Quando pensamos na geografia da Bíblia, a nossa imaginação viaja quase automaticamente para Jerusalém, para o deserto do Sinai ou para o Egito dos faraós. São os cenários mais conhecidos da história sagrada. No entanto, há um dado histórico surpreendente que raramente aparece nas conversas, nas aulas ou mesmo nas homilias: uma parte significativa da história do Antigo Testamento passa-se no território do antigo Império Persa, correspondente em grande parte ao atual Irão.
Não se trata de um detalhe marginal. Pelo contrário. Uma das fases decisivas da história bíblica decorre precisamente sob domínio persa.
Tudo muda no ano 539 antes de Cristo, quando o rei Ciro II conquista a Babilónia. Até então, os judeus viviam no exílio, deportados décadas antes pelos babilónios. O que poderia ser apenas mais uma mudança de império torna-se, na visão bíblica, um verdadeiro ponto de viragem.
Ao contrário de outros conquistadores, Ciro permite que os povos exilados regressem às suas terras e reconstruam os seus templos. A Bíblia regista o momento com clareza: “Assim diz Ciro, rei da Pérsia: o Senhor, Deus do céu, deu-me todos os reinos da terra e encarregou-me de lhe construir uma casa em Jerusalém.” (Esdras 1,2)
Graças a esse decreto, começa o regresso a Jerusalém e a reconstrução do Templo. Em linguagem simples: sem a decisão política de um rei persa, grande parte da história posterior de Israel poderia ter sido muito diferente.
A presença persa na Bíblia não se limita a este episódio. Vários livros do Antigo Testamento decorrem diretamente dentro do Império Persa. O livro de Ester, por exemplo, desenrola-se inteiramente na corte do rei Xerxes I, identificado na Bíblia como Assuero. A narrativa passa-se na cidade de Susa, uma das capitais do império.
É nesse palácio que uma jovem judia se torna rainha e acaba por salvar o seu povo de uma perseguição que parecia inevitável. A história mostra uma realidade muitas vezes esquecida: os judeus não viviam apenas em Jerusalém, mas espalhados por todo o vasto território persa.
Outro exemplo é Neemias. O protagonista do livro bíblico com o seu nome não começa a história em Jerusalém, mas na corte do rei Artaxerxes I, onde serve como copeiro real – um cargo de enorme confiança. É precisamente nessa posição que pede autorização para regressar à sua terra e reconstruir as muralhas de Jerusalém.
O próprio texto descreve o momento com simplicidade: “Eu era copeiro do rei… disse-me o rei: que desejas? Então orei ao Deus do céu.” (Neemias 2,1-4)
Entre decisões imperiais e orações discretas, a história bíblica vai-se escrevendo.
Mas talvez o episódio mais surpreendente seja o que encontramos no livro do profeta Isaías. Num texto raro na Bíblia, um rei estrangeiro é chamado “ungido” do Senhor – título normalmente reservado aos reis de Israel. “Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, cuja mão direita eu tomei.” (Isaías 45,1)
É um detalhe extraordinário. Um soberano pagão, de um império distante, é apresentado como instrumento da ação de Deus.
Durante cerca de dois séculos, o povo judeu viveu sob domínio persa. Foi nesse período que se reconstruiu o Templo de Jerusalém, que se reorganizou a vida religiosa do povo e que se consolidaram muitas das tradições que moldariam o judaísmo posterior.
Ou seja: uma parte essencial da fase final do Antigo Testamento acontece dentro do quadro político da Pérsia.
Há aqui uma ironia histórica que vale a pena sublinhar. O país que hoje conhecemos como Irão surge frequentemente nas notícias associado a conflitos ou tensões geopolíticas. No entanto, na história bíblica, a antiga Pérsia aparece muitas vezes como instrumento de libertação e de restauração.
A própria Bíblia diz: “O Senhor despertou o espírito de Ciro, rei da Pérsia.” (Esdras 1,1)
Talvez seja uma boa recordação para tempos em que olhamos para o mundo apenas através das manchetes. A história sagrada lembra-nos que, por vezes, os caminhos de Deus passam por lugares inesperados – até pelos palácios de um império que hoje chamaríamos simplesmente… Irão.
Sérgio Carvalho é professor. Contacto: novostempos.sergiocarvalho@gmail.com
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