Vivemos numa Europa em sobressalto. Tem medo das guerras, das pandemias, das crises, do fim do planeta, do fim de si mesma. E essa avalanche de medos diz hoje mais respeito ao futuro do que ao que efetivamente nos é dado viver, no nosso tempo e no nosso espaço. O medo do que ainda não é transforma-se em ansiedade – e a ansiedade retira-nos a capacidade de viver a vida com a gratidão e a generosidade que um olhar mais distanciado nos permitiria.
A informação globalizada, hiperbolizada e desequilibrada nos seus pesos relativos oferece-nos um espelho do mundo objetivamente falso, mentiroso e redutor. Perdemos a capacidade de parar no presente o tempo suficiente para perceber o que nos é dado ser, ter e viver. Habitamos possibilidades más antes de habitarmos a realidade. E essa forma de ansiedade – amplificada e partilhada até à exaustão – tornou-se uma ansiedade coletiva.
Ela condiciona silenciosamente gerações inteiras: nos filhos que não têm, nos vínculos que não criam, nos sonhos que calam, nas entregas que adiam.
Tornamo-nos assim numa civilização pusilânime, pequena nas suas avaliações, mas sobretudo na sua agência – na capacidade de tomar a vida nas próprias mãos, acreditar e agir em conformidade.
Porque isso é preciso parar. Travões a fundo. E deixar-nos ver sob o olhar de Deus – que dissipa o medo, que nos revela quem somos, que nos restitui esperança.

“O medo fecha a mão. A fé abre-a.” Foto © Billy Basco | Unsplash
Esse parar ontológico é talvez uma das categorias mais ameaçadas pelo novo estilo de abertura indiscriminada ao mundo que nos cabe na palma da mão: um estímulo tão fácil, tão certeiro e tão viciante na sua aparente relevância, que já não somos capazes de estar a sós connosco mesmos – e imagine-se então sob o poderoso silêncio de Deus.
Mas mais do que nunca, esse passo é necessário, se queremos cortar as amarras do que nos empurra para os abismos dos nossos medos: todo o ruído agoirento, todo o “mau presente” exponenciado e transformado em timoneiro do barco precário da nossa existência – esse barco que só a nós cabe dirigir.
Esta Europa cansada é uma Europa que deixou de esperar. Que deixou de acreditar. Que deixou de ser por si mesma – uma voz que não respondia apenas ao mundo, mas o abria; que liderava porque inaugurava horizontes em vez de os fechar. Agora vê-se impotente e sentada sobre os louros de quem morreu por ela mas não disposta ao mesmo gesto. Cria para si mais colchões à custa de quem não se deita neles. Cresce para dentro, numa autofagia aflitiva. Engorda em vez de distribuir.
O medo fecha a mão. A fé abre-a.
Temos aqui cinco pães e dois peixes (cf. Mt 14, 17). Temos (somos) sempre pouco. Mas o milagre não somos nós que o fazemos, é Deus. O único que nos é pedido é a generosidade de entregar tudo: as nossas possibilidades, os nossos dons, a nossa penúria.
Alguém entregou os seus cinco pães e dois peixes. Despojou-se deles totalmente. Confiou cegamente. Foi heroicamente generoso. Deu tudo sem saber o que esperar. E a essa generosidade Deus correspondeu com alimento para todos: mais de cinco mil pessoas, sem contar com mulheres e crianças (cf. Mt 14, 21).
Não sabemos o nome de quem deu tudo. Um feliz anónimo que permitiu a Deus fazer desse tudo – afinal tão pouco, como tudo o que nós somos – um milagre que tornou todos mais ricos, mais próximos pela partilha do pão, irmãos à mesma mesa.
A cada dia deveríamos perguntar-nos se demos os nossos cinco pães e dois peixes, ou se continuamos agarrados a eles – seja o que for – como último reduto do nosso conforto, do nosso egoísmo, do nosso estatuto, do nosso futuro. Temos de sentir o desconforto do dom para que ele seja maior – sem isso estamos aquém da fé.
Enquanto não o fizermos, dificilmente experimentaremos a liberdade dos filhos de Deus: essa confiança radical que nos permite deixar Deus fazer história através das nossas penúrias, para bem de toda a família humana, e experimentar depois à nossa volta a vertigem da generosidade divina.
Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.
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