A busca de Jesus – em memória de Dimas Almeida

| 16 Out 21

Dimas de Almeida.

Foto: Dimas de Almeida. © Ana Serras

 

Num testamento deixado à família e ao Grupo de Carcavelos, Dimas Almeida cita a célebre pergunta que Jesus fez aos seus discípulos: “Quem dizeis vós que eu sou?”

É espantoso que esse texto (Marcos 8: 27-35) esteja incluído no evangelho deste dia litúrgico, precisamente quando evocamos a memória do nosso amigo, e tenha sido citada no último texto que nos legou e que passo a citar:
“É Ele que com a sua permanente pergunta ‘quem dizeis vós que eu sou?’, nos cria e recria como cristãos. Como Igreja.” (in Gratidão, Dimas Almeida. Ditado ao seu filho Paulo Almeida, no Hospital do Mar).

A esta pergunta de Jesus responde Pedro dizendo: Tu és o CRISTO.

Contudo, o apóstolo resiste a aceitar o que isso significava para o próprio Jesus: “…importava que o Filho do homem padecesse muito, e fosse rejeitado pelos anciãos, e príncipes dos sacerdotes, e pelos escribas, e que fosse morto, mas que depois de três dias ressuscitaria” (v. 31).

Pedro teria preferido que Jesus realizasse o que ele imaginava, em conformidade protocolar com o que ao tempo se admitia ser a ideia de Messias. Porém Jesus afirmou, com firmeza, que Pedro não compreendia as coisas de Deus, mas as dos homens.

Eis o grande dilema que sempre nos coloca o evangelho. Ou se aceita o que é de Deus ou se fica pelo que é dos “homens”.

Afinal, a grande tentação que Jesus teve igualmente de enfrentar, parece ter sido a de seguir o esperado por todos ou, em vez disso, seguir numa direção inversa ao que seria suposto.

Em vez do caminho do poder, da fama e da efemeridade, preferiu Jesus o do Servo Sofredor conforme o descrito na antevisão do profeta Isaías. Dito por outras palavras, o caminho desconcertante da Eternidade.

Se Pedro pretendia que Jesus fizesse o itinerário que imaginava e em sintonia com o que ele próprio esperava, o facto é que Jesus propunha exatamente o contrário, não por qualquer determinismo, mas por pura intenção de cumprir a missão que lhe fora atribuída pelo Pai.

Em resumo, a grande tentação passa por ser a de não nos abrirmos à experiência de Deus.

Estar-se em abertura é, necessariamente, algo que nos conduz num horizonte de desarmonia entre aquela que é a nossa vontade enquanto discípulos e a vontade de Deus.

Esta tensão permanece entre as nossas instituições e aquilo que irradia do evangelho. Por um lado somos hábeis, constantes na elaboração de regras, de fronteiras, como se disso dependesse a nossa identidade, resistindo à dimensão desafiadora do próprio evangelho. Por outro percebemos que essa resistência ao evangelho limita a nossa experiência no que toca a uma vida vivida numa abertura ao novo. Numa outra perspetiva, não somos nós que provocamos Deus e o instigamos a vir ao nosso encontro, mas é ele que nos convoca para um percurso que em muitas circunstâncias não é triunfal ou glorioso. O desafio não é o de O adequarmos a nós mas o de nos adequarmos a Ele.

Bem sabemos que nos desconcerta o que vivemos. Sentimos que contraria a nossa vontade, desconstrói o nosso projeto, deixa-nos, quando necessário, atirados para o deserto, conduz-nos para o lugar do incompreensível. Isso é assim porque em todas as circunstâncias ponderamos primeiro o que nos é mais vantajoso e talvez não o devêssemos fazer, pelo menos sempre. Colocarmo-nos na perspetiva de Deus parece ser a forma de melhor compreender o sentido da nossa existência individual e coletiva.

Perder-se da questão e da resposta que Jesus nos coloca é admitir que podemos fazer um discurso inequívoco capaz, pela sua evidência e certeza, de resolver e assim eliminar a própria pergunta. Responder ao “Quem dizeis vós que eu sou?” implica uma busca permanente feita, em todo o caso, num diálogo constante com o Cristo vivo.

No texto que nos lega o Dimas Almeida e aqui referido, é possível perceber que nos afastamos da questão quando lhe queremos dar uma resposta cabal e definitiva, e dela nos aproximamos quando percebemos que temos de o fazer numa dimensão de comunidade, numa espécie de busca comum, numa caminhada com companheiros.

Numa palavra, Dimas Almeida percebeu que esta pesquisa de e por Jesus é, para lá de tudo, uma tarefa coletiva a realizar na dimensão do humano e na relativização das fronteiras e dos domínios.

 

Paulo Medeiros Silva é pastor da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal; este texto corresponde à homilia da missa de 11 de Setembro, na celebração do 30º dia da morte de António Dimas de Almeida, celebrada na Capela do Rato, em Lisboa. A outra homilia, proferida pelo padre Peter Stilwell, foi já publicada pelo 7MARGENS.

 

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