A cultura do “cancelamento” faz assim tanto sentido?

| 19 Set 2022

Alunos da Escola Eça de Queirós (Lisboa) depois de taparem inscrições racistas que apareceram na escola, em 2020: “A cultura do cancelamento está relacionada com a cultura woke, que reclama o contínuo despertar e consciência das questões relativas à justiça social, racial e de género.” Foto Agrupamento de Escolas Eça de Queirós.

 

Começo por responder que creio que não, sem receio de ser “cancelada” pelas minhas opiniões. O resto deste artigo explicará a minha defesa da extinção da cultura do “cancelamento” (embora talvez seja uma utopia) ou de, pelo menos, lhe colocar um travão nesta sociedade tão mediática. Eleita como a expressão do ano ainda em 2019, a cultura do “cancelamento” é um fenómeno moderno segundo o qual uma pessoa ou um grupo é expulso de uma posição de influência ou de fama devido a atitudes consideradas questionáveis. Isto pode acontecer online, no mundo real ou em ambos. A cultura do cancelamento está relacionada com a cultura woke, que reclama o contínuo despertar, perceção e consciência das questões relativas à justiça social, racial e de género. Isto não é mau, não fora os extremismos causados por adeptos mais rigorosos. Por exemplo, faz sentido criticar uma caucasiana por trançar o cabelo porque está a fazer uma apropriação cultural? Deixo a resposta para os meus estimados leitores.

Eu tenho as minhas sérias dúvidas de que a cultura do cancelamento seja um fenómeno moderno: na Bíblia, e até empiricamente, vemos que desde o início da história humana, há uma tendência inata para odiar e rejeitar quem pensa diferente. No livro de Génesis, logo no quarto capítulo, vemos que a história de Caim e Abel (filhos de Adão e Eva) geram um crescimento do ódio de forma exponencial. “Lameque disse um dia às suas mulheres: «Ada e Sila, ouçam-me bem; ó mulheres de Lameque, prestem atenção ao que vou dizer. Estou pronto a matar um homem, por uma ferida que me faça ou um jovem, por uma simples beliscadura.” Parece exagerado, mas é o relato de Génesis 4:23 para exemplificar bem que o fenómeno do ódio e da rejeição não é exclusivamente moderno.

Qual é o problema com a cultura do cancelamento? O problema é que ela nos deixa equivocados em relação aos nossos próprios comportamentos porque nos faz esquecer que também erramos, esgota as possibilidades do perdão de quem erra e ainda impede de resgatar, reconciliar e restaurar quem deseja ser resgatado. Não creio que a ordem e a justiça social possam ser repostas se estivermos sempre a afastar quem necessita de ser resgatado. É claro que existem assuntos e problemáticas que precisam de ser tratadas junto das autoridades que lhes competem – no contexto policial, judicial ou ainda no contexto religioso. Mas precisamos de, ao invés de afastar, reconhecer, corrigir e congregar para novas oportunidades. Ninguém é tão perfeito que não possa errar, e na minha sincera opinião, ninguém é tão censurável que não possa ter uma segunda oportunidade.

É isto que aprendemos com Jesus, o qual muitos chamam de Mestre dos mestres, e que eu também acredito que seja. “Felizes os que promovem a paz, porque Deus os chamará seus filhos!” ou “Ouviram o que foi dito: Amarás o teu próximo e desprezarás o teu inimigo. Mas eu digo-vos: Tenham amor aos vossos inimigos e peçam a Deus por aqueles que vos perseguem.” Estas são apenas duas das citações de Jesus, aqui no conhecido Sermão do Monte (no evangelho segundo Mateus), das muitas que ele proferiu sobre a paz e o amor. Envolvidos pelo conteúdo que nos chega pelos média e pelas redes sociais podemos começar a rejeitar o outro, a ignorar o que já foi feito porque não queremos estar associados, ou ainda a julgar ou incriminar com base na opinião falsa de outrem. Não estamos isentos de beber desta cultura e começar a destilar o seu ódio a quem está longe, mas também a quem está próximo.

Termino com um brevíssimo apontamento sobre o sétimo ano, o ano de pausa, de Israel – e também o seu ano do Jubileu. A cada sete anos e com especial ênfase aos 50 anos, o povo de Israel parava para descanso da terra, mas também libertava os escravos e restaurava as terras aos seus proprietários originais (que as tinham perdido pelas suas dívidas). Ao instituir esta lei, Deus estava a garantir que ninguém, nem mesmo um rei futuro, poderia condenar, nem subjugar alguém para sempre. Ele é um Soberano de perdão, e pede-nos que na nossa indigente condição humana estejamos dispostos a receber e ofertar perdão.

 

Débora Hossi é gestora de redes sociais; integra a Missão Evangélica Intercultural e considera-se peregrina e apaixonada por Jesus e pelos seus ensinamentos. Contacto: deborahossi@gmail.com

 

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