A criatividade lexical de uma pandemia

| 26 Mai 20

Nas margens da filosofia (XX)

 Ao longo de três meses temos sido espectadores atentos de uma telenovela que nos envolve a todos – as notícias acerca da pandemia covid-19. Não irei debruçar-me sobre os diferentes capítulos deste romance de terror, nem sobre as reviravoltas a que tem sido sujeito e que levaram a que uma inicial epidemia aparentemente longínqua se transformasse em catástrofe mundial com profundas mutações no nosso modus vivendi. Gostaria de sublinhar a criatividade lexical deste fenómeno, no que respeita à criação de novos vocábulos bem como à utilização de termos usuais que, no entanto, ganharam um significado diferente neste contexto.

Há algumas dezenas de anos, foi muito popular a trilogia do realizador Robert Zemeckis intitulada Regresso ao Futuro. Nela, um jovem investigador (Michael G. Fox) era projectado noutra época, mantendo, no entanto, o seu vestuário habitual. E um velho cientista (Christopher Lloyd) olhava intrigado para os seus jeans, ténis e blusão de penas, perguntando qual a razão de tão estranha indumentária. Ao que o jovem respondia tratar-se apenas de calças, de sapatos e de uma espécie de casaco.

A mesma perplexidade é hoje sentida por nós quando ouvimos e lemos as notícias diárias sobre a actual pandemia. E a estranheza diz respeito à utilização de um vocabulário diferente, com o qual nos começamos a familiarizar, quer no que concerne a novos termos e expressões, quer no que respeita a termos usuais que passaram a ser diferentemente conotados.

A exemplificar o primeiro caso, assinalo a expressão distanciamento social. Para além da estranheza desta designação numa sociedade democrática, ela é errónea pois o que se pretende é um mero afastamento físico, impeditivo de contágios.[1] Outra novidade referida nos noticiários é a etiqueta respiratória, que se traduz no cuidado com os espirros, perdigotos e outras emissões paralelas sobre eventuais parceiros. A higienização das mãos é uma nova maneira de lembrar que se lave as mãos com água, sabão, álcool ou gel. E constantemente somos instados a não esquecer o nosso EPI, ou seja, o equipamento de protecção individual, vulgo luvas e máscara ou viseira.

Relativamente a novos significados para termos usuais, temos as luvas que passaram a descartáveis e deixaram de ser um agasalho para o frio, substituindo-se após cada saída à rua. De igual modo, as máscaras, habitualmente usadas no carnaval ou em assaltos de rua, são hoje associadas a uma peça de roupa, de uso imprescindível quando circulamos no exterior ou quando alguém nos visita. A quarentena é um estado que quase todos atravessámos, exceptuando médicos e restante pessoal hospitalar que por dever de ofício não tiveram descanso. Mas para o comum das gentes não se tratou dos catorze dias convencionados, mas sim de dois meses e meio, dado que de Março a Maio todos deveriam estar em confinamento. Este é um substantivo novo que não consta dos dicionários de português onde, no entanto, aparecem o verbo confinar e os adjectivos confinado e confinante. Os vocábulos emergência e calamidade foram os que mais confusão provocaram. As pessoas sentiram-se aliviadas quando foi declarado o fim do estado de emergência, mas a alegria durou pouco porque imediatamente circulou a informação de que se iniciara um estado de calamidade. O sossego voltou quando se percebeu a alteração do significado habitual atribuído a estas designações. E iniciou-se, com esperança, o estado de calamidade.

O caso dos idosos, um eufemismo para dulcificar o termo “velhos”, merece um especial destaque. O tema da velhice interessou os filósofos que o perspectivaram diferentemente. Platão interpretou-o positivamente, associando-o às alegrias do espírito; Aristóteles comparou a velhice a uma doença crónica; os estóicos foram sensíveis à tranquilidade desta fase da vida; Montaigne analisou positivamente a sua própria velhice e considerou-a pacificadora; Rousseau mostrou-nos um olhar complacente para com esta etapa. E no nosso tempo lembramos três perspectivas divergentes sobre a velhice: Para Gilles Deleuze ela é a época em que faz sentido interrogarmo-nos sobre o que é a filosofia.[2] Simone de Beauvoir analisou exaustivamente o processo de envelhecimento abordando-o nas suas  múltiplas vertentes – histórica, biológica, literária, filosófica – e  concluiu que a sociedade não reconhece nos velhos as características definidoras da humanidade.[3] Mais perto de nós, Martha Nussbaum insurge-se contra a visão beauvoiriana acusando-a de ter transformado os velhos em indivíduos desprovidos de capacidades.[4]

Desde a eclosão da covid-19 a infantilização da velhice é uma constante. A preocupação com esta faixa etária justifica-se pelos riscos particulares que acarreta. O que não implica que se retire aos idosos a capacidade de pensar por si mesmos. As primeiras medidas de confinamento propunham que eles ficassem em casa até que fosse descoberta uma vacina. Esta reclusão de muitos meses (possivelmente dois ou mais anos) foi anunciada sem problema, como medida benéfica para esta maioria da população portuguesa. Os velhos, eufemisticamente designados por idosos, transformaram-se subitamente em crianças pequenas. As relações familiares inverteram-se e o quotidiano de pais e de avós passou a ser gerido por filhos e netos que, com a melhor das intenções, procuram retê-los em casa. Resta-lhes a consolação de constatar que o Conselho de Estado, um órgão consultivo a que o Presidente da República recorre em situações de importância relevante, é constituído quase exclusivamente por anciãos – dois com perto de cem anos; cinco na casa dos oitenta; cinco septuagenários; seis com mais de sessenta; dois cinquentenários e um “miúdo” de quarenta e sete anos.

 

[1] Sobre este tema veja-se o artigo de Juan Ambrosio “A propósito de uma expressão”, Mensageiro de Santo António, XXXVI, 5, Maio 2020, pgs. 10-11.[2] Gilles Deleuze, O que é a Filosofia?, Lisboa, Presença, 1992, p. 9.
[3] Simone de Beauvoir, La Vieillesse, Paris, Gallimard, 1970.
[4] Martha Nussbaum e Saul Levmore, Aging Thoughtfully. Conversations about Retirement, Romance, Wrinkles and Regret, Oxford University Press, 2017.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora Catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa. 

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