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A cobardia do anonimato ou a proteção dos corajosos

| 05/02/2025

 

Nem sempre os momentos para nada são inúteis. Por vezes precisamos de parar, apanhar sol, tomar um café, olhar para o rio e, sem excessiva curiosidade, estar atentos ao que acontece à nossa volta. Aliás, não há momentos para nada, pois, mesmo que, aparentemente, sejam inúteis, são bons só porque são vividos e porque podem tornar-se inspiradores.

A propósito de um desses pedaços de tempo e da conversa que ocorria numa mesa bem próxima, queria partilhar um pouco do que penso sobre o uso do anonimato na contemporaneidade, neste mundo em que, sem alinhar em modernismos, não podemos desvincular-nos da modernidade, devendo ficar nela com o reconhecimento dos benefícios que nos traz, se a soubermos integrar.

Frequentemente encontramos pessoas zangadas com o sucesso dos outros; frequentemente cruzamo-nos com gente mal resolvida, de que já tenho falado, que, em vez de tentar procurar soluções para a sua vida e para as suas emoções desalinhadas, boicota a coragem de quem faz algo; frequentemente encontramos pessoas que parecem esquecer-se ou, se calhar, nunca souberam, que a liberdade de cada um, desde que não prejudique ninguém, desde que não seja manipuladora ou trapalhona, é um direito, é um dom, é algo que é inerente à condição do ser humano e, ainda mais, daquele que gosta de viver com dignidade.

Inveja

“Frequentemente encontramos pessoas zangadas com o sucesso dos outros; frequentemente cruzamo-nos com gente mal resolvida, de que já tenho falado, que, em vez de tentar procurar soluções para a sua vida e para as suas emoções desalinhadas, boicota a coragem de quem faz algo; (…)” Foto © Megan Watson / Unsplash

 

Estava a assistir â atuação de um destes viventes em cuja ação acabei por tropeçar e percebi o seu modus operandi, escudado na cobardia do anonimato. Alguém que escreve incorreções com credibilidade aparente, mas sem nome, apenas por invejar aqueles que tentam fazer alguma coisa só com simplicidade, alegria e desejo de contribuir de alguma forma para a reflexão dos outros.

Esta conduta escondida contrasta com a coragem dos assumidos que não se cansam de dizer o que pensam de forma honesta; que dão lugar a todos com consistência; que validam quem faz bem e não quem faz de conta; que consideram quem contribui, de algum modo, para fazer melhor, seja isso o que for e tenha que dimensão tiver – jornalismo, literatura, jardinagem, culinária, paz…

Pôr os dedos nas feridas da vida é cansativo, monótono e pouco sensual, mas se, para alguns, ainda que poucos, for útil, já valeu a pena.

O anonimato, outrora um escudo para proteger vozes oprimidas e denunciar injustiças em regimes autoritários, transformou-se, para alguns, numa arma de arremesso cobarde. Escondidos atrás de perfis falsos ou identidades ocultas, certos indivíduos sentem-se à vontade para proferir insultos, disseminar boatos e atacar a integridade alheia sem qualquer consequência direta ou indireta. A ausência de responsabilização, que o escondimento favorece, fomenta um ambiente tóxico no qual a difamação, a calúnia e o ódio prosperam.

A internet, com a sua aparente ausência de fronteiras e a facilidade de criação de identidades virtuais, potenciou este fenómeno. O anonimato on-line oferece impunidade, incentivando comportamentos que dificilmente seriam replicados no contacto face a face. A crítica construtiva, essencial para o desenvolvimento individual e social, dá lugar a ataques pessoais e comentários maldosos, muitas vezes destituídos de qualquer fundamento.

A inveja surge frequentemente como o motor destas ações. A frustração perante as próprias limitações, manifesta-se através da tentativa de diminuir o outro, de denegrir a sua imagem pública. O anonimato dá cobertura perfeita a este tipo de comportamento, permitindo que o invejoso ataque sem se expor, sem ter de encarar as consequências das suas iniciativas.

É, no entanto, crucial distinguir o anonimato malicioso da proteção da identidade em situações de risco. Jornalistas que investigam crimes, ativistas que lutam contra regimes opressores, vítimas de violência doméstica que denunciam os seus agressores, todos eles podem precisar do anonimato para garantir a sua segurança e/ ou a integridade do seu trabalho. Nestes casos, o anonimato não é um ato de cobardia, mas sim uma ferramenta de autoproteção.

A verdadeira coragem reside, pois, na capacidade de exprimir as nossas opiniões de forma clara e honesta, assumindo a responsabilidade pelo que dizemos e fazemos; na capacidade de enfrentar as dificuldades, procurando soluções construtivas em vez de atacar quem se atreve a agir; em reconhecer o valor do trabalho alheio, mesmo quando este nos faz olhar para as nossas lacunas ou óbvias fragilidades.

A sociedade beneficia da diversidade de ideias e da livre expressão, mas esta liberdade deve ser exercida com responsabilidade e respeito pelo próximo. O anonimato, quando usado de forma maliciosa, mina os alicerces da convivência leal, promovendo a desconfiança e o ódio. É, assim, imprescindível promover uma cultura digital que valorize a transparência, a ética e o respeito mútuo.

De qualquer forma há que dizer que a verdadeira mudança começa em cada um de nós, na escolha consciente de abandonar as máscaras da maldosa ocultação; de acolher com responsabilidade as consequências da própria voz; de abdicar da ditadura da preservação das aparências sem eco interno consistente e autêntico.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt 

 

 

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