Desmond Tutu (1931-2021)

A bondade, o riso, a alegria e a compaixão

| 26 Dez 2021

Desmond Tutu em 2009, em Copenhaga, a discursar perante cerca de cinco mil pessoas numa acção contra as mudanças climáticas. Foto © Peter Williams/WCC

 

 

“Bondade, riso, alegria, carinho, compaixão, essas são as coisas que irão prevalecer”, dizia em 2008, perante uma assembleia de líderes do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), em Genebra, o arcebispo anglicano Desmond Tutu, da África do Sul.

Não serão a maldade nem a injustiça ou a opressão a vencer, acrescentava o Prémio Nobel da Paz de 1984. Desmond Tutu, rosto da luta contra o regime do apartheid, presidente da Comissão Verdade e Reconciliação (CVR) depois do fim do regime segregacionista, defensor da não-violência, riso e humor aberto, construtor de pontes entre cristãos, crentes e pessoas de boa-vontade, morreu neste domingo, 26 de Dezembro, na Cidade do Cabo, África do Sul. Tinha 90 anos.

“Hoje, o mundo junta-se ao luto pela morte de uma figura imponente na luta pela liberdade, pela dignidade e pelos direitos humanos”, lê-se numa declaração do Conselho Mundial de Igrejas, em cujas estruturas Tutu exerceu vários cargos. A morte ocorreu na sequência de complicações do cancro da próstata, de que o arcebispo sofria desde 1997.

“Consciente do seu serviço ao Evangelho, através da promoção da igualdade e reconciliação racial” na sua terra natal, “o Papa confia a sua alma à misericórdia amorosa do Deus Todo-Poderoso”, diz a carta enviada por Francisco ao núncio apostólico (embaixador) da Santa Sé na África do Sul, Peter B. Wells. Citado na Ecclesia, o portal de notícias do Vaticano evoca também a figura de Desmond Tutu como “símbolo da resistência ao apartheid, promotor da reconciliação, consciência da África do Sul”, elogiando a sua “luta incansável e não-violenta contra o regime racista” e o seu papel no processo de reconciliação nacional.

A mesma fonte recorda que o arcebispo anglicano foi citado pelo Papa na sua encíclica Fratelli Tutti, publicada em Outubro do ano passado: “Neste espaço de reflexão sobre a fraternidade universal, senti-me motivado especialmente por São Francisco de Assis e também por outros irmãos que não são católicos: Martin Luther King, Desmond Tutu, Mahatma Mohandas Gandhi e muitos outros”, escreveu.

Em Portugal, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, referiu-se a “uma das grandes figuras do século XX”, que “deixa um legado para toda a humanidade”, um “lutador maior pela justiça social, direitos humanos, liberdade e pluralismo na África do Sul”.

Além da sua oposição à injustiça e segregação racial, Tutu foi também um profeta do perdão, recorda ainda o CMI. “No seu papel como presidente da Comissão de Verdade e Reconciliação da África do Sul, tornou-se, como recorda Baldwin Sjollema, antigo chefe do Programa do CMI de Combate ao Racismo, ‘o pastor da nação’. Tutu sublinhou repetidamente que não poderia haver futuro sem perdão. ‘Só se pode ser humano numa sociedade humana.’ Se viveres com ódio no teu coração, desumanizas não só a ti próprio, mas também a tua comunidade’, disse Tutu.”

Ao agradecer a Desmond Tutu pelo seu trabalho, Mandela disse-lhe: “A sua alegria pela nossa diversidade e o seu espírito de perdão são tanto parte da sua imensurável contribuição para a nossa nação como a sua paixão pela justiça e a sua solidariedade para com os pobres.”

O impacto do ministério e da vida de Tutu “estendeu-se muito para além das fronteiras do seu próprio país e para além” do momento histórico da luta contra o apartheid, considera ainda o CMI. “Tutu acreditava apaixonadamente que a fé cristã é inclusiva de todos e que a responsabilidade cristã é pelo bem de todas as pessoas.” Aliás, nos tempos do apartheid – que era apenas defendido pelas igrejas reformadas neerlandesas –, Tutu aliou-se a católicos, metodistas e outros cristãos, que contestavam igualmente o regime segregacionista.

Também o secretário-geral em exercício do CMI, Ioan Sauca, afirmou: Através da sua vida e obra, [Tutu] tornou-se uma imagem de dignidade e liberdade para todos os seres humanos e inspirou muitos a usar os seus dons e talentos ao serviço dos outros e da missão e tarefa profética da Igreja. Hoje, com a sua morte, o mundo fica muito mais pobre.”

 

Nem médico, nem professor

Desmond Tutu: “Não pode haver futuro sem perdão.” Foto © Peter Williams/WCC

 

Nascido a 7 de Outubro de 1931, em Klerksdorp, no Transvaal, zona mineira de ouro no centro da África do Sul, Desmond Mpilo Tutu quis ser médico, mas acabou, ainda nos anos 1950, professor do ensino secundário como o pai, Zachariah, porque a família (a mãe, Aletta, era lavadeira) não podia pagar-lhe os estudos. Na sequência da promulgação de leis de supremacia racial decretadas pelo Governo sul-africano, que relegavam os negros para escolas de segunda categoria, Tutu viu-se compelido a deixar o trabalho.

O ex-professor decidiu então estudar para exercer o sacerdócio na Igreja Anglicana. A sua inspiração, conta Glenn Frankel no Washington Post, foi o facto de ele ter visto o bispo branco Trevor Huddleston, que um dia cumprimentou, na rua, a mãe de Desmond. “Não podia acreditar nos meus olhos: um homem branco que cumprimentou uma mulher negra da classe trabalhadora”, diria ele, anos mais tarde, ao jornalista do Post, Steven Mufson, no livro Fighting Years: Black Resistance and the Struggle for a New South Africa (“Anos de luta: A Resistência Negra e a Luta por uma Nova África do Sul”). Huddleston viria, depois, a ser expulso pelo Governo para a sua Grã-Bretanha natal, tornando-se o mentor espiritual do arcebispo Tutu.

Depois de concluir o mestrado em Teologia no King’s College, em Londres, Tutu voltou ao seu país e ao ensino, mas agora naquela área. Ao mesmo tempo, começou a administrar o Fundo de Educação Teológica, do Conselho Mundial de Igrejas, que administrava de bolsas de estudo.

Sucessivamente nomeado como primeiro decano anglicano negro de Joanesburgo em 1975, bispo de Lesoto um ano mais tarde e secretário-geral do Conselho Sul-Africano de Igrejas em 1978, utilizou esses lugares para tomar posições firmes em defesa da igualdade racial, com métodos não-violentos. “À medida que a agitação negra se espalhou pelo país a partir de 1984, os seus escritórios na Khotso House no centro de Joanesburgo tornaram-se o centro nevrálgico do movimento de libertação, albergando uma série de organizações anti-apartheid, incluindo sindicatos e organizações comunitárias de base”, lê-se no mesmo perfil do Post.

Durante esses anos, nota o The Guardian, Tutu foi provavelmente o religioso mais viajado do mundo depois do Papa João Paulo II, sempre com o intuito de defender a causa da justiça racial no seu país.

Aliás, depois de ter ido encontrar-se com o Papa ao Vaticano, o seu passaporte foi-lhe confiscado temporariamente.

 

Se for para a prisão…

 

“Eu não quero ir para a prisão. Mas se for para a prisão por pregar o evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, que assim seja.” Foto © Igor Sperotto/WCC

 

No plano interno, Tutu estava em conflito com o Governo do Presidente Botha, por defender sanções internacionais ao regime. Enquanto pressionava, com encontros com ministros ou o próprio Botha, secundado pelo apoio do CMI, da Comunhão Anglicana e de outras instâncias cristãs internacionais, no sentido de o Governo ceder e abolir o apartheid.

Esse empenhamento valeu-lhe o Nobel da Paz em 1984 e também o boicote activo à cerimónia, por parte do Governo sul-africano da época. No discurso de recepção do Nobel, Tutu disse que a violência estava sempre errada. Mas “a violência primária é a do apartheid, a violência das transferências forçadas da população, da educação inferior, da detenção sem julgamento”, acrescentaria. Por várias vezes, aliás, a sua oposição a qualquer forma de violência valeu-lhe fortes críticas dos militantes anti-apartheid e Tutu chegou mesmo a salvar supostos polícias e outras pessoas da multidão enfurecida em manifestações contra a segregação.

A base das suas posições era a profunda convicção de que a sua fé cristã lhe impunha falar em nome dos mais pobres e dos marginalizados. “Eu não quero ir para a prisão”, dizia. “Mas se for para a prisão por pregar o evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, que assim seja.”

Glenn Frankel recorda ainda, no Washington Post, que mesmo na cerimónia solene do Nobel, o arcebispo não resistiu a fazer humor, com uma anedota: “um zambiano vangloria-se do ministro dos assuntos navais do seu país a um sul-africano, que aponta de forma depreciativa que a Zâmbia, encravada no interior, não tem marinha. O zambiano responde: ‘Bem, a África do Sul tem um ministro da justiça, não tem?’.”

Já depois do fim do apartheid, Tutu foi eleito sucessivamente primeiro bispo negro de Joanesburgo (1985-86), arcebispo anglicano da Cidade do Cabo (o mais alto cargo da Igreja no país) e líder da Conferência das Igrejas de Toda a África.

 

“Um bom homem”

 

Em Vancouver, Canadá, Agosto de 1983, discursando na sexta assembleia do CMI. Foto © Peter Williams/WCC

 

Em 1995, cinco anos depois do fim do apartheid e da libertação de Nelson Mandela, Tutu foi convidado pelo agora Presidente Mandela para presidir à Comissão de Verdade e Reconciliação, cuja tarefa era registar todas atrocidades e violações de direitos humanos do regime anterior, ao mesmo tempo que estabelecia indemnizações às vítimas e amnistiava os perpetradores que se disponibilizassem para relatar publicamente os seus actos.

Nesse papel, concretizou o conceito Ubuntu, que ficou inscrito na nova Constituição sul-africana e deu origem a um movimento internacional: uma pessoa é uma pessoa por causa de outras pessoas, o que implica responsabilidade mútua e compaixão.

Baldwin Sjollema, que foi responsável do programa do Conselho Mundial de Igrejas para o combate ao racismo, recorda a centralidade da ideia do perdão no pensamento e na acção de Desmond Tutu: “Só se pode ser humano numa sociedade humana. Se viveres com ódio no teu coração, desumanizas não só a ti próprio, mas também a tua comunidade”, dizia Tutu. “Mas a sua visão – e a de Mandela – não era partilhada por todos. Outros diriam que era uma exigência demasiado grande para ser feita a qualquer pessoa, especialmente às pessoas que tinham sofrido e foram maltratadas. Mais modestamente, argumentavam que aprender a viver juntos e a respeitarem-se uns aos outros era tudo o que se podia pedir”, escreve Sjollema, no tributo que dedicou a Tutu.

Mesmo na sua missão na Comissão de Verdade e Reconciliação, o arcebispo valia-se muitas vezes do seu sentido de humor para desbloquear momentos de tensão. Mas o próprio viria a reconhecer que a África do Sul pós-apartheid tinha falhado na sua promessa de maior justiça para a maioria dos negros pobres do país. As conclusões da Comissão valeram muitas críticas por se ter centrado nas piores violações mas, de qualquer modo, o trabalho resultou em cinco volumes, entregues a Mandela em 1998.

Casado em 1955 com Leah Nomalizo Shinxani, com quem teve quatro filhos (Trevor, Theresa, Naomi e Mpho), Desmond Tutu retirou-se da vida pública em 2010, apesar de continuar a receber convites de muitos lados e de ele próprio não se coibir de comentar temas de injustiça ou de violações de direitos humanos.

Em 2013 disse que não votaria no ANC (partido no poder na África do Sul) por causa da corrupção, desigualdade e uso da violência, e por não conseguir combater a pobreza no país. Em 2016, quando fez 85 anos, defendeu o direito de ajudar a morrer e, no ano passado, juntou-se a outros líderes religiosos para pedir o fim da criminalização das pessoas LGBTQ+.

A designação de “nação arco-íris” que ele usava acabou por se colar à África do Sul. Uma das ideias que repetia era simples: “As diferenças não existem para separar, para alienar. Somos diferentes precisamente para compreender que precisamos uns dos outros.” (, ed. Quidnovi) E n’O Livro da Alegria (ed. Nascente), Tutu e o Dalai Lama procuram responder à pergunta sobre como encontrar alegria num mundo em mudança e em sofrimento.

Em 2008, numa conferência diante de estudantes franceses, um aluno de uma escola católica, com 13 anos, dizia: “Ele é um bom homem.”

 

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