
Entrada no edifício onde decorre a COP26, em Glasgow. Foto do Twitter oficial da COP26.
A cimeira mundial do clima começou este domingo em Glasgow num ambiente misto de incerteza e de esperança. O cenário traçado na última semana pelo mais recente relatório do UNEP (Programa Ambiental das Nações Unidas) mostra que a perspetiva do controlo do aquecimento global abaixo de 1,5 graus Celsius está cada vez mais longe de ser atingida. As medidas políticas concertadas entre as partes mostram-se cada vez mais urgentes e decisivas, mas há sinais consistentes de que interesses poderosos ligados às energias fósseis, à agropecuária, entre outros setores, inclusive junto de cientistas ligados às Nações Unidas, se movimentaram para travar as decisões que se impõem. É, por outro lado, provável que dirigentes de superpotências como a República Popular da China e da Rússia, países que representam, sozinhos, um terço do total de emissões mundiais de CO2, nem sequer se dignem comparecer em Glasgow.
Entre muitas outras organizações internacionais, numerosas confissões e líderes religiosos, com destaque para o Papa Francisco, desenvolveram, no último ano, múltiplas iniciativas regionais e transnacionais para pressionar os dirigentes com efetivo poder de decisão a assumirem as suas responsabilidades, tomando as medidas que se impõem e que estão amplamente identificadas.
Como alertava o relatório da UNEP, não é só no futuro que os problemas vão acontecer; eles estão a suceder já hoje – milhares de mortes causadas por ocorrências extraordinárias relacionadas com o clima e milhões de pessoas obrigadas a deslocar-se, a fugir e a migrar. Está, por outro lado, bem identificada a relação entre as mudanças climáticas e modelos económicos predatórios que esmagam a possibilidade de vida em vastas zonas onde comunidades humanas construíram as suas vidas desde há séculos.
A hora é, pois, de ação. Ponderada e atenta às complexidades dos problemas em jogo, certamente. Mas ação que requer coragem e celeridade.
Não podemos ficar simplesmente a olhar para o que se passará nas duas semanas da Cimeira de Glasgow. É decisivo o que lá acontecerá. Mas a responsabilidade é também de cada um de nós. E, para quem é crente, a oração é uma forma de deixar que o problema entre em cada um de nós e de gerar e alimentar correntes de consciência, capazes de produzir frutos. Mas, também nesta matéria, tem de ir a par com a mudança de vida, da vida de cada pessoa – de hábitos e práticas enraizadas, banalizadas no dia-a-dia. Para não ficarmos no “blá-blá-blá”, como denunciava recentemente a jovem ativista Greta Thunberg. Tem de traduzir-se, como aponta a encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, em ações coletivas, em políticas públicas, em projetos e planos de todas as organizações da sociedade civil, incluindo as religiosas.
Ora, neste domínio, aquilo que têm feito as confissões religiosas em Portugal, cada uma de per si e todas em conjunto, está ainda muito longe do patamar que seria desejável, como amplamente documentou um trabalho recente do 7MARGENS, feito em conjunto com a revista Família Cristã. Ainda que existam iniciativas neste terreno, elas são pouco expressivas quer em termos quantitativos quer qualitativos.
Falando da Igreja Católica, a confissão mais importante, ela tem espaços de culto, gere, direta ou indiretamente, muitos terrenos, espaços e edifícios, no âmbito escolar, socio-caritativo, associativo e outros, tem permanentemente agentes de pastoral seus a viajar para dentro e fora do país… E talvez mais do que outras instituições sociais pode formar agentes, despertar consciências, incentivar práticas novas (reciclagem, redução do uso de materiais dificilmente recicláveis, desinvestimento em atividades que contribuam para a emissão de gases com efeito de estufa, aposta em novas fontes de energia, investimentos financeiros, etc.).
Para isso, é necessário estudar a Laudato Si’ e os valores e orientações que a informam; definir modos de a concretizar; envolver pessoas e grupos, crentes ou não, abertos à ação em benefício do cuidado da casa comum.
Muitas são as instituições da Igreja Católica, desde a sua Universidade e outros organismos de formação superior até aos movimentos laicais, às ordens religiosas e às estruturas de pastoral, que podem dar corpo a planos e projetos voltados para “uma nova solidariedade fundada na justiça, no facto de partilharmos um destino comum e na consciência da unidade da família humana”, como diz o Papa Francisco.
Torna-se, porém, evidente que, se não houver um movimento de afirmação de vontade da parte dos bispos e da sua Conferência Episcopal, que defina uma estratégia, aponte metas, apele à articulação de esforços, envolva agentes e especialistas multidisciplinares da sociedade, não sairemos da cepa torta, pese embora algumas excelentes iniciativas que já existem no terreno, incluindo em conjunto com outras igrejas cristãs.
Neste âmbito, como noutros para que o magistério de Francisco reiteradamente apela, importa reconhecer que não temos tido uma resposta dos bispos à altura dos desafios que a Igreja e o mundo requerem, em termos de visão, coragem profética e capacidade de ação conjunta. Serão ao menos capazes de escutar quem na Igreja e na sociedade, na investigação científica, nas lutas da cidadania ou no ativismo ecológico, pode ajudar a examinar a situação e a abrir caminho para o que é urgente fazer? Mesmo que nem todos sejam sensíveis ou se sintam preparados, arriscarão os outros uma proposta de ação articulada nas respetivas dioceses?
É o direito à vida de tantas pessoas e povos de hoje e das gerações futuras, que está em causa. É o risco de deixarmos morrer o terreno que a “parábola do semeador” já não encontrará.
Enquanto os políticos, cientistas e ativistas discutem em Glasgow, chegou a hora de vermos com pragmatismo o que é que cada um(a) e todos nós podemos fazer. Aos bispos cabe uma responsabilidade especial nesta matéria que é, no seu alcance profundo, crucial para a salvação do planeta, a justiça social e a paz entre os povos.










