Vivemos em sociedades em que o envelhecimento é olhado muitas vezes como um problema económico, tanto para os estados como para as famílias, de abandono e da quebra de laços que têm como consequência a destruição de redes de solidariedade e de suporte que foram apoio durante a vida ativa. Na verdade, o envelhecimento daqueles e daquelas que nos precederam põe à prova a nossa humanidade enquanto sociedade e enquanto indivíduos.
O 7MARGENS iniciou a publicação de depoimentos de idosos recolhidos por José Pires, psicólogo e sócio fundador da Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”. Publicamos agora o quarto depoimento do total de vinte e cinco. Pode ler aqui os depoimentos já publicados. Informamos que tanto o nome das pessoas como as fotografias que os ilustram são da inteira responsabilidade do 7MARGENS.

“Quem são as pessoas que nos apoiam no nosso envelhecimento? Só a família. O grupo de amigos não tem funcionado. Às vezes parecem pouco solidários, como que a solidariedade também se canse ou esgote.” Foto trabalhada a partir de Danie Franco / Unsplash
Filomena, 83 anos
Não tenho maneira nenhuma de envelhecer: não sou apologista da velhice. Já me queria ter ido embora. É preciso ter objetivos para cá andar.
A ciência avança, as pessoas vivem mais tempo. Mas para quê? Vivemos mais anos, mas sem metas a alcançar a vida já não tem sentido. A pessoa chega a certa idade e já não consegue fazer coisas. Que fazer então? Fica à espera sem saber de quê.
Há quem mantenha atividade só porque sim, para se manter à tona, para pairar. Isto é uma vida sem sentido, que não vale a pena.
Nem sempre fiz o que quis. Tive de lutar sempre para conseguir o que queria. Fui eu própria, sempre à custa de muita luta. A família tinha padrões dentro dos quais eu tinha de me situar.
O meu próprio casamento foi incompreendido e desaprovado por quase toda a gente. Isso não impediu que nós fossemos construindo valores e seguindo princípios que a família que criámos continuaria a seguir.
Quem são as pessoas que nos apoiam no nosso envelhecimento? Só a família. O grupo de amigos não tem funcionado. Às vezes parecem pouco solidários, como que a solidariedade também se canse ou esgote.
Não sei, de facto, se vale a pena envelhecer. Para mim não! Não estou agarrada à vida, mas há muita gente que está. Também não sei se isto faz sentido. Por isso vivo despegada sem me preocupar muito com o fim…
Hoje a minha liberdade é a mesma, quer esteja ou não estivesse no Lar. Posso estar aqui como podia estar noutro lugar, sem angústias, mas com naturalidade.
Os Lares foram muito diabolizados, mas há muitas pessoas que não tem outra solução e têm mesmo de ir para um Lar.
Acho que os Lares deviam levar uma volta. Deviam poder responder às necessidades e objetivos de cada pessoa…










