No seu Evangelho (5:1-9) João conta-nos o episódio de um homem paralítico curado por Jesus junto ao tanque de Betesda num dia de sábado.
Betesda significa “Casa da Misericórdia” ou “Lugar do Derramamento” (v. 2-4). Este tanque localizava-se perto da Porta das Ovelhas, por onde os cordeiros para o sacrifício no Templo entravam em Jerusalém.
Havia uma tradição popular que dizia que um anjo agitava as águas ocasionalmente, e o primeiro a entrar nelas seria curado. Parece que este versículo 4 consta de alguns manuscritos antigos, mas de outros não, pelo que se pensa que o evangelista teria recuperado um costume pagão, já que os arqueólogos vieram a descobrir na área um antigo templo romano.
O facto é que este homem tinha estado doente toda uma vida (trinta e oito anos), e apesar de ter sido colocado naquele local não conseguia contar com a ajuda de ninguém (versículo 7): “Senhor, não tenho homem algum que, quando a água é agitada, me ponha no tanque; mas, enquanto eu vou, desce outro antes de mim.”
Esta postura simboliza abandono e falta de esperança, que é como tanta gente se sente hoje. E quando Jesus lhe perguntou se queria ser curado, ele não disse que sim, antes justificou a sua situação de abandono, revelando assim uma profunda resignação. É como as pessoas agem e como se sentem ainda hoje quando dizem: “é a minha sina, nasci para sofrer”…
Mas há neste episódio algumas coisas importantes a reter.

“O homem não pediu ajuda, mas Jesus procurou-o. Deus busca sempre os necessitados, Ele não espera que o homem o procure, mas toma a iniciativa.” Pintura: Bartilomé Esteban Murillo: Cristo curando o paralítico no tanque de Betesda. National Gallery, London, UK.
Deus oferece a sua Graça a todos
O homem não pediu ajuda, mas Jesus procurou-o. Deus busca sempre os necessitados, Ele não espera que o homem o procure, mas toma a iniciativa. O homem não tinha ajuda, mas Jesus resolveu-lhe o problema. A misericórdia divina revela-se mesmo em quem não O busca activamente, como sucedeu no caso paradigmático de Saulo de Tarso.
A cura vem através de Jesus, e não por superstições
As superstições são uma espécie de esperança condicional e falível. O tanque representava a esperança humana em soluções sobrenaturais incertas e limitadas, já que, de acordo com a tradição, apenas era curado um de cada vez.
A cura vem através de Jesus, quando as capacidades humanas são insuficientes
De certa forma o tanque representa também a Medicina. Em geral as ciências médicas podem ser encaradas como uma bênção de Deus à humanidade, visto que resolvem inúmeros problemas, disfunções e doenças físicas. Ainda assim não chegam a tudo. Por isso, quem crê num Deus que cura ainda pode obter uma graça quando a medicina já não tem resposta.
A cura vem através de Jesus, apesar das barreiras humanas
Era sábado, o que desafiava a tradição religiosa. Carregar a cama (ou esteira) era considerado trabalho no Antigo Israel. Isso gerou um conflito com os fariseus, que está relatado entre os versículos 10 e16. Mais uma vez vemos que o Mestre considerava que a vida e o bem-estar das pessoas era mais importante do que cumprir mecanicamente um determinado preceito religioso.
A obediência a Deus traz transformação imediata
O homem creu e agiu em conformidade: “Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma o teu leito, e anda. Logo aquele homem ficou são; e tomou o seu leito, e andava” (versículos 8 e 9). Entende-se que, se o homem não se tentasse levantar a sua cura não teria vencimento.
A cura do corpo é sempre um convite para a cura da alma
“Depois Jesus encontrou-o no templo, e disse-lhe: Eis que já estás são; não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior” (versículo 14). A salvação é sempre mais importante do que qualquer bênção física ou de outro tipo.
Águas paradas não curam ninguém
Só havia cura quando as águas eram agitadas pelo anjo. O que dá vida são águas vivas, e não cisternas rotas. O profeta Jeremias já no seu tempo alertava o seu povo para essa realidade: “Porque o meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm águas.” (Jeremias 2:13). Quando as pessoas que não dão espaço a Deus para os abençoar, na prática tornam-se idólatras e substituem-no por “outros deuses”.
O nosso Betesda, o “Tanque da Cura” que supera as superstições, as capacidades e as barreiras humanas, é Jesus, o Cristo. Ele é a nossa fonte de águas vivas, a nossa “Casa da Misericórdia”.
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.










