“O não-saber começa lá, onde o espanto sobre existência se enraíza na perceção da própria existência.
O não-saber se torna visível onde a consciência se dá conta da estranheza da consciência e, por este motivo,
tem dificuldade em assumir posições firmes, também em relação ao próprio não-saber”
(Oegema, p.19, citado pela colaboradora do 7Margens, Marijke de Koning, Desafios, coragem e não saber, 21/8/2026).
Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo.
Mas com esta evidência radical e fulgurante de que existimos e somos, não vem apenas a consciência do não-saber. Vem também, concomitantemente, a consciência luminosa, precisamente, de que somos e existimos, o que quer que isso signifique no seu mistério radical. O primeiro saber, quando bem considerado o mistério da consciência para si própria, é precisamente o da própria existência, a qual não se pode negar sem cair em flagrante contradição. Isto viu-o bem Descartes no Cogito, mas já Sócrates, o “pai” da filosofia ocidental, o havia visto dois mil anos antes, e, depois dele, Santo Agostinho [1], que neste aspeto antecipou Descartes em muitos séculos.

Portanto, a consciência radical do “não-saber” traz associada a consciência radical do saber-se ser, o que já por si é um conhecimento que se pode afirmar sem hesitações. Haverá algo mais que possamos saber a partir daí? Julgo que sim, embora não pretenda com isto dizer que o mistério da existência se torna menos misterioso por podermos saber mais umas quantas coisas. Pelo contrário, o mistério, que é absoluto, só se adensa, quanto mais aprofundamos o mistério de existir, que é, afinal, o mistério da realidade última, do Ser, enfim, de Deus.
Podemos saber, por exemplo, e em primeira mão, que o universo admite a interioridade. Se nós, enquanto seres conscientes, possuímos vida mental e experiência subjetiva, é inegável por conseguinte que o universo não é apenas constituído por uma face material e física. Muito pelo contrário, há necessariamente uma realidade imaterial, mental, espiritual, se quisermos, que permeia a realidade física. E se permeia, como é patente, uma parte dessa realidade – que somos nós e toda a vida senciente –, o que nos impede de admitir que permeie toda a realidade? Se a consciência-interioridade foi uma possibilidade que, sem dúvida, se concretizou, não será porque, no tecido mesmo da realidade, no seu fundamento, a “abertura da subjetividade” já lá existia previamente?
Podemos também saber o seguinte: se é evidente, luminosamente evidente, que eu sou, então é igualmente evidente que há algo que é. Se há algo que é, e esse algo fosse finito e limitado, então não haveria senão o ser limitado que sou confinando com o nada absoluto. Mas, bem entendido, o nada absoluto, por definição, é pura não-existência. Por conseguinte, não quer isto dizer que, se há ser, mesmo que seja só o meu ser do qual tenho absoluta evidência interior, então este tem de ser ilimitado? É que um ser que confina com o nada absoluto não confina com coisa nenhuma, ou seja, não tem na verdade limites. O nada absoluto, se realmente é pura não-existência, não pode dar lugar senão ao Absoluto-Ser, ou seja, ao Ser absolutamente infinito, contínuo e não discreto, posto em si mesmo absoluta e infinitamente. Do meu ser, do qual tenho absoluta auto-evidência, concluo assim pelo infinito da própria realidade, pelo infinito do Ser.
Não estou com isto a afirmar que é o meu ser que é infinito, mas sim que o Ser, em geral, é infinito, e que o nosso ser individual está nele fundado. A consciência da consciência traz a evidência de um absoluto. Ou seja, eu sou eu, misteriosa e irredutivelmente; a minha interioridade é precisamente minha, ou seja, decorre de um acesso “privilegiado” a uma zona do ser que escapa infinitamente a qualquer outro como eu. Daqui decorre uma intuição de haver em nós algo autossubsistente, algo absoluto, ou que assenta no absoluto, e portanto naquela realidade que é imortal e infinita.
Em conclusão, a consciência da consciência é um clarão que nos faz vislumbrar momentaneamente o Infinito, e é por isso que não saímos dele senão como Sócrates: sabendo, aguda e pungentemente, que nada sabemos. Espantados, assombrados, mas não resignados ao ceticismo e à dúvida, porque é na revelação da alma a si própria que o caminho começa.
[1] De facto, Santo Agostinho escreveu, contra os céticos da Nova Academia que frequentemente defendiam a impossibilidade de todo o conhecimento, o seguinte: “«No que respeita a estas verdades, os argumentos dos Académicos perdem a sua força. Se disserem «E se estiveres enganado?» – bom, se estiver enganado, existo. Pois quem não existe não pode de modo nenhum estar enganado. Logo, existo, se estou enganado.” (citado por Mathews, Gareth, Santo Agostinho, Lisboa, Edições70, pp.61 e 62) Assim, Santo Agostinho também tem o seu Cogito, cerca de mil e duzentos anos antes de Descartes.
Ruben Azevedo é professor e autor dos livros Essência da Vida, Enigma – Noemas em torno do Mistério do Ser e do Existir e What saves us?: Selected writings on Absolute, Consciousness, Freedom, Meaning.
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