AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

[Entre Margens]

A civilização amedrontada

| 15/05/2026

 

Vivemos numa Europa em sobressalto. Tem medo das guerras, das pandemias, das crises, do fim do planeta, do fim de si mesma. E essa avalanche de medos diz hoje mais respeito ao futuro do que ao que efetivamente nos é dado viver, no nosso tempo e no nosso espaço. O medo do que ainda não é transforma-se em ansiedade – e a ansiedade retira-nos a capacidade de viver a vida com a gratidão e a generosidade que um olhar mais distanciado nos permitiria.

A informação globalizada, hiperbolizada e desequilibrada nos seus pesos relativos oferece-nos um espelho do mundo objetivamente falso, mentiroso e redutor. Perdemos a capacidade de parar no presente o tempo suficiente para perceber o que nos é dado ser, ter e viver. Habitamos possibilidades más antes de habitarmos a realidade. E essa forma de ansiedade – amplificada e partilhada até à exaustão – tornou-se uma ansiedade coletiva.

Ela condiciona silenciosamente gerações inteiras: nos filhos que não têm, nos vínculos que não criam, nos sonhos que calam, nas entregas que adiam.

Tornamo-nos assim numa civilização pusilânime, pequena nas suas avaliações, mas sobretudo na sua agência – na capacidade de tomar a vida nas próprias mãos, acreditar e agir em conformidade.

Porque isso é preciso parar. Travões a fundo. E deixar-nos ver sob o olhar de Deus – que dissipa o medo, que nos revela quem somos, que nos restitui esperança.

Mão

“O medo fecha a mão. A fé abre-a.” Foto © Billy Basco | Unsplash

Esse parar ontológico é talvez uma das categorias mais ameaçadas pelo novo estilo de abertura indiscriminada ao mundo que nos cabe na palma da mão: um estímulo tão fácil, tão certeiro e tão viciante na sua aparente relevância, que já não somos capazes de estar a sós connosco mesmos – e imagine-se então sob o poderoso silêncio de Deus.

Mas mais do que nunca, esse passo é necessário, se queremos cortar as amarras do que nos empurra para os abismos dos nossos medos: todo o ruído agoirento, todo o “mau presente” exponenciado e transformado em timoneiro do barco precário da nossa existência – esse barco que só a nós cabe dirigir.

Esta Europa cansada é uma Europa que deixou de esperar. Que deixou de acreditar. Que deixou de ser por si mesma – uma voz que não respondia apenas ao mundo, mas o abria; que liderava porque inaugurava horizontes em vez de os fechar. Agora vê-se impotente e sentada sobre os louros de quem morreu por ela mas não disposta ao mesmo gesto. Cria para si mais colchões à custa de quem não se deita neles. Cresce para dentro, numa autofagia aflitiva. Engorda em vez de distribuir.

O medo fecha a mão. A fé abre-a.

Temos aqui cinco pães e dois peixes (cf. Mt 14, 17). Temos (somos) sempre pouco. Mas o milagre não somos nós que o fazemos, é Deus. O único que nos é pedido é a generosidade de entregar tudo: as nossas possibilidades, os nossos dons, a nossa penúria.

Alguém entregou os seus cinco pães e dois peixes. Despojou-se deles totalmente. Confiou cegamente. Foi heroicamente generoso. Deu tudo sem saber o que esperar. E a essa generosidade Deus correspondeu com alimento para todos: mais de cinco mil pessoas, sem contar com mulheres e crianças (cf. Mt 14, 21).

Não sabemos o nome de quem deu tudo. Um feliz anónimo que permitiu a Deus fazer desse tudo – afinal tão pouco, como tudo o que nós somos – um milagre que tornou todos mais ricos, mais próximos pela partilha do pão, irmãos à mesma mesa.

A cada dia deveríamos perguntar-nos se demos os nossos cinco pães e dois peixes, ou se continuamos agarrados a eles – seja o que for – como último reduto do nosso conforto, do nosso egoísmo, do nosso estatuto, do nosso futuro. Temos de sentir o desconforto do dom para que ele seja maior – sem isso estamos aquém da fé.

Enquanto não o fizermos, dificilmente experimentaremos a liberdade dos filhos de Deus: essa confiança radical que nos permite deixar Deus fazer história através das nossas penúrias, para bem de toda a família humana, e experimentar depois à nossa volta a vertigem da generosidade divina.

 

Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.

 O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This