Sessão nesta 2ª feira, 30

A “Clavis” do Padre António Vieira é aberta entre Lisboa e Roma

| 29 Mai 2022

Padre António Vieira. Foto © DR

O manuscrito original da Clavis Prophetarum (em português A Chave dos Profetas), da autoria do Padre António Vieira, que se encontrava desaparecido há 300 anos e cuja existência muitos colocavam já em causa, será apresentado nesta segunda-feira, a partir das 16h30, em Lisboa. A sessão especial, que se realiza na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tem ligação directa com a Universidade Pontifícia Gregoriana, de Roma, e pode ser acompanhada também através de transmissão vídeo (com registo prévio ou acesso através da página dedicada à iniciativa).

Às 18h, depois da sessão, o 7MARGENS publicará também uma notícia alargada sobre a descoberta do documento e o seu significado, bem como imagens do manuscrito.

O achado deste importante documento foi feito por dois investigadores portugueses em Roma, na Biblioteca da Universidade Pontifícia Gregoriana: Ana Travassos Valdez, especialista em literatura apocalíptica e investigadora principal do Centro de História da Universidade de Lisboa, que primeiro se cruzou com ele, e Arnaldo Espírito Santo, professor emérito da Faculdade de Letras, que já publicara uma edição crítica do livro III da Clavis.

É neste texto, que o próprio considerava a sua grande obra e cuja redacção o consumiu durante cinco longas décadas, que aparece mais clara a utopia de Vieira, o seu optimismo sobre o futuro da humanidade e a evolução das suas próprias ideias. Por exemplo, acerca da ideia do Quinto Império, tema que quase desaparece nesta obra.

O terceiro livro da Clavis tinha sido objecto de uma edição crítica coordenada por Arnaldo Espírito Santo e publicada em 2000, pela Biblioteca Nacional. O projecto de completar a edição crítica ficou depois em suspenso com a publicação das Obras Completas do padre António Vieira, preparada por uma equipa dirigida pelo historiador José Eduardo Franco, onde foram usadas versões das cópias conhecidas nessa altura.

Esta obra, dizia já em 2000 o seu editor crítico, “vem trazer muitas novidades à interpretação do pensamento de Vieira”. No Livro I, Vieira faz essencialmente uma “fundamentação bíblica” do que pretende, como se fosse um tratado escolástico. No Livro II, trata algumas questões concretas, como a integração dos índios na Igreja ou o problema da paz. O Livro III, porventura o mais difícil de trabalhar, por haver manuscritos com diferentes propostas de organização, mas também aquele que será mais fácil de captar pelos leitores, sintetiza a visão da utopia de Vieira e a pregação universal que deveria ser feita para chegar ao Reino de Cristo Consumado na Terra, como diz o subtítulo da obra.

É também aqui que o jesuíta – missionário no Brasil e diplomata de D. João IV em várias missões ao estrangeiro, incluindo na guerra de Portugal contra Castela, depois de 1640 – abandona a ideia, que tinha desenvolvido em vários textos anteriores, do Quinto Império como correspondendo a Portugal e ao monarca. Em obras como História do Futuro ou na carta Esperanças de Portugal, Vieira tem uma perspectiva milenarista, até há pouco tempo apresentada como uma das marcas do seu pensamento.

O jesuíta fala do Quinto Império e enaltece de um modo “patrioteiro” o papel de D. João IV. Na Clavis, dizia Arnaldo Espírito Santo em 2000, essa perspectiva dá lugar a uma fundamentação bíblica, “mais consentânea com a política realista do tempo” de Vieira.

 

Ideias revolucionárias, hoje comuns

O autor do Sermão de Santo António aos Peixes, explicava o professor universitário na ocasião, aposta “na união entre o Estado e a Igreja”. Mas esta união era vista ao serviço de um mundo “sem fronteiras, de uma Igreja do futuro, em que ninguém – mesmo índios, negros, judeus – está excluído”. Ou seja, o reino de Cristo “não está fora da realidade, antes traduz um tempo em que a humanidade viverá em paz, sem sofrimento nem fome, sem escravatura nem miséria, com as pessoas a viver mais anos”, mas continuando a ser governadas pelos reis e príncipes.

Na Clavis, o padre António Vieira antecipa ideias hoje comuns, mas revolucionárias ou, no mínimo, polémicas para o seu tempo. Defensor dos judeus e dos índios, propõe o diálogo inter-religioso e intercultural que só nas últimas décadas se desenvolveu. Missionário incansável, a sua posição antecipa correntes actuais da inculturação, na linha de um Bartolomeu de las Casas (que cita com frequência) e do que seria o papel dos jesuítas na questão dos ritos. Grande cultor dos clássicos, apresenta três idades da humanidade, correspondentes à natureza, à lei e à graça.

Segundo Vieira, Virgílio faz com os pagãos o que Moisés fez com os judeus, explica Arnaldo Espírito Santo. “Quase que vê os autores pagãos como enviados de Deus para o seu tempo, do mesmo modo que Moisés o foi para os judeus” e Cristo para os cristãos.

Para apresentar as suas ideias, Vieira recorre a histórias como a que procurava responder à pergunta sobre a condenação dos índios e dos negros ao Inferno: “Acaso os bárbaros criados nas selvas, os quais nada ouviram acerca de Deus e o ignoram invencivelmente, devem ser sujeitos às penas eternas pelos seus pecados?” Para responder negativamente, Vieira conta a história de um rapaz de 12 anos, escravo num colégio dos jesuítas na Baía (Brasil), com quem, um dia, discute o tema. O jovem Bernardo não se fica perante o inteligente jesuíta e termina o diálogo com uma pergunta: “Como é que um homicida que não conheceu a Deus deverá ser castigado por Deus (e Deus de infinita misericórdia) não com um suplício temporal e finito, mas com as perpétuas penas do Inferno que hão-de durar eternamente, para compensar uma vida mortal, que não dura perpetuamente, da qual privou outra pessoa?”

Se a Clavis Prophetarum nunca chegasse a ser publicada, a imagem de António Vieira seria completamente diferente e pouco autêntica. “Seria um Vieira contraditório”, diz o organizador da edição crítica e agora co-responsável pela apresentação do manuscrito. Na História do Futuro, por exemplo, podem ler-se várias coisas que, “desintegradas politicamente da época e da guerra que Portugal mantinha com Castela, apareceriam como verdadeiras alucinações”. Ao contrário, a Clavis ajuda a entender todo o pensamento do incansável pregador do Brasil. E sintetiza a sua “grande pluralidade de pontos de vista”. “Vieira teve várias verdades, conforme a fase da vida em que se encontrava, mas sempre com uma grande coerência geral”, diz Arnaldo Espírito Santo.

Com 324 folhas muito desiguais, o manuscrito agora descoberto foi verificado de diversas maneiras para se poder ter a certeza de que se trata do original da Clavis Prophetarum.

Na sessão de apresentação, intervêm os dois investigadores responsáveis pela descoberta, que irão contar a história de como o manuscrito se perdeu (Oggi Perduto, ou “Hoje, perdido” é o título da intervenção de Arnaldo Espírito Santo) e de como ele foi encontrado e como se concluiu que era mesmo este o documento original (Oggi Trovato, “Hoje encontrado”). Ao mesmo tempo, mostrarão imagens da encadernação e de alguns excertos.

O também jesuíta professor da Gregoriana Martín Morales, director do Arquivo Histórico da Universidade Pontifícia, falará sobre a história do manuscrito e o futuro da sua edição. Irene Pedretti, restauradora e arquivista da Gregoriana, e Giulia Venezia, responsável pelo projecto de digitalização do documento, falarão sobre a questão material do manuscrito.

Intervêm ainda na sessão o director da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Miguel Tamen, a presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, Helena Pereira, e os reitores das duas universidades: o padre jesuíta Nuno da Silva Gonçalves, da Gregoriana, e Luís Ferreira, de Lisboa.

 

(Parte deste texto usa um artigo publicado em 3 de Outubro de 2000 no Público.)

 

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