[Nas margens da filosofia – LIII]

A beleza que nos poderá salvar

| 15 Abr 2023

Mark Ivan Rupnik, Adão, arte, mosaico,

Pormenor de um mosaico de Marko Rupnik na Cova de Santo Inácio, em Manresa (Catalunha, Espanha), representando Adão comendo o fruto que Eva lhe dera. Foto © Medol, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

 

A thing of beauty is a joy forever
John Keats

Em primeiro lugar quero deixar bem claro o meu pesar e a minha repulsa perante a situação que estamos a viver na Igreja relativamente ao abuso de menores e de pessoas indefesas. Do catecismo que aprendi em criança constavam os “pecados que bradam aos céus”, e eram quatro: homicídio voluntário, pecado sensual contra a natureza, opressão de órfãos e viúvas e não pagar o salário a quem trabalha. Já nessa altura gostava de compreender o que me ensinavam e, não percebendo o segundo pecado, pedia explicação para o mesmo. As respostas que obtive eram igualmente imperceptíveis, o que me levou a só muito mais tarde resolver este enigma. Hoje partilho a tese de que este segundo pecado é extremamente reprovável quando se trata de abusos a crianças, merecendo um castigo exemplar. E declaro que tal pressuposto está subjacente a este meu texto. 

De igual modo defendo uma punição severa para todos aqueles que dentro ou fora da Igreja tenham abusado de pessoas indefesas, quer pela sua idade, quer pela sua condição social, quer pela sua fragilidade mental e física. Horrorizei-me ao saber das denúncias entretanto ocorridas da existência de tais abusos em determinados movimentos eclesiais, bem como em paróquias, grupos de escuteiros, grupos de jovens e em múltiplas associações da responsabilidade da Igreja Católica. Perturbaram-me a confusão e a tibieza das primeiras reacções dos bispos quanto a tais abusos sobre pessoas indefesas. Admito que houve um desejo de “salvar a face”, mas perante as evidências começa-se agora a assumir culpas e responsabilidades e, embora mais lentamente do que desejável, a justiça vai-se impondo. Tenho consciência de que não pode haver respostas imediatas pois há que apurar a verdade das acusações. Tudo é lento e talvez tenha de o ser, para não se cometerem erros. Mas é com alívio que começamos a ver o afastamento de alguns elementos do clero, em consequência das denúncias que sobre eles ocorreram.

Enquanto membro da Igreja espero que os nossos bispos reajam às acusações com celeridade e sensatez, entregando os criminosos à justiça que os punirá, aplicando-lhes as leis vigentes. Mas devo dizer que fiquei chocada quando, na notícia publicada em 5 de Abril no 7MARGENS se menciona a possibilidade de retirar de igrejas e edifícios religiosos os painéis e pinturas do padre Marko Rupnik, alegando as suas culpas enquanto abusador de menores e de indefesos. 

De modo algum podemos pactuar com comportamentos altamente censuráveis, como é o caso das violências de cariz sexual. Mas infelizmente nem sempre os grandes artistas e escritores se pautaram por códigos éticos aceitáveis e nem por isso deixaram de ser reconhecidos e de fazerem parte do património artístico mundial. Entre os pintores lembro Filippo Lippi, o sedutor da jovem freira Lucrezia Buti, Leonardo Da Vinci, Miguel Ângelo, Caravaggio, Goya e na contemporaneidade Diego de Rivera e Picasso, entre outros. Mantendo-me na actualidade surgiram casos no mundo do cinema como Charlie Chaplin, Polanski, Woody Allen, Kevin Spacey, em cantores como Michael Jackson, Elvis Presley, Caetano Veloso e David Bowie, em escritores como Nabokov e Marion Zimmer Bradley. 

Recorrendo ao que escrevi no início deste texto reitero que as interrogações levantadas de modo algum pactuam com o caso dos abusos a menores na Igreja Católica em Portugal. Mas penso que se impõe como critério a conhecida afirmação: “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Neste caso, a morte de Rupnik impedi-lo-à de prestar contas num tribunal terreno mas estamos certos que ele será julgado noutras instâncias. É um facto que nele se conciliam um grande artista e, simultaneamente, um grande pecador. É verdade que a sua obra não o redime do sofrimento das vítimas nem dos pecados que cometeu nesse sentido. Contudo, a beleza dos seus painéis, convidam-nos à oração e ao recolhimento, podendo constituir um veículo de comunicação com a Transcendência. Penso que ficaríamos espiritualmente mais pobres se os dispensássemos ou destruíssemos. Mas percebo a posição daqueles para quem o nome do seu autor é sinónimo de infâmia. Por isso retomo o verso de Keats com que iniciei este texto, neste caso fruindo da alegria que me proporciona a contemplação dos painéis de Rupnik. E congratulo-me com a beleza dos mesmos, convencida de que, tal como defendeu Dostoievski, a beleza poderá salvar o mundo.

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática (aposentada) de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.

 

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