Nos primeiros planos de Valor Sentimental somos surpreendidos: Nora Borg (nesta altura ainda não identificada) está imersa num ataque de pânico. É actriz de teatro e televisão e está prestes a entrar em palco. Como o aplauso do público mostra a qualidade do seu desempenho – algo que se repete em cada representação – torna-se incompreensível o seu estado extremo, mesmo tendo em conta o tão referido stress do actor antes de pisar o palco. Este é o ponto de partida para um dos grandes filmes neste início de 2026. Tal é reconhecido nos nove Óscares para que está nomeado (Melhor Filme Internacional e actores principais, entre outros), nos inúmeros prémios já obtidos, onde se realçam os Bafta, os prémios do cinema Europeu, Filme Europeu do Ano – em Berlim – e o Grande Prémio, de Cannes, para o realizador dinamarquês/norueguês Joachim Trier, estando o filme também nomeado para a Palma de Ouro do referido Festival e cuja exibição foi recebida com muito prolongada ovação. Esta é uma etapa de maturidade de um cineasta que tem mantido, ao longo dos anos, uma escala de grande qualidade que, em larga medida, tem sido mostrada ao público português, com filmes como Oslo, 31 de Agosto (2011), Thelma (2017), A Pior Pessoa do Mundo (2021).

Valor Sentimental é um filme que convida o espectador a indagar, já que é um filme exímio na arte superior da elipse, que não se confunde com economia narrativa. Além do argumento não ser linear (é frequentemente marcado por flashbacks), mas com um desenrolar cronológico, ele envolve o filme no outro filme que se quer construir dentro dele. Tornando intensamente complexa a estrutura narrativa este elemento entrosa-se com a realidade da casa onde habita Nora. A casa é memória de gerações anteriores, a casa é personagem que não só molda Nora e a sua irmã, Agnes, mas desempenhará papel fundamental no desenrolar do drama, tal como será eixo que remete para a avó materna das irmãs, vítima da perseguição e morte dos judeus durante a ocupação alemã nazi. A mãe de Nora e Agnes – cuja memória também impregna a casa – morrera recentemente.
Drama, sim. Drama para o qual teremos a chave quando surgir o pai de Nora e Agnes, Gustav Borg (Stellan Skarsgard), um reputado realizador de cinema. Gustav é a resposta às nossas interrogações sobre o estado anímico de Nora, retratado quando se preparava para entrar em cena. E aqui está o quadro: Gustav é o pai ausente na vida das suas filhas, ausente mesmo na morte da mulher. E enquanto Agnes guardou distância do ausente e leu criticamente as marcas da sua personalidade, Nora cercou-se, em trauma, da distância física e psicológica da figura paterna, que nunca lhe transmitiu amor. Eis que Gustav, o grande senhor do cinema, reaparece envolto em surpreendente ambiguidade: ele quer fazer um filme, centrado na casa, oferecendo a Nora o papel protagonista. Perceberemos que, em jogo, estará uma tentativa de aproximação, que Nora rejeita de forma cabal, violentas que são as memórias de abandono que a tolhem. A negativa levará Gustav a contratar uma actriz americana para assumir o papel destinado a Nora, situação que desencadeará em Nora uma turbulência de sentimentos contraditórios e uma forte desestabilização psicológica. Será a equilibrada Agnes que, ao ler o argumento do filme, se dará conta que o desenho da personagem central aponta claramente para a irmã. Assim, Agnes, que nutre um amor genuíno e protetor por Nora – claramente retribuído – convencerá a irmã a tomar contacto com o argumento, facto que imbuirá Nora de profunda comoção. A relação da actriz substituta com o papel é também emocionalmente complexa e conduzi-la-á a uma incapacidade total de desempenho e consequente recusa. A cena final mostra-nos Nora como intérprete do filme, na muito emotiva cena do suicídio da avó paterna, revelando, a coda do filme, com muito equilíbrio, o árduo caminho da reconciliação com Gustav.

“Este desenho breve da sinopse do filme revela, certamente, a complexidade dos sentimentos humanos presentes: a relação fortemente afetiva das irmãs, os escolhos de difícil superação entre Nora e o pai, a história anterior de sofrimento das avós, o envolvimento afetivo do espaço geracional da casa.” Cena do filme retirada do trailer.
Este desenho breve da sinopse do filme revela, certamente, a complexidade dos sentimentos humanos presentes: a relação fortemente afetiva das irmãs, os escolhos de difícil superação entre Nora e o pai, a história anterior de sofrimento das avós, o envolvimento afetivo do espaço geracional da casa. Todo este material é trabalhado minuciosamente por Trier que ultrapassa a todo o momento o ténue fio da fronteira do melodrama. Saliente-se, para o resultado final, a mais-valia da excelente interpretação das actrizes e do veterano Skarsgard. Em entrevistas o realizador escandinavo não recusa que paire sobre o filme o manto tutelar da atmosfera que encontramos nos filmes de Ingmar Bergman, realizador que Trier admira. O espectador que conheça a obra do realizador sueco senti-lo-á certamente durante a projecção.
Nestes dias que nos aproximam da atribuição dos Óscares da Academia de Hollywood e quando nos damos conta do frenesim dos argumentos e da agitação da montagem que percorre as histórias de certos filmes americanos, desenhados para chegarem aos prémios da estatueta dourada, é bom sermos confrontados com obras como Valor Sentimental, que nos interpela serenamente e nos diz que apesar da rarefação de público em muitas salas de cinema e dos malefícios do streaming, a grande arte do cinema continuará.
Valor Sentimental (2025)
Drama
Realizador: Joachim Trier (n.1974)
Argumento: J. Trier e Eskil Vogt
Fotografia: Kasper Tuxen
Música: Hania Rani
Montagem: Olivier Bugge Coutté
Origem: Noruega/Alemanha/Dinamarca e outros
Actor e actrizes principais: Renate Reinsve, Stellan Skarsgard, Inga Ibsdotter, Lilleaas e Elle Fanning
Carlos Capucho é professor aposentado de Estudos Fílmicos da FCH da Universidade Católica Portuguesa










