A Baixa Pombalina vai ser dos turistas

| 1 Mar 20

Elevador de Santa Justa, na Baixa de Lisboa. Foto ©  Luca Galuzzi/Wikimedia Commons

Tem sido notícia que a Baixa Pombalina, em Lisboa, vai ficar quase sem carros, a não ser os dos residentes e pouco mais. Na verdade, ninguém contesta que o planeta tem de ser preservado, mas não com medidas pseudo-populistas ou apenas na moda, balofas e impensadas para a dimensão que têm.

Tudo precisa de ser refletido e é numa visão sistémica e abrangente da pessoa, da vida e do mundo, que faz falta pensar – todo o ser tem o seu contexto. Pensar que há pessoas que vivem e trabalham na Baixa; que têm amigos e família que não vivem ali e que gostam ou precisam ou simplesmente querem receber em casa; que há múltiplos serviços que ali existem; que estes precisam de fazer cargas e descargas e também de ter clientes que vêm de fora e trazem carro; que há parques de estacionamento que estão concessionados por décadas e que vão falir (?); que há pessoas que vivem das feiras da Praça da Alegria, da Avenida da Liberdade, do Príncipe Real e que necessitam de levar os carros com os seus bens para comercializar; que a nossa cidade não é plana para poder ser vivida sem automóveis; que há pessoas com mobilidade reduzida que só nestes veículos se podem deslocar; que temos as nossas vidas organizadas em função de um modelo de cidade que não pode mudar radicalmente de um dia para o outro ou em poucos meses; que andaram a fazer jardins que, hoje, estão murchos em vez de serem o pulmão que deviam ser, por falta de manutenção; que, nós que aqui vivemos, se quisermos reciclar, temos de andar alguns quarteirões para encontrar contentores onde possamos largar os lixos recicláveis – mas só às vezes, pois grande parte deles estão cheios porque não são despejados com a periodicidade que deviam e, deste modo, lá gastamos combustível e mandamos gases para a atmosfera…

É urgente deixarmo-nos de fantasias. Se é certo que é preciso ter em conta os três tempos do tempo – passado, presente e futuro; se é certo que ninguém com algum senso contesta a importância e a urgência de tratarmos melhor o planeta; se é certo que o ar está carregado do que não devia e as alterações climáticas estão a ser, em alguns lugares, quase dramáticas, devido à forma como temos tratado o nosso planeta; se é certo que tudo isto tem que mudar responsável e consistentemente; é também certo que a Terra é dos seres vivos, entre os quais, por acaso, se incluem os seres humanos.

Não podem tomar-se decisões sem empatia. Este exercício de se colocar no lugar do outro é fundamental para se saber o que se faz, com alguma lucidez. Querem que a Baixa fique deserta de residentes? Na verdade, já não somos muitos os que aqui vivemos…;

Querem que a Baixa fique cheia de turistas até se fartarem de não ter nada para comprar nem ninguém que os sirva? Na verdade, já há mais estrangeiros do que nativos;

Querem ver restaurantes a fechar, consultórios sem pacientes, lojas sem clientes a não ser os ocasionais?

Querem que o comércio de rua vá por água abaixo…?

É preciso educar as consciências e, com isso, incentivar bons hábitos; fomentar a responsabilidade e a pertença; mostrar ao mundo que o mundo precisa de ser melhor e mais bem tratado. Mas assim não dá. Se querem mandar-nos embora de onde vivemos; se querem que deixemos de trabalhar onde trabalhamos, avisem e deem-nos tempo. Nós vivemos hoje, com um passado e esperamos que com um futuro – o qual, dentro do possível, gostaríamos que não fosse incerto e boicotado desde já…

Alguns pensadores disseram: Ontem é história, amanhã é mistério, hoje é dádiva. Por isso se chama presente. Será que é deste que nos querem amputar?

Deixem em paz quem apenas quer viver e trabalhar; quem quer ser e estar de acordo com as oportunidades que a vida lhe proporciona e que o seu esforço constrói. Não inventem o que não serve ninguém, nem o homem, nem o clima, nem o planeta.

Sejam responsáveis com as medidas que tomam. Fundamentem-se e fundamentem-nas a ver se nos entendemos de uma vez por todas. Já chega de infantilidades, para não conotar de forma mais dura a conduta daqueles que não sabem o que fazem nem como devem fazer.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

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