A crise do capital, uma doença demolidora

| 19 Ago 19

A palavra mais repetida e apregoada nos últimos tempos, pelos comentadores de serviço, continua a ser a indefinida “crise”, vocábulo tão genérico e subjetivo que facilmente pode ser manipulável, segundo a grelha de leitura de cada olhar. Não se conhecendo os seus contornos específicos, tanto pode servir para explicar a realidade envolvente, como pouco ou nada acrescentar, à complexa análise dos fenómenos sociais e políticos.

A derrota da direita nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, com o PSD a ter a pior percentagem da sua história eleitoral e o CDS já a competir por baixo com o PAN, aponta para um possível processo de decomposição em curso, em direção a uma profunda crise desse sector político. Por várias razões, os números têm mostrado que a direita em Portugal tem vindo a perder votos já desde há alguns anos. Foi com este pano de fundo que voltou a saltar para a ribalta a palavra crise, colada à direita, pela voz do Presidente/comentador, Marcelo Rebelo de Sousa: segundo ele, “há uma forte possibilidade de haver uma crise na direita portuguesa nos próximos anos”.

A frase do Presidente, como uma pedrada no charco, logo alvoroçou a direita portuguesa. Discordando desta análise de Marcelo e imediatamente chutando para canto, Rui Rio, líder do PSD, veio a terreno contrapor tal leitura. Segundo ele, não é a direita que se encontra numa situação de crise, mas o regime. Como quem diz, não é ao meu partido que assenta a carapuça, Senhor Presidente. A crise, segundo Rio, não se cola tanto à direita, mas atinge sobretudo o próprio regime político português.

Seja como for, tenho para mim que o problema pode ser mais largo e profundo. Prefiro centrá-lo mais na longa e constante crise da doença destruidora do capitalismo mundial, nas suas mais diversas formas. Um sistema que, verdadeiramente, se encontra doente e não funciona em benefício da maioria da população. Um pequeno núcleo de capitalistas, aproveitando-se da globalização da economia e das finanças, enriqueceu de tal modo que a maior parte da humanidade vive dos restos que vão sobrando das suas lautas mesas douradas. Sendo assim, poderemos concluir que será sobretudo o sistema capitalista que se encontra doente.

Mas devo acrescentar que o capitalismo é o pior dos sistemas, exceto todos os outros. Todas as outras alternativas, tentadas ao longo da história, foram fracassando, gerando pobreza, fome, repressão guerra e morte.

Uma das causas do mal-estar nas sociedades capitalistas ocidentais foi sobretudo a progressiva destruição de uma classe média forte, base indispensável para uma democracia saudável e estável. A estagnação ou diminuição dos salários e dos rendimentos deste sector social acabaram por produzir uma sociedade desigual que gerou grande descontentamento. Daqui decorre que algumas forças políticas mais radicais europeias tenham obtido tão elevado número de votos com os seus programas nacionalistas e xenófobos. Se no nosso país ainda tal não aconteceu, não podemos baixar as armas. A nossa direita, ainda muito repartida, pode medrar se não se concretizarem políticas que apoiem os descontentes do sistema.

A situação em que se encontra a nossa sociedade é deveras preocupante e encerra os germes de uma certa revolta popular. Certamente, não será o nacionalismo ou a xenofobia ou outros problemas europeus, mas a corrupção a medrar todos os dias. Hora a hora, é mais um escândalo com “teias” a acrescentar a outras. São as desigualdades gritantes entre os muito ricos e o volumoso contingente de crianças pobres. São os estados periclitantes da Saúde e da Justiça a terem dificuldade em responder a tempo e com qualidade às necessidades dos cidadãos. Junte-se ainda a necessária reforma do nosso sistema eleitoral, para aproximar eleitos e eleitores e o combate às alterações climáticas.

Não se poderão resolver, a todo o vapor, todos os problemas de uma sociedade atrasada e débil, como é a nossa. Mas, quanto a nós, o que os cidadãos mais clamam é que, nas grandes questões que atravessam a nossa sociedade, os principais partidos políticos se unam e decidam com fundamento o que julgam ser mais vantajoso e urgente. O eterno passa-culpas dos políticos não tem ajudado, infelizmente, a resolver muitos dos eternos problemas com que nos vamos debatendo todos os dias. Os ataques pessoais entre políticos, na campanha para as eleições para o Parlamento Europeu, foi um exemplo pouco edificante e não augura nada de positivo.

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário; florentinobeirao@hotmail.com

Artigos relacionados

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Os donativos entregues por 136 leitores e amigos somaram, até terça, 30 de junho, €12.020,00. Estes números mostram uma grande adesão ao apelo que lançámos a 7 de junho, com o objetivo de reunirmos €15.000 para expandir o 7MARGENS ao longo do segundo semestre de 2020. A campanha decorre até ao final de julho e já só faltam menos de €3.000! Contamos consigo para a divulgar.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

CE volta a ter enviado especial para promover liberdade religiosa no mundo novidade

O cargo de enviado especial para a defesa da liberdade religiosa tinha sido extinto no ano passado pela presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, mas as pressões de inúmeros líderes religiosos e políticos para reverter essa decisão parecem ter surtido efeito. O vice-presidente da CE, Margaritis Schinas, anunciou que a função irá ser recuperada.

Papa assinala sete anos da viagem a Lampedusa com missa especial online

O Papa Francisco celebra esta quarta-feira, 8 de julho, o sétimo aniversário daquela que foi a primeira (e talvez mais icónica) viagem do seu pontificado: a visita à ilha de Lampedusa. A data é assinalada com uma eucaristia presidida por Francisco na Casa Santa Marta, a qual terá início às 10 horas de Lisboa, e será transmitida online através dos meios de comunicação do Vaticano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo novidade

O hospital pediátrico Bambino Gesú, em Roma, gerido pelo Vaticano, separou com êxito duas irmãs siamesas de 2 anos, que nasceram unidas pelo crâneo na República Centro Africana. A complexa operação, que durou 18 horas e contou com uma equipa de 30 profissionais de saúde, teve lugar no passado dia 5 de junho, mas o hospital só revelou todos os detalhes esta quarta-feira, 8 de julho, numa conferência de imprensa.

É notícia

Entre margens

Do confinamento às Minas novidade

Vestígios dos trilhos usados para o contrabando abundante nesta zona da raia. Algum complemento a um salário magro. Histórias de perigos, ousadia, dignidade, persistência e superação. Na aldeia de Santana das Cambas existe um Museu do Contrabando que soubemos estar encerrado.   
Curvo-me perante uma realidade que desconhecia, apenas intuía… Ao olhar para os mineiros envelhecidos e suas famílias passei a vê-los como heróis, príncipes daquela terra, figuras exemplares de cidadania e coragem.

A favor do argumento ontológico novidade

A realidade é um extraordinário abismo de Ilimitado em todas as direções e dimensões. É isto o Absoluto. Não tendo na sua constituição nenhuma descontinuidade, nenhum vazio absoluto (pois nele o nada absoluto [ou Nada] não pode simplesmente ter lugar), o Absoluto é plenitude de Ser. A isto se chega pela simples consideração de que o Nada, precisamente por ser Nada, não existe nem pode existir, pelo que sobra “apenas” aquilo que existe de facto, que é Tudo.

Memórias do Levante

À ideia da raça superior sucedeu a ideia da cultura superior, quase tão maléfica como aquela. E escravizar os seres humanos “inferiores” deu lugar a desvalorizar ou mesmo destruir as culturas “inferiores”. O resultado é que, se ninguém ganhou com isso, a verdade é que a humanidade perdeu e muito

Cultura e artes

Aquilino e Bartolomeu dos Mártires: o “pai dos pobres e mártir sem desejos” novidade

Aquilino Ribeiro, escritor de prosa escorreita, pujante, honrou a dignidade da língua portuguesa à altura de outros antigos prosadores de grande qualidade. Irmanado com a Natureza beirã: aves, árvores, animais e homens. Espirituoso e de fina ironia, é bem o Mestre da nossa Língua. Em “Dom Frei Bertolameu” faz uma espécie de hagiografia do arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), canonizado pelo Papa Francisco a 6 de Julho de 2019.

Ennio Morricone: O compositor que nos ensinou a “sonhar, emocionar e reflectir”

Na sequência de uma queda em casa, que lhe provocou a ruptura do fémur, o maestro e compositor italiano Ennio Morricone morreu esta segunda-feira em Roma, na unidade de saúde onde estava hospitalizado. Tinha 91 anos. O primeiro-ministro, Giuseppe Conte, evocou com “infinito reconhecimento” o “génio artístico” do compositor, que fez o público “sonhar, emocionar, refletir, escrevendo acordes memoráveis que permanecerão indeléveis na história da música e do cinema”.

Teologia bela, à escuta do Humano

Pensar a fé, a vivência e o exercício do espírito evangélico nos dias comuns, é a tarefa da teologia, mais do que enunciar e provar fórmulas doutrinárias. Tal exercício pede atenção, humildade e escuta dos rumores divinos na vida humana, no que de mais belo e também de mais dramático acontece na comunidade dos crentes e de toda a humanidade.

Sete Partidas

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo branco, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco