
“Porque a beleza é-me importante. Não exactamente no vestir, mas no meu espaço, no meu viver. A beleza não tem de ser sempre nova, por isso, gosto de objectos belos, que nos acompanhem a vida.” Foto © Inês Patrício
Ouvi Mujica, que passou mais de 10 anos preso numa solitária, 7 anos sem poder ler um livro. Tendo tido muito tempo para pensar, concluiu: “ou somos felizes com pouco, com pouca bagagem, pois a felicidade está dentro de nós, ou não conseguimos nada. “ Ele acrescentou, “Isto não é a apologia da pobreza, mas a apologia da sobriedade. (…) Quando compro algo, não o compro com o dinheiro, mas com o tempo de vida que tive de gastar para ter aquele dinheiro. Mas há uma diferença, a única coisa que não se pode comprar, é a vida. A vida gasta-se. “
Fiquei presa na palavra Sobriedade.
Minimalismo era a palavra que andava, até agora, mais perto do que eu sentia. Ter o necessário, aprendi com alguns dos meus. Assunto por vezes de gozo, mas enervam-me promoções, reduções e liquidações. O excesso das lojas, a enormidade da oferta, a desorganização propositada a fazer-nos ver o que não precisamos, a desejar o que nunca quisemos. Já ouvi muitos relatos de colegas que se afundam em trabalho para pagar as despesas que vão colecionando, “desperdiçando a vida perdendo a liberdade” disse também Mujica.
“Aprende a viver com pouco, se queres passar bem”, canta o Jorge Palma. Em Berlim parece-me mais fácil. A necessidade do “parecer” é menor. O mercado em segunda-mão é muito forte e, não sendo garantia nenhuma de menor consumo, pelo menos possibilita-me uma escolha mais focada e sustentável. Sobriedade, frugalidade, temperança, moderação.
A personagem Sofya, de Gorki, disse, “um ser humano é por natureza simples e deve vestir com simplicidade, com beleza, mas com simplicidade.”
E aqui entrou a palavra Beleza.
Porque a beleza é-me importante. Não exactamente no vestir, mas no meu espaço, no meu viver. A beleza não tem de ser sempre nova, por isso, gosto de objectos belos, que nos acompanhem a vida. Por outro lado, recorrentemente, quando penso em oferecer algo à minha filha, penso que objectos já temos demais. Então, vamos ao teatro, vamos a um museu, vamos requisitar livros à biblioteca, vemos um filme ou ouvimos música boa, dançamos. Ela ensinou-me, desde muito pequenina, a não subestimar a sua capacidade de apreciar e entender o belo.
Ofereceu-nos um amigo, a explicação de Sophia de Mello Breyner: “Há uma beleza que nos e dada: beleza do mar, da luz, dos montes, dos animais, dos movimentos e das pessoas. Mas há também uma outra beleza que o homem tem o dever de criar: ao lado do negro da terra é o homem que constrói o muro branco onde a luz e o céu se desenham. A beleza não é um luxo para estetas, não é um ornamento da vida, um enfeite inútil, um capricho. A beleza é uma necessidade, um princípio de educação e de alegria.”
E aqui podemos regressar à sobriedade? Podemos. Que gastemos então a nossa vida com o que é belo, com as palavras boas, com os gestos cuidados, com o interesse honesto por quem é diferente, com a capacidade para ouvir, com a educação empenhada, com a justiça universal, com a paz construída, com a arte à solta!
Inês Patrício é médica, vive em Berlim com o marido de olhos de mar e uma filha solar.









