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A ciência e o malmequer

| 24/03/2021

Mal-me-quer, bem-me-quer… Parece que há cristãos que recorrem ao jogo do malmequer para definir a sua vida, guiando-se por preconceitos e pensamento mágico, sem ter os pés assentes no chão.

Vacina. Covid

“Provavelmente a desconfiança histórica no sistema de saúde do país levava-os a uma muito significativa hesitação de virem a receber a vacina contra a covid-19”. Foto © Wladimir B / Bigstock.com

O periódico menonita Anabaptist World revela que a perspectiva pré-vacinas entre a população afro-americana era dramaticamente baixa. Provavelmente a desconfiança histórica no sistema de saúde do país levava-os a uma muito significativa hesitação de virem a receber a vacina contra a covid-19. Esse factor despertou a preocupação dos médicos sobre como superar tal dificuldade em termos de saúde pública.

Já nessa altura se responsabilizavam sectores dos meios de comunicação social pela desinformação que estaria na base do medo. Entretanto as igrejas e organizações religiosas começaram a colaborar no sentido de disponibilizar os seus locais de culto para efeitos de postos de vacinação, de modo a facilitar o processo.

Os resultados duma pesquisa posterior do Pew Research vieram depois a apontar para a eficácia das campanhas pró-vacina, de modo que a disposição da população protestante negra para receber a vacina aumentou de 40% para 64% em poucas semanas, que declararam planear fazê-lo “definitiva ou muito provavelmente”.

Mas onde a hesitação permanece maior é entre os evangélicos americanos brancos, pois ainda em Fevereiro responderam ao inquérito em que apenas pouco mais de metade declararam desejar receber a vacina (54%). Mas note-se que a preocupação deste segmento não é por recear consequências na sua saúde ou da comunidade, já que apenas 48% dos evangélicos brancos disseram receá-los “muito” ao decidirem ser vacinados, contra 70% dos protestantes negros, 65% dos católicos e 68% dos americanos não afiliados.

Qual é então o problema? Segundo Cary Funk, director de Ciência e Pesquisa do Pew Research, uma das razões será que os evangélicos brancos geralmente expressam níveis mais baixos de confiança no processo de pesquisa e desenvolvimento das vacinas em geral, sendo igualmente menos propensos a relatar terem sido habitualmente vacinados contra o vírus da gripe sazonal.

Trata-se dum problema estrutural, de acordo com John Fea, um historiador americano da Messiah University que costuma estudar a população evangélica. Para ele os resultados do estudo não constituem surpresa já que existe uma “longa história de anti-ciência no evangelicalismo americano”, por duas ordens de razões. Antes de mais porque idealizam que Deus os protegerá contra o vírus. Por outro lado, pensam que receber uma vacina é uma demonstração de falta de fé em Deus, e por isso desconfiam da ciência e desvalorizam-na.

Embora a questão da fé ou falta dela seja matéria do foro íntimo de cada um, a verdade é que no caso duma pandemia a vacina não apenas previne os efeitos nefastos do vírus na saúde da pessoa mas também da sua família, amigos e comunidade em geral. Recusar uma vacina testada e aprovada pelas autoridades sanitárias do país e pela OMS pode mesmo ser considerada uma atitude pouco cristã, de falta de respeito por si mesmo e de falta de amor ao próximo, dois conceitos doutrinários que estão na base da fé e da vida cristã.

A este respeito o apóstolo Paulo explicou claramente aos devassos coríntios: “Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1 Coríntios 6:19). “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” (1 Coríntios 3:17).

Por outro lado, não se entende por que razão a desconfiança com a ciência só funciona de forma casuística, mesmo considerando apenas o âmbito da saúde, que inclui tratamentos, farmacologia e cirurgias. Se alguém partir uma perna recusa ser operado alegando falta de fé? Se sofrer um AVC recusará o devido tratamento e recuperação e fisioterapia pelo mesmo motivo? Quando sofre de dificuldades na visão recusa usar óculos? Mal-me-quer, bem-me-quer… Parece que há cristãos que recorrem ao jogo do malmequer para definir a sua vida. Para umas coisas a ciência interessa, para outras não, por considerarem falta de fé.

Quando se confundem preconceitos e pensamento mágico com fé sem ter os pés assentes no chão dá nisto. Incongruências, atitudes casuísticas e uma porta aberta para o disparate. Como se viu com o movimento anti-vacinas há cem anos, durante a gripe espanhola, parece que a ciência vai evoluindo com o tempo, mas o disparate tende a permanecer.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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