A crise do capital, uma doença demolidora
A palavra mais repetida e apregoada nos últimos tempos, pelos comentadores de serviço, continua a ser a indefinida “crise”, vocábulo tão genérico e subjetivo que facilmente pode ser manipulável, segundo a grelha de leitura de cada olhar. Não se conhecendo os seus contornos específicos, tanto pode servir para explicar a realidade envolvente, como pouco ou nada acrescentar, à complexa análise dos fenómenos sociais e políticos.
A derrota da direita nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, com o PSD a ter a pior percentagem da sua história eleitoral e o CDS já a competir por baixo com o PAN, aponta para um possível processo de decomposição em curso, em direção a uma profunda crise desse sector político. Por várias razões, os números têm mostrado que a direita em Portugal tem vindo a perder votos já desde há alguns anos. Foi com este pano de fundo que voltou a saltar para a ribalta a palavra crise, colada à direita, pela voz do Presidente/comentador, Marcelo Rebelo de Sousa: segundo ele, “há uma forte possibilidade de haver uma crise na direita portuguesa nos próximos anos”.
A frase do Presidente, como uma pedrada no charco, logo alvoroçou a direita portuguesa. Discordando desta análise de Marcelo e imediatamente chutando para canto, Rui Rio, líder do PSD, veio a terreno contrapor tal leitura. Segundo ele, não é a direita que se encontra numa situação de crise, mas o regime. Como quem diz, não é ao meu partido que assenta a carapuça, Senhor Presidente. A crise, segundo Rio, não se cola tanto à direita, mas atinge sobretudo o próprio regime político português.
Seja como for, tenho para mim que o problema pode ser mais largo e profundo. Prefiro centrá-lo mais na longa e constante crise da doença destruidora do capitalismo mundial, nas suas mais diversas formas. Um sistema que, verdadeiramente, se encontra doente e não funciona em benefício da maioria da população. Um pequeno núcleo de capitalistas, aproveitando-se da globalização da economia e das finanças, enriqueceu de tal modo que a maior parte da humanidade vive dos restos que vão sobrando das suas lautas mesas douradas. Sendo assim, poderemos concluir que será sobretudo o sistema capitalista que se encontra doente.
Mas devo acrescentar que o capitalismo é o pior dos sistemas, exceto todos os outros. Todas as outras alternativas, tentadas ao longo da história, foram fracassando, gerando pobreza, fome, repressão guerra e morte.
Uma das causas do mal-estar nas sociedades capitalistas ocidentais foi sobretudo a progressiva destruição de uma classe média forte, base indispensável para uma democracia saudável e estável. A estagnação ou diminuição dos salários e dos rendimentos deste sector social acabaram por produzir uma sociedade desigual que gerou grande descontentamento. Daqui decorre que algumas forças políticas mais radicais europeias tenham obtido tão elevado número de votos com os seus programas nacionalistas e xenófobos. Se no nosso país ainda tal não aconteceu, não podemos baixar as armas. A nossa direita, ainda muito repartida, pode medrar se não se concretizarem políticas que apoiem os descontentes do sistema.
A situação em que se encontra a nossa sociedade é deveras preocupante e encerra os germes de uma certa revolta popular. Certamente, não será o nacionalismo ou a xenofobia ou outros problemas europeus, mas a corrupção a medrar todos os dias. Hora a hora, é mais um escândalo com “teias” a acrescentar a outras. São as desigualdades gritantes entre os muito ricos e o volumoso contingente de crianças pobres. São os estados periclitantes da Saúde e da Justiça a terem dificuldade em responder a tempo e com qualidade às necessidades dos cidadãos. Junte-se ainda a necessária reforma do nosso sistema eleitoral, para aproximar eleitos e eleitores e o combate às alterações climáticas.
Não se poderão resolver, a todo o vapor, todos os problemas de uma sociedade atrasada e débil, como é a nossa. Mas, quanto a nós, o que os cidadãos mais clamam é que, nas grandes questões que atravessam a nossa sociedade, os principais partidos políticos se unam e decidam com fundamento o que julgam ser mais vantajoso e urgente. O eterno passa-culpas dos políticos não tem ajudado, infelizmente, a resolver muitos dos eternos problemas com que nos vamos debatendo todos os dias. Os ataques pessoais entre políticos, na campanha para as eleições para o Parlamento Europeu, foi um exemplo pouco edificante e não augura nada de positivo.
Florentino Beirão é professor do ensino secundário; florentinobeirao@hotmail.com
[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]










