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casal em restaurante com smartphones telemóveis Foto Syda Productions

[Segunda leitura]

A calar ao telemóvel

| 06/05/2022

casal em restaurante com smartphones telemóveis Foto Syda Productions

Afinal, quem nunca viu um homem e uma mulher sentados à mesa do restaurante, frente a frente, comendo a sua rotineira refeição e quase não dirigindo palavra um à outra, ou vice-versa? Foto ©´Syda Productions.

 

Aqui há tempos, o dono de um restaurante confessou, numa entrevista, que é e sempre foi avesso à existência de wi-fi (rede sem fios) nos restaurantes. Porquê? Porque, quando há disponibilidade de rede, as pessoas agarram-se aos telemóveis, deixam de falar umas com as outras, ainda que sentadas à mesma mesa, e “parece que estamos numa sala de velório”.

Nada que qualquer um de nós não tenha já testemunhado, certo?…

O telemóvel é uma invenção fantástica, incrível, fabulosa. Já mal imaginamos como eram as nossas vidas antes de haver telemóveis. Mas, com o evoluir dos aparelhinhos, aquilo passou a ser de uso muito mais vasto do que simplesmente para falar com alguém (para telefonar ou receber um telefonema, lembram-se?…) Há até quem brinque dizendo que os modernos telemóveis – os chamados “smartphones”, curioso nome – servem para fazer muitíssimas coisas, inclusive para… telefonar!

A ironia disto é que um aparelho que foi feito para a gente falar serve agora, e cada vez mais, para a gente calar. Estamos à mesa com alguém, a conversa não sai ou não nos apetece que saia, ficarmos a olhar uns para os outros em silêncio é pouco agradável, e… puxamos do telemóvel. Pronto, já ficamos confortavelmente calados. Lemos notícias, vemos fotos, espreitamos vídeos, consultamos o Facebook ou o Instagram, lemos ou mandamos mensagens escritas, e por ali vamos estando, todos e cada um com o seu aparelhinho nas mãos e nos olhos, bem caladinhos, até que… chegou a comida! Vamos lá, duas de conversa rápida, que a comer não dá tanto jeito andar às voltas com o telemóvel (embora haja quem consiga!) e já voltamos ali. Já voltamos, não a falar, mas a calar ao telemóvel. Ele, afinal, não nos põe à conversa. Ele, afinal, põe-nos calados.

Há muito boa gente que agradece esta verdadeira graça tecnológica. Não é nada agradável (nem é fácil, convenhamos) estarmos com alguém prolongadamente em silêncio. Seja gente estranha, seja gente próxima. E “meter conversa” é quase uma necessidade, para ver se se preenche aquele vazio. “Então, e essa saúde?…” “Cá vamos, nunca pior… Por acaso tenho andado com uma dor…” “Ai sim?… Olha que eu também…” Se não é a saúde, o tempo salva-nos sempre. “Isto é que vai uma seca…” “Sim, mas parece que para a semana chove qualquer coisa.” “Também faz falta, para os campos…” “Estas estações andam todas viradas do avesso…”. Em situações desconfortáveis, tudo serve para tentar acabar com aquele silêncio que não sabemos como gerir. Até que… “Desculpa, não te importas, chegou-me agora uma mensagem…” “Sim, sim, eu também preciso de enviar aqui umas fotos para o meu primo…”. E pronto, cada um(a) saca do seu telemóvel-agora-smartphone e já não é preciso falar, já não custa o silêncio, já está tudo a andar normalmente. Com cada um(a) no seu canto, no seu ecrã, comunicando à distância, que ao perto não sai… E multiplica-se isto por uma mesa, e duas, e quatro, e lá temos a sala do restaurante quase transformada num velório, longe daquelas algazarras de tasco que por vezes até nos impediam de nos ouvirmos. Há que tempos!

Cá para nós, isto de estar com alguém em silêncio tem que se lhe diga. Só se consegue em situações em que há uma relação muito próxima, muito profunda, muito íntima. Aquelas situações em que falamos com a outra pessoa sem dizermos uma palavra sequer. Só um gesto, só um sorriso, só um olhar, as palavras estariam a mais. Por exemplo quando estamos apaixonados. Nesses casos, podemos ficar muito tempo em silêncio e não nos sentimos desconfortáveis, muito longe disso. E quanto dizemos calados!

Mas esta é a exceção e não a regra. Afinal, quem nunca viu um homem e uma mulher sentados à mesa do restaurante, frente a frente, comendo a sua rotineira refeição e quase não dirigindo palavra um à outra, ou vice-versa? Um monossílabo aqui – “queres água?” – um monossílabo ali – “a comida hoje está salgadita” – e pouco mais. Cenário um pouco triste, não é? Mas eis que surge o telemóvel-agora-smartphone para nos salvar deste silêncio constrangedor e para nos pôr a “falar” em todas as direções – menos naquela que está ali à nossa frente. E a coisa já se aguenta melhor. Só que… Só que…

(Uma das mais interessantes e subvalorizadas características de todos estes aparelhos que povoam a nossa vida – o rádio, a televisão, o computador, o telemóvel, a consola – é o chamado botão “on-off”. Tudo aquilo nos dá imenso jeito, mas tudo aquilo tem também um botão para desligar. E depois ligar outra vez. Mas por vezes desligar. E se a gente experimentasse mais?)

 

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