A aventura do regresso às origens

| 31 Mar 2022

Ascensão de Cristo (Atos I, 1–9): Estudo para vitral

Ascensão de Cristo (Atos I, 1–9): Estudo para vitral” (ca. 1875–84), de Sir Edward Burne-Jones Original do MET Museum. Domínio Público.

Postos a caminho pelo Papa Francisco, que colocou o “povo de Deus” no eixo do processo de discernimento sobre a Igreja no Terceiro Milénio, deparámo-nos espantosamente com a raiz do próprio cristianismo: essas comunidades de vida e de fé, tão próximas que eram “um só coração e uma só alma”, e tão cheias de amor a Deus que não podiam senão irradiá-Lo.

Não sabíamos ao que íamos e, no entanto, fomos. “Fazei como Ele vos disser” (João 2, 5). Fizemos o que o Papa pediu e da forma como pediu: usámos o método do discernimento espiritual, tão simples como o respirar. Lembrámos a nossa história pessoal com Deus, as luzes e as sombras, os sonhos cumpridos e por cumprir, as dores e os desejos. Juntos, e Deus connosco (é evidente), sonhando a Igreja a partir da memória de um caminho já percorrido.

Assim, a memória individual vê-se transformada em memória coletiva. Mas, muito mais do que isso, cai misteriosamente sobre nós todo o peso da memória do povo de Deus: somos já não só nós nesse micro-poliedro, mas toda a Igreja desde o princípio, e escutámos em nós as vozes desses primeiros, cercados por tantas dificuldades, mas nunca paralisados, antes sempre a caminho de um outro (onde Deus habita) com o fogo do Amor dentro de si.

Sacudindo as poeiras da letargia e de tantos mundanismos a que cedemos tão facilmente, cada encontro teve o dom de nos confrontar com essa Igreja de Cristo que Ele ama e acompanha, revelando-nos o modo. O modo é Ele mesmo, o Único Modelo, tão próximo, tão simples, tão despojado e tão comprometido que não podemos inventar nem fingir não ver.

Ele, o Mesmo, a pedir-nos que nos abeiremos e descubramos sem medo todos os descartados de hoje, os leprosos, os estrangeiros, os paralíticos e os cegos, os surdos, as prostitutas, os ladrões, os Zaqueus, as Madalenas todas dadas como perdidas e que Ele recebeu e amou.

Ele, o Mesmo, a pedir-nos para repousarmos não na Arca de Deus mas no Deus da Arca, recusando o bafio das seguranças falsas e idolátricas e buscando incessantemente o Seu Rosto, princípio e fim de todos os rostos que Ele veio resgatar.

Ele, o Mesmo, dizendo “vão”, “saiam”, abram as portas e deixem-nas abertas, ou apenas “mantenham-se disponíveis”, “dêem o que levam” ainda que sejam cinco pães e dois peixes (Jo, 6,1), mas dêem, não deixem que não se cumpram os milagres possíveis pela vossa incúria, egoísmo ou falsa humildade.

Caindo em nós, todos nos vimos desconfortáveis no nosso lugar. A um cristão não é dado ter um lugar, segurança alguma. O único lugar é Cristo e cada dia é o Seu dia em nós, se nos pusermos à escuta e estivermos ligeiros de carga e coração.

Em surdina ou em avalanche, todos percebemos bem fundo: a Igreja não é o senhor padre, “a Igreja és tu, somos nós juntos”, onde Ele se faz indubitavelmente presente, como fez com os discípulos de Emaús (Lucas 21, 13), como faz com todos os que o procuram, juntos, de coração sincero.

Ainda que nada aconteça, já muito aconteceu. O eco das vozes do povo de Deus permanece como farol nos que se dispuseram a segui-lo, tão diversas e ao mesmo tempo harmoniosas que não podemos esquecê-las. Fica connosco, Senhor, não deixes que anoiteça.

Dina Matos Ferreira é coordenadora local da dinâmica sinodal na paróquia católica de São Francisco Xavier, em Lisboa.

 

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Jesuíta morreu aos 80 anos

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador novidade

Por onde passou lançava projectos, dinamizava equipas, deixava-as a seguir para partir para outras aventuras, sempre com a mesma atitude. Poucos dias antes de completar 80 anos, no passado dia 2 de Junho, dizia na que seria a última entrevista que, se morresse daí a dias, morreria “de papo cheio”. Assim foi: o padre jesuíta António Vaz Pinto, nascido em 1942 em Arouca, 11º de 12 irmãos, morreu nesta sexta-feira, 1 de Julho, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado desde o dia 8, na sequência de um tumor pulmonar que foi diagnosticado nessa altura.

Abusos sexuais: senti que não acreditavam em mim

Testemunho de uma vítima

Abusos sexuais: senti que não acreditavam em mim novidade

Na conferência de imprensa da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, que decorreu quinta-feira, 30 de junho, em Lisboa, foram lidos três testemunhos de vítimas de abusos, cujo anonimato foi mantido. Num dos casos, uma mulher de 50 anos fala do trauma que os abusos sofridos lhe deixaram e de como decidiu contar a sua história a um bispo, sentindo ainda assim que a sua versão não era plenamente aceite como verdadeira.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

De 1 a 31 de Julho

Helpo promove oficina de voluntariado internacional

  Encerram nesta sexta-feira, 24 de Junho, as inscrições para a Oficina de Voluntariado Internacional da Helpo, que decorre entre 1 e 3 de Julho. A iniciativa é aberta a quem se pretenda candidatar ao Programa de Voluntariado da Organização Não Governamental para...

Doação de ara romana reforça espólio do Museu D. Diogo de Sousa

Ocaere, divindade autóctone

Doação de ara romana reforça espólio do Museu D. Diogo de Sousa novidade

A doação de uma ara votiva romana guardada ao longo de várias décadas pela família Braga da Cruz, de Braga, enriquece desde esta sexta-feira, dia 1, o espólio do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa (MADDS), estando já exposta para fruição do público. A peça, que passou a integrar a coleção permanente daquele Museu, foi encontrada num quintal particular no município de Terras de Bouro, pelo Dr. Manuel António Braga da Cruz (1897-1982), que viria, depois, a conseguir que o proprietário lha cedesse.

Capelania da Univ. Coimbra: Promover o encontro entre ciência e espiritualidade, entre crentes e não-crentes

Contributos para o Sínodo (25)

Capelania da Univ. Coimbra: Promover o encontro entre ciência e espiritualidade, entre crentes e não-crentes novidade

Organizar iniciativas de diálogo com não-crentes e crentes de outras religiões, abrindo a Igreja à sociedade e fazendo dela um motor do progresso social e da comunhão humana; assumir a dimensão da Sinodalidade como verdadeira abertura ao século XXI; e promover o encontro entre a ciência e a espiritualidade, sempre possível, cria pontes da Igreja com as instituições de Ensino Superior – estas são algumas das propostas da comunidade da Capelania da Universidade de Coimbra, em resposta à maior auscultação alguma vez feita à escala planetária, lançada pelo Papa Francisco, para preparar a assembleia do Sínodo dos Bispos de 2023.

Alter do Chão recebe recital de voz e piano

Festival Terras sem Sombra

Alter do Chão recebe recital de voz e piano novidade

O Cineteatro de Alter do Chão acolhe este sábado, 2 de julho, pelas 21h30, um recital da soprano Carla Caramujo e da pianista Lígia Madeira, no âmbito do Festival Terras sem Sombra (FTSS). Intitulado “O Triunfo da Primavera: Canções de Debussy, Poulenc, Fragoso, Lacerda, Schubert e Wolf”, o concerto promete levar o público a diferentes geografias musicais, do século XIX ao período contemporâneo.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This