A carta de amor do Papa Francisco para a “querida Amazónia”

| 7 Fev 20

Desmatamento no rio da Saudade, na Amazónia. Foto © Gérard Moss/Projecto Brasil das Águas-Simpósio Religião, Ciência, Ambiente

 

Querida Amazónia é o título da exortação apostólica pós-sinodal que o Papa escreveu e que será apresentada na próxima quarta-feira, 12, segundo anúncio do Vaticano na página do Sínodo dos Bispos. O documento recolhe o contributo da assembleia do Sínodo que decorreu em Outubro passado, e cujo tema era “Amazónia, novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

O título escolhido pode dizer já muito do que o Papa pretende defender no documento: a valorização da riqueza cultural daquela vasta região do globo, a importância de escutar os povos da região, o carácter único e fundamental do ecossistema amazónico para a preservação do planeta, as especificidades do catolicismo naquela área do mundo.

Este último aspecto pode trazer novidades na Igreja Católica: a abertura à possibilidade de ordenação de homens casados e a um ministério próprio para mulheres dirigentes de comunidades cristãs; um ritual litúrgico específico, que incorpore a cultura local; a identificação da espiritualidade do “bem-viver” amazónico com as bem-aventuranças do Evangelho; e a criação de uma universidade católica, bem como o alargamento de estruturas locais de participação, em que todos os crentes, incluindo indígenas, se sintam representados, como se resumia no 7MARGENS, quando o Sínodo terminou.

Tudo depende do que o Papa tiver assumido do documento final do sínodo, transportando-o para este seu texto. Em relação à questão do fim do celibato obrigatório pode ainda haver dúvidas acerca sobre o que Francisco irá fazer – ou terá feito, uma vez que o documento está pronto. Mas os restantes pontos, tendo em conta o que o Papa tem dito a propósito deles em diferentes ocasiões, é mais que provável que sejam assumidos no documento.

 

Dois cardeais, um padre, um cientista e uma mulher

O texto da exortação será apresentado pelos cardeais Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo dos Bispos, e Michael Czerny, jesuíta como Bergoglio, que desempenhou as funções de secretário especial do Sínodo de 2019 e tem estado envolvido nas questões das migrações e refugiados.

A escolha dos outros intervenientes na conferência de imprensa também diz muito sobre o que se pode esperar do documento. O padre brasileiro, também jesuíta, Adelson Araújo dos Santos, professor na Universidade Pontifícia Gregoriana, de Roma, é natural de Manaus e tem aprofundado a questão indígena, os jovens e a dimensão da espiritualidade na formação dos católicos na Amazónia.

O cientista Carlos Nobre, do Brasil, é um dos autores do IV Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC). A organização tem estado na linha da frente na denúncia da situação de emergência e que, por essa razão, foi escolhida para Prémio Nobel da Paz em 2007.

Finalmente, facto que se tem tornado cada vez mais habitual nestas iniciativas do Vaticano, também uma mulher – a irmã Augusta de Oliveira, superiora geral das Irmãs de Maria Reparadora – terá voz na conferência de imprensa.

Sobre a questão da ordenação de homens casados, a “proposição” do sínodo (nº 111) foi votada com 128 votos a favor e 41 contra (foi a que teve mais oposição). Nela se propõe a “ordenação sacerdotal de homens idóneos e reconhecidos pela comunidade, que tenham um diaconado permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterado”.

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