A Cáritas Moçambique deveria estar na linha da frente (e como ajudar a partir de Portugal)

| 22 Mar 19

[Sobre a forma de ajudar Moçambique a recuperar da tragédia provocada pelo Idai, a Rádio Renascença fez uma lista de instituições portuguesas que estão a recolher apoios, que pode ser consultada aqui; a Cruz Vermelha patrocina também aquele que pretende ser o maior concerto de música do mundo, iniciativa dos músicos João Gil e Rui Veloso; também a Universidade do Minho se associa à Cruz Vermelha e nesta sexta-feira, 22, recolherá produtos alimentares enlatados, e produtos de higiene e limpeza.]

Recolha de produtos para ajuda às populações afectadas pelo Idai. Foto © Direitos reservados

 

Como é natural, vários/as amigos/as e familiares se me têm feito presentes nestes dias da desgraça nacional provocada pelo ciclone Idai, de incalculáveis prejuízos, tanto em vidas humanas como de infra-estruturas materiais – desde as habitações convencionais às incontáveis casas da maioria do povo pobre, em materiais locais que, como sabemos, são sempre de extrema vulnerabilidade. Ainda se está para saber ao certo quantas vítimas humanas terá havido: as missões aéreas continuam a vislumbrar corpos boiando nas furiosas águas da região de Manica e Sofala. [Quinta-feira à tarde, estavam confirmados 242 mortos em Moçambique, 139 no Zimbabwe e 56 mortos no Malawi, o que aumenta para 437 o número de vítimas mortais nos três países atingidos pelo Idai.

Materialmente, serão anos de recuos no esforçado trabalho de construção de um país para todos, já tão debilitado pelas famosas dívidas ocultas que terão sido contraídas pelo ex-presidente Guebuza e seus colaboradores de estimação (alguns já na prisão: mais de uma dezena aqui em Moçambique, por ordem da Procuradoria-Geral da República, mas só depois de o ex-ministro das Finanças de então e agora deputado da bancada da Frelimo na Assembleia da República, Manuel Changa, ter sido preso na África do Sul a pedido da Justiça norte-americana).

Uma das mensagens chegadas, dos meus amigos Zé e António Cardoso Ferreira, diz concretamente:

“e que a conjugação de esforços entre o povo moçambicano e as ajudas externas seja eficaz nas medidas urgentes de apoio às pessoas e comunidades mais atingidas e nas medidas preventivas de possíveis epidemias por via hídrica.”

Tocou-me particularmente a palavra “urgentes”. Vivi angustiadamente, sem nada poder fazer, nos dias imediatamente anteriores em que os media anunciavam a chegada do furioso ciclone e antecipadamente vivi estes cenários, agora tornados realidade, das mortes e das destruições maciças.

Há anos, como coordenador da Cáritas Diocesana e membro do conselho nacional da Cáritas Moçambique, fui parte das decisões sobre as tais medidas urgentes de apoios. Esperava que agora, perante tamanha calamidade, a mesma instituição surgisse na linha da frente na organização destes apoios. Como um dia atrás de outro passava e nada surgia, lancei, na rede Whatsapp, uma interpelação:

(???????????????????????).

A Irmã Assunção Osório, também solícita no providenciar de apoios, perante o incompreensível silêncio das nossas estruturas de bem-fazer – Cáritas –, por motivos que os amigos bem podem entender, pergunta-me a mim como canalizar os apoios já conseguidos.

Via Whatsapp apareceu, então, um apelo do arcebispo da Beira, Cláudio Zuanna, dando uma informação bem detalhada dos estragos em geral e ilustrando quanto a sua própria casa e as emblemáticas Igrejas de Nossa Senhora de Fátima e do Macuti (onde estava o P. Joaquim Teles Sampaio, quando foi preso em 1971 pela PIDE) e outras estruturas sócio-pastorais foram danificadas. Mas fiquei triste porque o apelo não fornecia dados concretos imediatos para recolha de apoios monetários, quando, como diz também, está a ser activado um plano de socorro de emergência através das paróquias e da Cáritas.

Levantemo-nos e ponhamos mãos à obra

É o seguinte o texto do apelo do arcebispo da Beira, Cláudio Dalla Zuanna, datado de dia 18 e completado com uma lista dos danos nas estruturas da diocese católica:

“Levantemo-nos e ponhamos mãos à obra, Deus nos fará triunfar” (cf. Ne 2,18.20)

A água potável é uma das necessidades mais urgentes, de acordo com as autoridades e as agências humanitárias no terreno. Foto © Direitos reservados

Entre os dias 14 e 15 de Março do ano em curso, os habitantes das cidades da Beira, Dondo e do “corredor da Beira”, onde vivem cerca de um milhão de habitantes, assistiram desesperados e inertes aos efeitos destrutivos do ciclone Idai, acompanhado por chuvas intensas; um fenómeno descrito por muitos como algo jamais visto ou narrado nos anais desta província do centro de Moçambique.

Na sua passagem pelas terras do Chiveve, o ciclone Idai ceifou várias dezenas de vidas humanas (dados ainda provisórios) e deixou muitos feridos. Habitações, escolas, hospitais e igrejas ficaram sem telhado e nalguns casos, as paredes desmoronaram, inúmeras árvores tombaram sobre edifícios, estradas e veículos, dificultando a transitabilidade; a rede eléctrica e telefónica ficou danificada e até ao momento não foi restabelecida; igualmente não há fornecimento de água potável, e começa a escassear a comida, uma vez que boa parte dos alimentos ficaram deteriorados pela chuva que continua a cair ou por falta de energia para a sua conservação. Temos informações de que alguns rios estão a transbordar, como é o caso do rio Búzi e Púngué, estando neste momento a Vila do Búzi submersa.

Igualmente a cidade da Beira está isolada, uma vez que a única via de acesso terrestre ficou cortada pela queda de uma ponte.
Como Igreja diocesana, por meio das paróquias e da Cáritas, estamos a activar um plano de emergência para fazer face às necessidades mais urgentes.

Quadro da situação

O ciclone incidiu sobretudo ao longo do “corredor da Beira”, um percurso correspondente a cerca de 130 Km, habitado por aproximadamente um milhão de habitantes e onde estão implantadas 25 paróquias [católicas].  

  1. População atingida: estima-se que cerca de 140 mil famílias tenham tido prejuízos, das quais entre 10 a 20% perderam tudo.
  2. Igrejas paroquiais e comunidades: 22 igrejas paroquiais foram danificadas, das quais três ruíram totalmente; 60 pequenas capelas foram danificadas.
  3. Residências paroquiais: nove ficaram danificadas, algumas seriamente.
  4. Residências de religiosos e religiosas: 20 ficaram danificadas.
  5. Escolas católicas: ficaram danificadas sete escolas que atendem cerca de 9.500 alunos; trata-se de salas que ficaram quase na sua totalidade sem telhado, encontrando-se por esse motivo as aulas interrompidas.
  6. Estruturas diocesanas: residência episcopal e cúria (totalmente sem telhado, com estragos nos escritórios e arquivos);Secretariado da Coordenação Pastoral (registou alguns danos, sobretudo no que diz respeito ao material de escritório); Seminário Bom Pastor (capela e refeitório recém construídos, dormitórios, totalmente sem telhados; a residência dos formadores com telhado danificado parcialmente); Cáritas Diocesana (escritório completamente danificado, registados igualmente danos de documentação, material informático e de escritório e no muro de vedação); Centro de Formação Pastoral de Nazaré (com capacidade para acolher 200 pessoas, todas as infraestruturas ficaram sem tecto e inabitáveis, o que obrigou a suspender todas as actividades); Rádio diocesana (queda da torre, infiltrações nos estúdios, todo o material danificado); Tipografia diocesana(ficou sem tecto e com o material danificado); Estrutura diocesana de armazenagem (danificada); lares e orfanatos diocesanos (que acolhem cerca de 150 crianças: telhados danificados e estrago do material).

Em suma, pode-se dizer que, para além de danos nas infraestruturas, muito material mobiliário, de escritório e informático, entre outro, ficou danificado.

José Luzia é padre católico, missionário em Moçambique há quatro décadas e autor de três livros sobre a Igreja em Moçambique

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