“Coragem não é ausência de medo; é a decisão de falar apesar desse medo”, afirma a bispa episcopaliana Mariann Budde, de Washington, aquela que, há cerca de dois meses, ousou pedir, olhos nos olhos, ao recém-empossado presidente Trump misericórdia para os filhos dos imigrantes em risco de expulsão e para a comunidade LGBTQ+.
A declaração surge numa entrevista ao jornal alemão Zeit, na última semana, a propósito do próximo lançamento, na Alemanha, do livro de Mariann Budde, Mutig Sein (ser corajoso). Traduzida do original publicado em inglês em 2023 com o título “Como aprendemos a ser corajosos: momentos decisivos na vida e na fé”, a edição alemã tem um prefácio da autora e inclui o texto da homilia por ela lida perante Trump, em 21 de janeiro último, na catedral de Washington D. C.
Precisamente sobre o tema do livro, escrito, portanto, antes do acontecimento que projetou o nome desta dirigente cristã em todo o mundo, ao ser-lhe perguntado o que significa coragem ela começa por frisar que “não é algo que se possui”, mas algo “que se aprende” sempre que, faz notar, “nos aventuramos no desconhecido, sempre que corremos um risco, de cada vez que saímos da nossa zona de conforto”. E cita, nesta perspetiva, Eleanor Roosevelt, esposa do ex-presidente dos EUA Franklin D. Roosevelt, que disse uma vez que “coragem é fazer exatamente aquilo que alguém acha que não é capaz de fazer”.
A sua tomada de posição dissonante e questionadora perante a iminência de políticas que se anunciavam violadoras de direitos básicos das pessoas foi vista como um exemplo e mesmo um modelo de coragem, que, para muitos, a tornou uma heroína. Questionada sobre este aspeto, Mariann Budde reconhece ouvir isso com frequência: “Finalmente aí está alguém que faz alguma coisa!” E conta como se sentiu e o que acha do que fez:
“Eu estava nervosa? Naturalmente. Estou sempre nervosa. E, sim, foi um momento duro, de grande responsabilidade. Mas uma heroína? Não. Eu apenas fiz o que tinha que ser feito. Para mim foi um sermão teologicamente claro, quase nada espetacular. Mas os tempos em que vivemos catapultaram-no –tornaram-no maior do que eu jamais imaginaria”.
Ela nega, por conseguinte, o heroísmo, preferindo ver o que fez como testemunho do quotidiano. E vai avisando que qualquer pessoa que procure viver a coragem apenas no heroísmo “torna-a uma exceção, e isso é perigoso”. Pelo contrário: a coragem não é nada barulhenta nem repentina. “A coragem é um músculo silencioso que treinamos todos os dias: ficar quando ir embora seria mais fácil; perdoar quando cada fibra do ser clama por vingança; dar uma mão, apesar da ferida. Esses momentos somam-se e preparam-nos para o que não podemos planear – para os poucos grandes momentos em que ou crescemos ou quebramos”.
Para a bispa de Washington, só coragem também não basta. É necessário também responsabilidade. E dá o exemplo do teólogo protestante Dietrich Bonhoeffer que, ao contrário dos seus compatriotas que foram refazer a vida para os Estados Unidos, retornou a Berlim e, mais tarde, opôs-se aos nazis, com o custo da própria vida.
Ainda sobre o sermão da cerimónia associada aos atos de tomada de posse de Trump, o entrevistador do Zeit quis saber se terá sido apropriado pedir misericórdia a um presidente eleito democraticamente e se isso não seria mais apropriado se dirigido a um rei, por exemplo.
A bispa responde que “essa misericórdia não é uma categoria legal”, mas remete para uma dimensão “profundamente humana e profundamente bíblica”. E explica: “poderia ter falado de compaixão; mas eu queria dirigir-me a ele diretamente. Não apenas como político, mas como alguém que se vê abençoado por Deus. Eu queria trazer a humanidade para aquele espaço”.
O resultado foi que o visado exigiu um pedido de desculpas (não aceite) e alguns apoiantes dele sugeriram que o nome de Mariann fosse incluído nas “listas” de pessoas a deportar. Mas o testemunho foi inspirador para muita gente.










