
1982. Um dos últimos retratos de Hergé, por ocasião de seu aniversário no Wolvendael Park, em Bruxelas. © Gamma-Studios
Vivemos num mundo do politicamente correcto onde se aboliram determinados termos e em que domina uma permanente cautela em não fazer comparações e avaliações que possam ser consideradas ofensivas. Há temáticas tabus em que esse cuidado é relevante, nomeadamente no que se refere ao sexo, à cor da pele, à igualdade de género, à classe social, à diversidade de costumes, às diferenças étnicas. Essa preocupação em aceitar e respeitar a diferença é uma constante actual nos pais e educadores que pretendem inculcar nos seus educandos o respeito pelo outro, igual a nós em dignidade e em direitos. E é de louvar que tal aconteça. Ensina-se desde muito cedo – em casa e na escola – a não usar uma linguagem discriminatória, susceptível de ofender aqueles que são diferentes de nós e procurando inculcar nos jovens a ideia de um mundo justo onde todos deverão ser tratados com igual respeito. Daí a abolição de certos termos e o cuidado em não os usar pela possibilidade de ofender terceiros. Lembro no entanto a expressão inglesa “a spade is a spade”, que poderá ser comparada ao nosso aforismo “chamar as coisas pelos seus nomes.” E interrogo-me sobre até que ponto essa vigilância obsessiva em não ofender, poderá impedir o são cultivo de humor e o riso benévolo sobre as diferenças. Será que o legítimo respeito em aceitá-las nos impede de fazer humor sobre elas? Será que o riso tem tabus? Obviamente que a resposta é afirmativa e que há fronteiras que nos impedem de rir da desgraça alheia. Seria imoral rirmo-nos das infelicidades, das desgraças e das calamidades que afectam as comunidades e as pessoas individuais. E daí interrogarmo-nos: até que ponto o humor é legítimo? De quem ou de quê nos é permitido rir? Que termos deverão ser banidos da linguagem que usamos?
A título de anedota significativa desta atitude cautelosa de respeito pela diferença lembro um episódio ocorrido com um filho meu a quem em criança ia buscar à escola de carro. No percurso que fazíamos de regresso a casa era habitual cruzarmo-nos com um miúdo africano a quem acenávamos e que nos correspondia sempre com grande entusiasmo. Um dia, no sítio desse cruzamento o miúdo não estava. Seguimos em frente e um pouco mais adiante avistámo-lo. Fui alertada pelo meu filho que gritava “olha o preto, olha o preto!” Eu lá lhe expliquei que não devia mencioná-lo dessa maneira e que de que, se ele ouvisse tal tratamento ficaria triste. Dias depois o desencontro repetiu-se e voltámos a ver o miúdo mais à frente. Foi então que o meu filho me alertou dizendo: “Mãe, vai ali o branco!”
Retomando o mesmo tema aplico-o agora a uma das leituras que mais me divertiu na infância e juventude e que continuo a reler com igual satisfação – os livros do Hergé que têm Tintim como personagem principal. Ao considerá-los a partir das lentes do politicamente correcto verificamos que constituem um manual de colonialismo, chauvinismo, machismo e outros “ismos” – o capitão Hadock é um bêbado, as mulheres são banidas ou retratadas de um modo ridículo como é o caso da Castafiore, os africanos aparecem com saias de palha e ossos na cabeça, os Incas são sanguinários, etc. etc. Devo dizer que estes livros fizeram as delícias dos meus filhos e netos e eu própria os releio com igual prazer, sobretudo em tempos de depressão pois continuam a fazer-me rir. Mas agora que tenho dois bisnetos pequenos interrogo-me: será lícito mostrar-lhes estes livros e iniciá-los nas aventuras de Timtim?
Devo dizer que considero o sentido de humor como uma das qualidades mais apreciáveis do ser humano. E assim, apesar de considerar facciosos os livros de Hergé, penso que o sentido de humor que revelam é superior aos preconceitos que a sua leitura possa provocar. Daí estar inclinada iniciar os meus bisnetos nas aventuras de Tintim, num atitude de frontal desafio ao politicamente correcto.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.









