A Cultura, parente pobre com uma fortuna debaixo do colchão

| 16 Mar 2024

“Em Portugal, salvo honrosas exceções, a educação artística – aulas de música, de teatro, de dança ou pintura – com um nível técnico apropriado, sublinhe-se, é algo praticamente inexistente na maior parte das escolas e liceus.” Foto © Pixabay / Pexels

 

 

Em tempo de eleições, as críticas e as queixas proliferam. Mas será que poderíamos repensar como desvalorizamos a Cultura e as Artes? Um olhar mais profundo para algumas grandes economias poderá surpreender.

Há alguns anos fui convidada para estar presente num congresso onde se encontravam representantes de diversas entidades e diversos políticos que ocupam, ocuparam ou iriam ocupar lugares de relevo nas tomadas de decisão no país.

Após diversas intervenções, quase todas elas direcionadas para os assuntos da economia, levantei o braço e perguntei: e a Cultura? Não valerá a pena investir no desenvolvimento cultural? Embora com simpatia e educação, a perplexidade da face de quem me respondeu era evidente e o seu alheamento do tema, óbvio. Por que razão estaria eu a trazer um tema de somenos importância, uma matéria menor, para uma conferência onde se abordavam os altos desígnios de uma sociedade?

A grande ironia, prende-se com um fator que fica esquecido, ou por verificar: é que as Artes são um propulsor da criatividade e a criatividade é condição para a inovação. A inovação, como se repete à exaustão, é um dos vetores mais necessários a uma economia que se quer pujante. E falando em economia pujante, se olharmos para, pelo menos, duas delas – a dos EUA e do Reino Unido – poderemos concluir que estas são sociedades em que a aposta nas Artes é forte. Tão forte, que a produção artística contribui com impacto para os seus PIB nacionais. Uma rápida pesquisa no Google oferece-nos os seguintes dados:

Nos EUA, de acordo com o U.S. Bureau of Economic Analysis e o National Endowment for the Arts (1), as Artes representaram, em 2021, 4,4% do PIB, com um contributo a rondar um trilião de dólares ( $1.0 trillion citando o original) e deu emprego a 4,9 milhões de pessoas.

No Reino Unido, de acordo com o Arts Council (2), a indústria das Artes e da Cultura contribui com 10 milhares de milhões de libras (£10.8 billion no original) a cada ano, para a economia e gera 363 700 empregos.

Já nem falo em todas as outras vertentes riquíssimas que as Artes nos trazem e que um estudo da Mckinsey (3) se dedicou a enumerar (desenvolvimento cognitivo, bem-estar, socialização, etc.).

Mas a reação que obtive na dita conferência é comum a uma grande fatia dos nossos dirigentes, seja em que quadrante for. E será, de certo modo, natural. Em Portugal, salvo honrosas exceções, a educação artística – aulas de música, de teatro, de dança ou pintura – com um nível técnico apropriado, sublinhe-se, é algo praticamente inexistente na maior parte das escolas e liceus. Só posso saber o valor de algo, quando o pude experimentar, e a verdade é que estas mesmas pessoas tiveram pouco ou nenhum acesso a educação artística que lhes permita valorizar um concerto de música, um espetáculo de dança ou teatro ou, sequer, visitar um museu. As Artes e a Cultura ficam, assim, relegadas para «terceiro» plano, ficando, infelizmente, aquém do seu imenso e multifacetado potencial.

Fazem lembrar aquelas histórias sobre o parente pobre que, após a sua morte se vem a descobrir que guardava uma fortuna por baixo do colchão. Ou uma narrativa do budismo que relata como um homem viveu uma vida inteira a queixar-se da dificuldade da sua vida, sem se aperceber que vivia sentado por cima de um manto de joias. É preciso desafiarmo-nos a olhar para o nosso interior e aí, então, sim, descobrir as nossa riqueza e querer desenvolvê-la. Para o nosso bem e, inevitavelmente, para o bem de todos.

 

(1) https://www.arts.gov/news/press-releases/2023/new-data-show-economic-activity-us-arts-cultural-sector-2021
(2) https://www.artscouncil.org.uk/research-and-data/contribution-arts-and-culture-industry-uk-economy
(3) https://www.mckinsey.com/uk/our-insights/assessing-the-direct-impact-of-the-uk-arts-sector

 

Margarida Rocha e Melo é jornalista agora dedicada ao ensino; budista, mantém o respeito pela sua herança cristã, esperando poder contribuir para o encontro de religiões, de mentes e de seres humanos.

 

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