Maria da Glória Fernandes (1929-2024)

A carta que te devo

| 1 Mai 2024

Glória Fernandes, missionária da Boa Nova, educadora, foi detida pelo Serviço Nacional de Segurança Popular (SNASP), serviço paramilitar e de inteligência do Governo de Moçambique, após a independência em 1975, tendo cumprido pena de prisão em Nampula. Foto © Manuel Vilas Boas.

Glória Fernandes, missionária da Boa Nova, educadora, foi detida pelo Serviço Nacional de Segurança Popular (SNASP), serviço paramilitar e de inteligência do Governo de Moçambique, após a independência em 1975, tendo cumprido pena de prisão em Nampula. Foto © Manuel Vilas Boas.

(*) Na morte de Maria da Glória Fernandes, missionária da Boa Nova, aos 95 anos,
em vinte e quatro de abril de dois mil e vinte e quatro, no Seminário de Cucujães.

 

Chamavas-me «meu querido “filho”», como se fosse mesmo de verdade. E sabes que eu adorava esse teu galanteio de “mãe extremosa”. Acho mesmo que eu era o filho que não te foi dado ter. As cartas denunciavam tão viva persuasão. 

A carta de Glória para Manuel Vilas Boas

Carta de Glória Fernandes para Manuel Vilas Boas. Foto: Direitos reservados.

(Mas quando se escreviam cartas, nesse tempo, nós sabíamos que elas iam ser violadas pela disciplina interna. Como se os direitos humanos sobre a privacidade fossem tão grosseiramente ignorados em defesa dos bons costumes em causa). 

Em meados dos anos 1960, a Sociedade Missionária Portuguesa ergueu, discretamente, uma organização de mulheres destinadas à Missão, com o nome ativado de Missionárias da Boa Nova. Era o motor do Concílio Vaticano II que punha em marcha os novos rumos da evangelização: as mulheres a ocuparem um lugar, ainda que com atraso, no pendor da História. 

Maria da Glória Fernandes, natural de Évora, nasceu a oito de janeiro de mil novecentos e vinte e nove. Com formação religiosa salesiana, ingressou a quatro de setembro de mil novecentos e sessenta e nove, nas Missionárias da Boa Nova. Prestou serviço no Seminário de Valadares e, um ano depois, em 1970, parte para a diocese de Nampula, numa equipa multidisciplinar, sediada na paróquia de Angoche, então António Enes. Ensino, saúde, educação de infância e assistência social às mulheres africanas, foram os sectores abrangidos pelo dinamismo das missionárias que ali aportaram em terras do Índico.

África nossa 

Glória, volto a falar contigo, na tal carta que te devo. Apesar da tua idade, diferente da experiência ganha em outras latitudes, assinaste calcorrear estes caminhos não andados. Deste chão a estas “gaivotas” a aprenderem a voar com um motor a vento próprio. Honra te seja, nunca te vi em bicos de pés ao lado de vocações de garras diferentes. 

Em menos de nada, desaparecemos todos nos ares sem fronteiras. A África nossa, a portuguesa, engoliu-nos com o regime em agonia. E estivemos quase todos lá, no estrondo do termo, encurralados na história longa de quinhentos anos. Mas tivemos a oportunidade feliz de chegarmos no fim. A autodeterminação e a independência, com atraso de mais de duas décadas, caíram-nos em cima… 

Em 1970, Glória Fernandes parte para a diocese de Nampula, numa equipa multidisciplinar, sediada na paróquia de Angoche, então António Enes. Foto: Direitos reservados.

Em 1970, Glória Fernandes parte para a diocese de Nampula, numa equipa multidisciplinar, sediada na paróquia de Angoche, então António Enes. Depois de 1974. continuou por Moçambique. Foto: Direitos reservados.

A triste e leda madrugada 

E foi nesse ato histórico que nos separámos. Eu regressei à metrópole. Tu ficaste por lá. Apesar do tom pacífico, ainda que determinado, que te caracterizava, foste pasto da polícia política de então, a SNASP (Serviço Nacional de Segurança Popular), de má memória, herdeira da PIDE/DGS, símbolo da brutalidade e incompetência, foram sempre o pecado capital dos regimes totalitários, houve por bem conduzir-te às masmorras da cidade de Nampula. Ainda não tinhas provado semelhante experiência. Medalhas para trocares no momento da passagem final… 

Não esqueço que a morte te veio chamar nas vésperas da triste e leda madrugada do 25 de Abril. E o teu corpo tocou a terra quando se acendia a festa da memória de meio século de libertação, que tão bem soubeste coreografar na tua ingente capacidade de levares a palco qualquer pedaço de vida. 

Como recordo, querida alentejana, as marchas que ambos inventámos em terras de colónia, mágicas tradições da mãe pátria.  O teu quase silêncio discreto do quotidiano, emoldurava-se graciosamente…

A mulher curadora

 

Abro, agora, a memória de um período heroico que te foi pedido e que cumpriste com imensa humanidade. Na capital do império perdido, em Lisboa, uma das mais notáveis figuras do saber, o Padre Alfredo Alves, um insigne, professor de filosofia e antigo Superior Geral do Instituto Missionário, foi confiado à tua missão de mulher, mãe de todos. Um longo tempo em que o melhor serviço fraterno lhe cuidou do sofrimento até à morte. Ainda escreveste páginas sofridas da lucidez do pensamento do teu doente do coração.

Enterro as memórias de uma Ocua, localidade distante, em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, onde estiveste em Missão, no regaço de um embondeiro gigante, prefiguração do saber ancestral. Como quiseste que eu escutasse, para a TSF, os sons ardentes de estórias passadas…  

Mas a distância, então, consumia-nos… A tempo, recordo, por fim, a festa que alguns dos teus amigos te fizeram num recanto belo do refeitório do seminário de Valadares. Entre poemas cuidados e a voz de truão do Manuel Cardoso que, com a Clemência, cantou o teu amor à liberdade e ao serviço. 

Vilas Boas sobre Glória Fernandes: "A tempo, recordo, por fim, a festa que alguns dos teus amigos te fizeram num recanto belo do refeitório do seminário de Valadares."  Foto: Direitos reservados.

Vilas Boas sobre Glória Fernandes: “A tempo, recordo, por fim, a festa que alguns dos teus amigos te fizeram num recanto belo do refeitório do seminário de Valadares.” Foto: Direitos reservados.

No Porto, na casa da Avenida Dr. Antunes Guimarães, numa longa espera, chegou a fatal doença de Alzheimer. Cedo, sendo já longa a tua existência, descolaste deste mundo, imensamente, real. 

A despedida final estava reservada para uma breve estadia na assinalada Casa de Santa Teresinha, em Cucujães.

Peço emprestado à minha amiga Margarida um poema sobre as lágrimas que secaram, dolorosamente, em mim, quando cultuei a tua injusta despedida. Apressaram-se para te retirarem do palco, onde tão distintamente viveste. 

Alguns meses antes, deixei nas tuas já frágeis e incompreensíveis mãos, o livro Moçambique, em que esgravatei, com Amadeu Araújo, algum do teu passado feliz por terras de Angoche, entre as crianças loiras do jardim de infância e as mulheres africanas no bairro degradado do Ingúri. 

Mas o peso do poema servirá para entregar, nas portas do Paraíso, o esplendor da filha da tia Florinda Prazeres, provinda de uma esquina perdida na cidade monumental de Évora.

Há lágrimas…

 

Há lágrimas de fortuna
Que acalentam a natureza sedenta
Alegram o coração de quem ri
Magoam se a sorte se acanha

Há lágrimas de esperança
Que alimentam a seiva da vida
E nelas carregam o sabor
E o brilho de um amanhã

Há lágrimas de orvalho
Trazidas pela geada
Pousadas numa primavera
Que vai renascer…

Há lágrimas de dor
Que sulcam rostos tão tristes
Que são fonte de um tal sofrer
Que só o tempo pode secar

Há lágrimas de amor
Aquelas que, sempre, me ofereceste
Ternurentas e tão quentinhas
Tão borbulhantes de carinho…

Só essas! 

Só essas, quero recordar!

 

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