“A ceremony of carols”

| 5 Jan 22

A Ceremony of Carols” (Britten): Christ Church Oxford

“O nascimento de Jesus canta-se a partir da circunstância de cada um, a partir da realidade de cada comunidade, esteja ela num mosteiro no século XII, numa aldeia transmontana ou no Rockefeller Center.” Figura:  “A Ceremony of Carols” (Britten): Christ Church Oxford 1982 (Francis Grier)

 

“Hoje é Setembro e amanhã já é Natal”, era uma das respostas à pergunta impertinente do regresso aos ensaios do coro: “Temos mesmo de ensaiar já músicas de Natal? Ainda está bom para a praia…”

Podia seguir-se uma bela reflexão sobre os Adventos e Oitavas do Natal vividos, plenos e enriquecidos por esta experiência de Natal meio antecipada. Que nunca aconteceram ou, pelo menos, não foram mais vividos por essa razão (e se o ano litúrgico está dividido em tempos, por alguma razão sábia será, que há, de facto, um tempo para tudo). Os muitos anos de coro foram e continuam a ser, isso sim, fundamentais para atestar a imaginação do Natal com tempos, línguas e lugares bem longínquos dos nossos.

Tanto quanto me lembro, o nascimento de Jesus canta-se a partir da circunstância de cada um, a partir da realidade de cada comunidade, esteja ela num mosteiro no século XII, numa aldeia transmontana ou no Rockefeller Center. Curiosamente, e ciente de não ser especialista no tema, a maioria dos cânticos de Natal que conheço são cantos de uma comunidade – de um povo, no limite – que se reúne à volta de uma criança na qual se revê mas que, ao mesmo tempo, não entende. E que lhe entrega, confiante o que tem, o que sabe e o que produz. E por isso, o menino Jesus tanto treme de frio na Beira Alta como recebe mel, figos e azeitonas na Catalunha; e Nossa Senhora, obviamente, cose meias no Alentejo (e, ao que parece, estende panos pelo mundo fora, enquanto José embala o menino). Já em Espanha, há todo um alarme de incêndio e uma euforia a que nem os peixes escapam. É acompanhar a dança.

 

Aprende-se muito sobre as vidas, as ocupações e preocupações de quem foi criando estes milhares de canções ao longo de séculos. A pobreza e a dureza das vidas que levam são evidentes e cantadas, por vezes, quase em tom altivo de desafio e resistência. E o espelho que encontram na família de Nazaré, se não é evidente, está implícito. Trazem uma dose necessária de realismo e de sobriedade ao nosso tempo, tão propenso a cair na ilusão de que o Natal e a vida têm de ser fofinhos, quentinhos e perfeitinhos. Sem defeito, mas em diminutivo. E o realismo não rouba, por um instante que seja, a alegria e a festa.

Mas, antes e acima de tudo, são um convite a contemplar o tempo do Natal. Contemplar no sentido de nos atirarmos aos textos com os cinco sentidos, de repetir e tornar nossas as palavras que ouvimos há anos – ler, recitar ou cantar um Magnificat são experiências espirituais muito distintas –, de imaginar quem diz o “entrai pastores, entrai”, se entram a medo ou de rompante, o cheiro do incenso e da mirra ou ouvir as palavras de Simeão na apresentação no Templo. E, no fundo, encarar a pergunta que interessa: onde é que nos imaginamos em cada um destes momentos? Quem é que cada um é ou quer ser? E o Natal também nos lembra isso, essa pergunta que nos é feita todos os dias, sê-lo-á novamente, com maior pertinência, não tarda.

Celebramos, neste dia 6, na liturgia católica, a Epifania do Senhor [N.R. – na liturgia ortodoxa, é véspera de Natal].

O dia em que os sábios chegam a Belém depois de terem decidido seguir a Estrela. Devem ser das personagens mais cantadas de toda esta história, o que não admira dado o exotismo que lhes está associado. Escapando um tudo-nada ao repertório tradicional, ficam duas sugestões para esta festa.

A primeira, Partidos são do Oriente, da Primeira Cantata de Natal, de Fernando Lopes-Graça (1906-1994). Não é complicado imaginar os três magos montados em camelos a deambular pelo deserto (que talvez não fosse tão deserto assim) e a pedir direcções à primeira pessoa que encontram ao chegar a Belém.

A segunda, Videntes Stellam, um dos Quatre Motets pour le Temps de Noël, do compositor francês Francis Poulenc (1899-1963). O texto é retirado do Evangelho de São Mateus e, desta vez, é (quase) impossível não levantar os olhos para descobrir, em espanto absoluto, a estrela, sempre que o coro entoa Videntes stellam e não querer entrar, sem cerimónias, pelo presépio. Se há música que puxa para as alturas, é esta.

E, por agora, acabadas são as festas!

 

Nota ao título

A Ceremony of Carols é uma obra do compositor inglês Benjamin Britten (1913-1963), escrita em 1942 durante uma viagem de barco entre os Estados Unidos e Inglaterra e estreada em Londres em 1943. Foi inicialmente pensada para coro infantil e harpa, e é composta por 12 andamentos e um interlúdio para harpa. À excepção do primeiro e do último, que são a antífona gregoriana Hodie Christus natus est, os textos dos restantes andamentos são quase todos dos séculos XV e XVI e foram retirados da The English Galaxy of Shorter Poems, editada por Gerald Bullett, e publicada em 1933. Uma das muitas e boas versões que por aí andam pode ser vista e ouvida a seguir:

 

Marta Saraiva é diplomata, exercendo atualmente funções na Missão de Portugal junto do Conselho da Europa.

 

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