“… é impossível falar de democracia dentro de um modelo político e económico neoliberal. Chegamos a este ponto porque a corrupção, ou seja, a destruição do bem comum para ganho privado, tem-se espalhado de forma constante nos últimos trinta anos, socializando-se num processo que leva à sua banalização. Banalizar a corrupção é uma forma de aceitá-la socialmente, de modo que a própria alma da sociedade se corrompe.”
A afirmação é do professor Bernardo Pérez Andreo, no seu artigo “Democracia y corrupción en los límites del neoliberalismo globalizado”, no último número (414) da revista Concilium. O tema abordado por Bernardo Pérez Andreo levanta uma reflexão importante sobre a relação entre neoliberalismo, democracia e corrupção. A afirmação de que a corrupção se tornou parte intrínseca do sistema neoliberal aponta para um cenário em que o interesse privado se sobrepõe ao bem comum, enfraquecendo os pilares democráticos. Este processo de normalização da corrupção acaba por desmobilizar a sociedade, tornando mais difícil a construção de alternativas éticas e coletivas. É fundamental debater de que forma a lógica neoliberal influência comportamentos e instituições, promovendo uma cultura onde práticas corruptas são frequentemente toleradas ou mesmo justificadas.
Tal discussão é essencial para repensar os caminhos possíveis para uma sociedade mais justa e democrática. Mais à frente Andreo conclui que “As democracias neoliberais são, em si mesmas, um oximoro [figura de linguagem que combina dois conceitos ou palavras de significado oposto na mesma expressão, criando um significado lógico ou metafórico]. A verdadeira democracia não pode existir dentro do sistema neoliberal, uma vez que este se baseia na privatização de bens comuns em benefício do lucro privado. Esta é a essência da corrupção neoliberal, que minou as democracias ao impor uma espécie de banalidade da corrupção, reforçada pela aceitação passiva da cidadania.”

“A afirmação de que a corrupção se tornou parte intrínseca do sistema neoliberal aponta para um cenário em que o interesse privado se sobrepõe ao bem comum, enfraquecendo os pilares democráticos.” Foto: Bernardo Pérez Andreo © Archidiócesis de Valencia
Além disso, é importante considerar o impacto da globalização na intensificação desses padrões, já que o neoliberalismo se dissemina por meio de políticas internacionais e acordos que favorecem grandes corporações em detrimento dos interesses locais. A fragilização dos mecanismos de fiscalização e controlo público contribui para a perpetuação de práticas corruptas, dificultando a responsabilização dos agentes envolvidos e minando a confiança da população nas instituições. Neste contexto, torna-se urgente promover uma educação cidadã que valorize a ética e a participação coletiva, incentivando o combate à corrupção não apenas como questão legal, mas como princípio fundamental para o fortalecimento da democracia. Somente através de uma mobilização social ampla e consciente será possível reverter esse quadro e construir um futuro mais equitativo e transparente.
Para além da influência nas instituições políticas e económicas, o neoliberalismo também afeta profundamente as relações sociais e culturais, promovendo valores de individualismo exacerbado e competitividade que dificultam o desenvolvimento de solidariedade e cooperação. Estes fatores contribuem para um ambiente onde o mérito é frequentemente confundido com privilégio, e as desigualdades sociais são vistas como naturais ou inevitáveis.
É igualmente relevante analisar como a resistência à corrupção pode ser fortalecida por meio de movimentos sociais, organizações da sociedade civil e iniciativas de transparência, que têm o potencial de pressionar por mudanças estruturais e exigir uma maior responsabilização dos governantes. O envolvimento ativo dos cidadãos, aliado a políticas públicas orientadas para a justiça social, é fundamental para transformar este cenário e construir uma democracia mais sólida e inclusiva.

“A verdadeira democracia não pode existir dentro do sistema neoliberal, uma vez que este se baseia na privatização de bens comuns em benefício do lucro privado.” Foto :Manifestação em Berlim , em Janeiro 2025, contra a extrema-direita e em defesa da democracia. © Helena Araújo
A ligação entre neoliberalismo e corrupção revela-se especialmente preocupante quando se observa que, sob este modelo económico, o papel do Estado é frequentemente reduzido e as regulações tornam-se menos rigorosas. Isso cria oportunidades para práticas corruptas prosperarem, uma vez que a fiscalização é enfraquecida e o interesse privado passa a dominar as decisões políticas. Como consequência, a corrupção não é apenas um problema moral, mas um sintoma estrutural de um sistema que privilegia o lucro em detrimento do bem-estar coletivo.
Além disso, o neoliberalismo tende a promover uma cultura de competitividade extrema, onde o sucesso individual é valorizado acima da responsabilidade social. Esse contexto favorece a aceitação de esquemas fraudulentos como meios legítimos para atingir objetivos pessoais, tornando a corrupção uma prática quase naturalizada. Para combater esse fenómeno, é crucial fortalecer instituições democráticas e fomentar uma cultura de transparência e participação cidadã, de modo a restaurar a confiança pública e garantir que o interesse comum prevaleça sobre os interesses privados.
Os cristãos e as cristãs têm um profundo dever de denunciar o neoliberalismo.
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










