta, na sua simplicidade e atmosfera serena, com o ruído, brilho e glamour que caracterizam o resto do principado. Foto © Diocese do Mónaco. 

A quarta paragem que fizemos pode parecer descabida numa peregrinação, mas não se pode esquecer que íamos com três rapazes, todos eles apaixonados por carros, e um deles fã de Fórmula 1. Por isso, estavam quase tão entusiasmados com o facto de visitarem o Mónaco e percorrerem parte do circuito de Monte Carlo do que com irem conhecer o Papa. E a verdade é que todos desfrutámos de um dia de passeio pela pequena cidade-estado entre as montanhas e o Mediterrâneo, que a todos deslumbrou: os pequenos sobretudo pelos carros topo de gama que a todo o momento passavam por nós ou que íamos encontrando estacionados à porta de lojas, restaurantes e hotéis de luxo; os pais, pelas magníficas vistas, pelos muitos e bem cuidados jardins, e também pela Catedral de Nossa Senhora Imaculada, construída em pedra calcária branca no ponto mais alto, e que na sua simplicidade e atmosfera serena contrasta com o ruído, brilho e glamour que caracterizam o resto do principado.

Do Mónaco à fronteira italiana foi um instantinho e todos celebrámos com alegria a entrada no país onde se encontrava o destino desta grande viagem. A paragem seguinte também não seria a mais óbvia, mas pareceu-nos obrigatória ao passarmos naquela região: o Parque Nacional das Cinque Terre, também ele inscrito no Património Mundial da Unesco como “paisagem cultural” e, diga-se, um verdadeiro santuário a céu aberto. As Cinque Terre (“cinco terras” em tradução literal) são Riomaggiore, Manarola, Corniglia, Vernazza e Monterosso Al Mare, cinco pitorescas localidades construídas junto ao mar naquele pequeno – mas lindíssimo – pedaço da costa da Ligúria. É possível conhecê-las de comboio, de barco, ou mesmo a pé (para os amantes de caminhadas). Quando percorríamos o caminho entre Riomaggiore e Manarola, lembrei-me do início do livro bíblico do Génesis, quando se repete que Deus viu que tudo era belo. É muito provável que estivesse a olhar para ali.

Bela, belíssima, é também Siena, a nossa última paragem antes de Roma. Mais uma vez, chegámos mais tarde do que gostaríamos (porque pelo caminho ainda parámos em Pisa para os miúdos comprovarem que a torre está mesmo inclinada e tirarem fotos a tentar “endireitá-la”). Felizmente tínhamos à nossa espera uma amiga portuguesa que conhece a cidade como a palma da sua mão (viveu ali nos últimos três meses) e que nos fez uma magnífica walking tour pelos pontos mais importantes dentro das suas muralhas, como o Duomo, uma das igrejas góticas mais incríveis de Itália; o Santuário de Santa Catarina, construído sobre o local onde esta nasceu; a Basílica de San Domenico, onde está guardada (e exposta para veneração dos menos impressionáveis) a cabeça da santa; ou os muitos miradouros que oferecem diferentes vistas da cidade pintada de mil tons de ocre e ouro e um vislumbre da magnífica paisagem rural da Toscana.

Como não podia deixar de ser, o roteiro por Siena terminou no coração da cidade, a Piazza del Campo, onde decorre aquela que é talvez a corrida de cavalos mais famosa em todo o mundo, o Palio, a cada 15 de agosto. Ali, fizemos como os locais e sentámo-nos no belíssimo pavimento de tijolo vermelho, enquanto conversávamos e desfrutávamos de um delicioso gelado italiano. Enquanto isso, Leão XIV já estava de regresso ao Vaticano e aproveitara o seu “tempo de antena” após a oração do Angelus para voltar a apelar à paz, sem poupar nas palavras para descrever a “gravíssima situação humanitária em Gaza, onde a população civil é esmagada pela fome e continua exposta à violência e à morte”.

Não pude deixar de sorrir quando percebi que também tinha dirigido umas palavras aos média, tantas vezes vistos por um certo clero como “inimigos” da Igreja: “Obrigado a todos os jornalistas que contribuem para uma comunicação de paz e verdade”, disse Leão XIV. Teria sido por ele ver os jornalistas como “aliados” que o meu pedido fora aceite?…

 

O encontro com o(s) Papa(s)

Viagem Fátima Roma em autocaravana. desenho para o Papa Foto Clara Raimundo

O desenho feito pelos mais novos e entregue ao Papa Leão, com o itinerário. Foto © Clara Raimundo

Eis que chegou o dia de rumar ao Vaticano, o destino desta grande peregrinação, o centro geográfico do catolicismo, a casa do “sucessor de Pedro”, com quem também nos iríamos encontrar. À medida que diminuíam nas placas os quilómetros que indicavam a distância até Roma, imaginávamos como seria o encontro com o Papa Leão XIV. O que lhe diríamos? O que nos diria ele? Deveríamos levar-lhe um presente? Entre o entusiasmo e o nervoso miudinho, ainda nos custava a acreditar na oportunidade que nos tinha sido concedida…

Ao entrar em Roma, chegámos a pensar que afinal esse encontro não se concretizaria. A cidade estava a abarrotar de jovens – era a semana do seu Jubileu! – e tínhamos de levantar os bilhetes para a audiência na Praça de São Pedro… precisamente onde estava prestes a iniciar-se a missa de abertura! Valeu-nos a simpatia e compaixão de um guarda-suíço, providencialmente colocado no nosso caminho, que ao perceber que nunca conseguiríamos alcançar a tempo a porta do Palácio Apostólico se ofereceu para ir levantar os bilhetes por nós.

E na manhã seguinte lá estávamos. Sentados na terceira fila de cadeiras mesmo ao lado do pequeno palanque a partir do qual o Papa faria a sua catequese, foi com emoção que o vimos chegar à praça no seu papamóvel, e aproximar-se cada vez mais, até tomar o seu lugar, ali mesmo à nossa frente.

No final da audiência, integrámos a fila para o bacciamano, ou “beija mão”, e ao ver algumas das pessoas que nos precederam a ajoelhar-se e beijar-lhe o anel, percebemos que ele ficava mais confortável se não levássemos o nome à letra e o cumprimentássemos de um modo mais informal.

Assim fizemos, quando chegou a nossa vez. “Santo Padre, bom dia!”, comecei por dizer-lhe em português. Ele sorriu e perguntou: “São Paulo?”, achando que tínhamos vindo do Brasil. Esclareci: “Lisboa, Portugal!”. O sorriso dele abriu-se ainda mais, e de imediato nos disse que poderíamos continuar a falar em português, ao mesmo tempo que nos estendia a mão, com um sorriso aberto e muito simpático. Todos o saudámos, cada um disse o nome, e de seguida contámos-lhe o que nos levara até Roma, com a ajuda de um desenho que os miúdos tinham feito e que o mais velho ficou incumbido de lhe mostrar: ali estávamos nós os cinco, dentro da autocaravana, e por baixo uma estrada com os principais pontos do percurso que percorremos. Leão XIV leu os nomes de todas as localidades por onde passáramos e mostrou-se impressionado.

Dissemos-lhe como tinha sido importante o desafio do Papa Francisco e que sentíamos muitas saudades dele. A expressão de Leão XIV revelou que essas saudades eram partilhadas. Mas assegurámos-lhe que estávamos muito felizes por ter sido ele o escolhido no conclave e por nos estar a acolher tão bem. Perguntei depois, com algum receio de já estar a abusar do tempo e da paciência dele: “Que conselho tem para uma família como a nossa?”. O Papa pensou por breves instantes e respondeu: “A família é um lugar privilegiado para encontrar Jesus. É um lugar privilegiado para conhecê-lo, para conhecer a sua Palavra, mas é também importante compreender que essa Palavra implica determinadas ações no dia a dia de cada um de nós. Não se esqueçam disso.” E acrescentou: “Tentem sempre encontrar, em cada dia, um momento para rezar, isso é muito importante para que o amor, a fé e a esperança cresçam.”

Agradecemos os conselhos e agradecemos também todos os esforços que tem feito pela paz no mundo. O Papa baixou a cabeça em sinal de gratidão e, com um misto de dor e esperança no olhar, prometeu não desistir de fazer o que estivesse ao seu alcance.

Leão XIV leu os nomes de todas as localidades por onde passáramos e mostrou-se impressionado. Foto: Direitos reservados

 

Podia ter ficado ali a manhã toda – fora tão boa, simples e fluida a conversa com o Papa!, apesar de, com a emoção do momento, duas ou três perguntas mais profissionais que tinha pensado fazer-lhe terem ficado esquecidas… – mas a fila atrás de nós era grande. Enquanto fomos atravessar a Porta Santa e visitar a Basílica de São Pedro, o Papa Leão continuou, com toda a paciência e simpatia, a saudar cada um até a fila terminar.

Permanecemos em Roma até ao final da semana. Uma Roma ainda mais bonita e alegre por estar cheia de jovens (dos quais quase 13 mil eram portugueses). Visitámos os principais lugares turísticos, do Coliseu à Praça de Espanha, passando pelo Panteão e pela Piazza Navona, a Fontana di Trevi ou a Villa Borghese. Comemos pizza, muitos gelados e bebemos água em quase todas as fontes por onde passávamos (sem conseguir descobrir como pode a água sair delas tão fresca com o calor abrasador que se fazia sentir).

Perdemos a conta às igrejas onde entrámos e por último, mas não menos importante, fomos à Basílica de Santa Maria Maior, a preferida do Papa Francisco, aquela aonde ele tantas vezes foi rezar diante do ícone mariano Salus Populi Romani, que a tradição católica atribui ao evangelista São Lucas. E aquela onde fez questão de ser sepultado. Diante do seu túmulo, vivemos um dos momentos mais fortes desta peregrinação. Porque, de tão simples e discreto, quase nem dávamos por ele no meio de toda a sumptuosidade da basílica. E quando os nossos olhos se cruzaram com a reprodução da sua cruz peitoral na parede, a pedra mármore rasa e lisa no chão, a inscrição Franciscus, e uma única rosa branca em cima, sentimos verdadeiramente a sua presença: ali estava ele, fiel ao que foi toda a sua vida, ao Jesus que ele tanto colocava no centro da sua fé.

 

O regresso por outro caminho

Viagem Fátima Roma em autocaravana. Avignon. Foto Clara Raimundo

Palácio dos Papas, em Avignon, residência pontifícia durante um período conturbado da história do catolicismo. Foto © Clara Raimundo.

Deixámos Roma no dia em que o milhão de jovens que participaram no Jubileu rumava a Tor Vergata para a vigília e missa de envio com Leão XIV. Assistimos às celebrações online, já em Assis, terra do santo de quem o Papa Francisco tomou o nome, e também do seu melhor amigo… Leão. Coincidência ou não, uns dias mais tarde, o irmão do Papa Leão, John Prevost, confirmava numa entrevista a um canal norte-americano: “Ele era próximo de Francisco. Era mesmo. Eles eram muito amigos”, garantiu.

No nosso caminho de regresso, seguiram-se a artística Florença, Módena e o seu museu da Ferrari, a cosmopolita Milão, e ainda um saltinho à Suíça para conhecer a elegante Genebra (e comer chocolate suíço, claro). Entrámos de novo em França, espreitámos Annecy ali mesmo ao lado (só para confirmar que faz jus ao título de “joia dos Alpes franceses” e que teremos mesmo de ali regressar numa das próximas viagens) e descemos até Avinhão (numa peregrinação ao encontro do líder da Igreja Católica, tínhamos de passar naquela que é conhecida como “a cidade dos Papas”, por ali terem residido durante um período conturbado da história do catolicismo).

A última paragem foi em Saragoça, onde descobrimos mais uma referência simbólica à figura de Maria. Segundo a tradição do lugar, foi ali que se deu a sua primeira aparição, quando Maria ainda era viva e residia em Jerusalém. A mãe de Jesus teria aparecido então a Tiago, acompanhada por um grupo de anjos que transportavam uma coluna de pedra. Isto porque o apóstolo tinha nas mãos a difícil tarefa de pregar o Evangelho nos confins ocidentais da Europa, e Maria quis encorajá-lo a continuar a sua missão. Segundo a mesma tradição, Tiago foi encarregado por Nossa Senhora de construir uma capela em sua honra no local da aparição.

E ali estávamos nós, na Basílica de Nossa Senhora do Pilar, diante de uma coluna que é considerada um símbolo de força e fé. Diante dela esteve também, por duas vezes, o Papa João Paulo II, e numa das paredes da basílica é possível ler excertos das mensagens que proferiu durante essas visitas. Uma delas termina assim: “Sede firmes na fé como este pilar.” No fim desta viagem, sentimos que o apelo era também para nós, porque se a peregrinação começou antes mesmo de termos partido, os verdadeiros desafios da vida, para quem crê ou não, começam ao chegar.

 

Este texto foi inicialmente publicado na edição de dia 3 de outubro de 2025 da revista Expresso/E. 

 

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