Ferreira de Almeida lido por Herculano Alves

A Bíblia atirada ao mar já vai em 200 milhões de cópias

| 30 Jun 21

Herculano Alves, Bíblia, Portugal

Herculano Alves, autor da obra A Bíblia em Portugal. Foto © Agência Ecclesia/Paulo Rocha.

 

Uma primeira edição da primeira tradução completa da Bíblia para português atirada ao mar por estar “cheia de erros” é um dos pontos de partida da investigação do frade capuchinho e investigador em ciências bíblicas Herculano Alves. Esse trabalho deu origem à obra A Bíblia em Portugal, em seis volumes, que nesta quinta-feira, 1 de Julho, será apresentada em Gouveia, num dos actos preparatórios do congresso internacional A Bíblia na Cultura Ocidental, que se realiza no próximo ano.

A partir das 14h15, é possível ouvir uma conferência do cardeal Gianfranco Ravasi, sobre a “Bíblia, um código para compreender a cultura ocidental”. Haverá ainda uma outra intervenção do patriarca de Lisboa, sobre o tema “Portugal, um país bíblico?”. Cinco outras intervenções – Luís Carlos Amaral, Eugénia Magalhães, o bispo Manuel Felício, Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco – falarão acerca de cada um dos cinco volumes da obra. É possível seguir a sessão através de inscrição prévia para o endereço catedraestudosglobais.ceg.uab@gmail.com.

Da autoria do frade capuchinho e investigador em ciências bíblicas Herculano Alves, os seis volumes e seis mil páginas d’A Bíblia em Portugal pretendem analisar os reflexos do texto sagrado de judeus e cristãos no culto e na cultura, a partir da tradução de João Ferreira de Almeida (1628-1691). O ministro protestante, que emigrou jovem de Portugal para o Oriente, trabalhou sobretudo em Batávia (actual Jacarta, na Indonésia), e foi o primeiro a traduzir uma versão integral da Bíblia para português.

“Ele foi o ponto de partida”, diz Herculano Alves à agência Ecclesia, acerca dos seis volumes do trabalho que agora concluiu. “A primeira tradução do Novo Testamento foi corrigida por holandeses, em Amsterdão, e ficou cheia de erros. João Ferreira de Almeida ficou furioso com aquela obra”, tendo em conta a deturpação feita ao seu trabalho, “e ele próprio disse que não queria aquela edição”. Resultado: “Os holandeses deitaram-na ao mar para que ela desaparecesse mesmo.”

O tradutor, protestante calvinista, guardara entretanto 50 exemplares da sua versão, que depois corrigiu à mão. Mas só um, que está na Biblioteca Nacional, é conhecido. A tradução de João Ferreira de Almeida é um marco na obra publicada por frei Herculano Alves sobre os 23 séculos de traduções da Bíblia e sobre a Bíblia no culto e na cultura portuguesa, porque é “de longe” a obra mais editada em língua portuguesa, recorda o autor, citado na Ecclesia.

O catálogo de João Ferreira de Almeida totaliza entre 150 a 200 milhões de exemplares editados em todo o mundo, refere ainda frei Herculano Alves. A tradução inicial feita a pensar nos “portugueses do Oriente, da orla marítima da África e da Ásia, que falavam a língua portuguesa, sobretudo no comércio”, acabaria por se tornar a versão mais divulgada entre as comunidades protestantes e evangélicas de língua portuguesa, mesmo que com versões e adaptações feitas para Portugal e o Brasil.

Hoje, a versão de Ferreira de Almeida é publicada em Portugal pela Sociedade Bíblica. Mas há também uma versão com texto fixado por José Tolentino Mendonça, exegeta bíblico e actual cardeal bibliotecário da Santa Sé, dividida em oito volumes e com ilustrações da pintora Ilda David’.

A obra A Bíblia em Portugal, de Herculano Alves, refere ainda, no seu volume V, a “primeira Bíblia católica”, traduzida pelo padre António Pereira de Figueiredo, no tempo do Iluminismo pombalino, e que na obra do capuchinho é analisada ao longo de 250 páginas.

Esta sessão em Gouveia é a primeira de várias iniciativas que antecipam o congresso internacional do próximo ano. No próximo sábado, 3 de Julho, a Sociedade Bíblica promove também uma gala de entrega dos prémios do concurso Bíblia Moov, destinado a crianças e jovens em idade escolar.

Biblia, Portugal, Herculano Alves

Bíblias. Foto © Agência Ecclesia/Paulo Rocha.

 

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