Assinatura Apostólica

A caruma e os pinhões de Roma: Mário Rui de Oliveira com novo cargo no supremo tribunal da Santa Sé

| 23 Jun 2024

Mário Rui de Oliveira: poesia, arte e direito canónico em Roma. Foto © Agência Ecclesia/PR

Mário Rui de Oliveira: poesia, arte e direito canónico em Roma. Foto © Agência Ecclesia/PR

 

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O padre Mário Rui de Oliveira, nomeado quinta-feira para um novo cargo no supremo tribunal da Santa Sé, confessa – mesmo na poesia que escreve – a sua paixão pela Cidade Eterna: “A caruma e os pinhões são um dom de Roma.”

 

A praça junto do Panteão de Roma está apinhada nesta sexta-feira de sol primaveril, em Roma. O padre Mário Rui de Oliveira, 51 anos, que trabalha no supremo tribunal da Igreja Católica desde 2007, consegue, mesmo assim, ver pormenores escondidos: as cores das casas em volta, uma “edicola”, o nicho com uma pintura de Nossa Senhora numa das paredes…

O café tomara-se antes, no Sant’Eustachio, onde se bebe, sempre de pé e ao balcão ou numa pequena mesa alta, um dos melhores cafés de Roma. Instantes depois, diante da sóbria grandeza do Panteão, símbolo da história da cidade, confessa que “há um Mário antes de Roma e um Mário depois de Roma”. Não por acaso: a capital italiana está presente nos livros de poesia que já publicou: O Vento da Noite (2002), Bairro Judaico (2003) e O Livro da Consolação (2019), todos editados pela Assírio & Alvim. No prefácio de O Vento da Noite, Eugénio de Andrade escreveu: “lidas as primeiras palavras, foi como se amanhecesse. Eram pequenos textos em prosa; na realidade eram breves poemas, de um ritmo preexistente, seguríssimo”.

Colaborador ocasional do 7MARGENS, incluindo com artigos sobre frei Bernardo de Vasconcelos, de quem é o postulador da causa de beatificação, Mário Rui de Oliveira traduziu também para português (igualmente na Assírio) vários livros do poeta, escritor e argumentista Tonino Guerra (1920-2012).

Nascido em Joane (Famalicão), em 17 de abril de 1973 (há 51 anos), Mário Rui de Oliveira foi ordenado padre a 20 de julho de 1997. Uma nota da Arquidiocese de Braga recorda que estudou Teologia e Direito Canónico em Roma, para onde voltou para trabalhar. “Estar na Piazza Navona, com o sol a bater nos edifícios de Borromini dá-nos a sensação de estar só com o que se ama, como se fosse só meu.”

“Saio de casa para olhar o mundo”, escreveu o padre Mário Rui num poema. “Essa descoberta, esse desejo de olhar o mundo, é fruto de Roma. É reencontrarmo-nos com o que se deixa nestas ruas”, diz, por entre grupos que tiram fotos, comem ou riem. Ou que apenas conjugam o verbo estar, neste princípio de tarde como só Roma oferece.

Mário Rui de Oliveira vive entre a ordem do Direito Canónico e a desordem da cidade: “Mesmo no meio do caos e da agressão, Roma torna-nos atentos à santidade e à beleza.” Por isso é possível ver toda a cidade fazendo percursos através das pequenas fontes ou da pintura de Caravaggio, sugere. “A caruma e os pinhões são um dom de Roma”, escreveu, num outro poema.

 

“Talvez as vidas sejam tocadas, mesmo que levemente, pelo sorriso de Deus”

 

 

“Com o volume de trabalho, a poesia é também salvação.” Mas que trabalho é este? Mário Rui de Oliveira está desde 2007 na Assinatura Apostólica, o supremo tribunal da Igreja onde, por exemplo, aprecia pedidos de nulidade matrimonial. Quinta-feira passada, 20 de Junho, foi nomeado chefe da Chancelaria da Assinatura Apostólica, anunciou o Vaticano, numa notícia reproduzida pela Ecclesia.

A Assinatura Apostólica tem o papel de supremo tribunal da Igreja Católica e rege-se por uma lei própria. Em Março, o Papa publicou um decreto que adapta essa lei própria da Assinatura Apostólica à reforma da Cúria Romana, prevista na constituição Praedicate Evangelium.

“A Assinatura Apostólica coloca-se ao serviço do supremo múnus pastoral do romano pontífice e da sua missão universal no mundo. Deste modo, dirimindo as controvérsias suscitadas por um acto do poder administrativo eclesiástico, o Supremo Tribunal proporciona um juízo de legitimidade sobre as decisões emanadas pelas Instituições curiais no seu serviço ao sucessor de Pedro e à Igreja universal”, escreve o Papa Francisco nesse decreto, citado ainda pela Ecclesia.

O trabalho no tribunal é um modo de ajudar, diz o canonista Mário Rui de Oliveira. “Para alguém com fé, poder celebrá-la de novo e evitar o sofrimento pode ser importante.” Recorda um casal que pediu a nulidade do casamento e teve resposta afirmativa, depois negativa em segunda instância. Teria de ser resolvido em Roma, com longa demora. O casal pediu para o caso ser apreciado em terceira instância em Portugal, para poupar tempo. A resposta foi positiva. “Foi para execução e as pessoas ficaram livres.”

Recuperar essas vidas “daria um grande romance”. Como ir ao encontro das pessoas e perguntar “que vidas têm agora”. Sobra tempo para sonhar esses sonhos ou para “passear, partilhar uma boa ‘pasta’ e um bom vinho, participar na oração da Comunidade de Santo Egídio, rezar as vésperas na Capela Sistina com 50 ou 60 pessoas ou acompanhar um grupo de idosos e doentes que se correspondem com condenados à morte no Texas”.

“Talvez as vidas sejam tocadas, mesmo que levemente, pelo sorriso de Deus”, escreve em outro poema. E agora, diante do Panteão, diz: “No meio do sofrimento, descobrir que Deus continua a sorrir e entra na vida das pessoas, é criar uma alma”.

 

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