Com a escolha de João Lavrador para a sede vacante de Viana fica agora Angra sem bispo. Mas Braga já está à espera de sucessor há dois anos, enquanto em Leiria se perspectiva a sucessão talvez até final do ano. Há bispos que querem sair de onde estão, outros não querem que alguns vão para determinados sítios. “Com todas estas movimentações, é difícil acreditar que a nomeação de um bispo seja obra do Espírito Santo”, diz um padre.

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João Lavrador, nomeado bispo de Viana do Castelo nesta terça, 21. Foto © Agência Ecclesia

 

O até agora bispo de Angra (Açores), João Lavrador, foi nomeado nesta terça-feira, 21, como novo responsável da diocese de Viana do Castelo, vacante desde há um ano, quando o seu titular, Anacleto Oliveira, morreu num acidente de automóvel provocado pelo mau tempo. João Lavrador, que antes tinha sido bispo auxiliar do Porto, regressa deste modo ao continente, de onde nunca desejou sair, tendo manifestado publicamente nos últimos meses, em diversas ocasiões, o seu desejo de deixar o arquipélago. Esta nomeação acrescenta mais uma peça ao castelo de cartas que será necessário preencher em várias dioceses e cuja resolução não tem sido fácil.

Na sua primeira saudação à diocese, João Lavrador diz ter recebido a notícia com “surpresa”, embora o seu nome fosse um dos que circulava, um elemento reforçado pela vontade do próprio em regressar ao continente, tal como o 7MARGENS noticiou em Julho.

 

Aliás, uma das perguntas que agora várias pessoas se fazem é: “Se era para ser esta a nomeação, porque não foi feita mais cedo?” Conhecida a vontade do próprio e estando a diocese sem bispo por uma razão trágica, a decisão poderia ter sido tomada há mais tempo, dizem membros do clero vianense. Mas, num processo que continua a ser secreto e decidido apenas por muito poucas pessoas, é difícil contornar obstáculos que se desconhecem.

“Quero aprender com todos para me sentir integrado na riqueza cultural, na profunda fé vivida e partilhada, numa sociedade mais justa e fraterna e, na alegria do Evangelho, projectarmos em conjunto um futuro de esperança”, diz a mensagem do novo bispo de Viana, publicada na página da diocese no Facebook (o site está em remodelação) e resumida pela agência Ecclesia.

Nas suas saudações, o bispo refere “todo o povo de Deus”, o clero, seminaristas, religiosos, responsáveis de instituições e movimentos católicos, os membros de outras confissões religiosas, as autoridades de diferentes sectores e os que trabalham nos media. No final, acrescenta: “É com muito afecto que saúdo todos os excluídos, marginalizados, isolados e que sofrem qualquer tipo de pobreza e perturbação. Creiam-me muito junto de todos vós para convosco partilhar das vossas vidas e preocupações e ajudar-vos na vossa promoção e dignidade.”

 

Uma vaga no meio do Atlântico
Igreja do senhor Santo Cristo, Ponta Delgada (Ilha de São Miguel, Açores). © Miguel Veiga

Igreja do Senhor Santo Cristo, Ponta Delgada (Ilha de São Miguel, Açores): agora é a diocese insular que fica à espera. Foto © Miguel Veiga.

 

A nomeação de João Lavrador resolve um problema – o da diocese de Viana – mas cria outro: o de encontrar, agora, um novo bispo para a diocese atlântica. Vários responsáveis da Igreja açorianos contactados pelo 7MARGENS são unânimes em afirmar algumas constantes: não importa se o novo bispo é ou não açoriano; o que é preciso é alguém “próximo” das pessoas, resumia um, capaz de empatia com o clero e as suas equipas de trabalho – o que, consideram, terá sido uma falha na acção do agora bispo eleito de Viana.

O facto de João Lavrador ter manifestado a sua contrariedade em ir para os Açores não terá ajudado a criar essa empatia nem com o clero, nem com o povo, dizem agora várias fontes contactadas na diocese insular. O que teve um efeito de ricochete: “Fez com que ele não se sentisse muito à vontade”, diz um padre. E, apesar do seu empenho e persistência, “o clero nunca esteve muito contente com ele”, acrescenta.

Uma das pessoas ouvidas coloca mesmo um marco temporal nesse relativo afastamento: quando o Papa Francisco publicou a Amoris Laetitia, o documento em que abre as portas ao acolhimento e à comunhão de divorciados que tenham voltado a casar, João Lavrador disse numa reunião pública que todos esses casos teriam de ser resolvidos pelo bispo; tal como aconteceria com catequistas ou outros responsáveis que estivessem também na situação de se ter separado e voltado a casar.

Nem na hora da despedida as coisas correram muito bem, recorda outra fonte: a mensagem do bispo eleito de Viana à sua nova diocese foi publicada e divulgada às 11h (12h em Roma, onde a notícia é sempre dada ao mesmo tempo). Mas a mensagem a despedir-se e agradecer aos católicos de Angra só foi publicada a meio da tarde – a Ecclesia divulgou-a às 16h42 de terça-feira.

Agora, várias pessoas sublinham que não será problema se o novo bispo for do continente para Angra. “Há a ideia de Angra como parente pobre das dioceses portuguesas, de que se manda para cá quem não se quer no continente.” Mas há vozes que defendem que, há vários padres dos Açores com capacidades e competências para exercer o cargo. Uma das pessoas acrescenta um dado em abono da sua tese: Angra é a diocese, atrás de Braga, com mais padres a estudar em Roma desde há muitos anos. Se é certo que Lisboa e Porto também enviam clérigos seus para Paris ou Salamanca, por exemplo, aquela quantidade tem significado, defende.

 

Braga à espera, Leiria nem tanto… mas com conflitos
António Marto, bispo de Leiria-Fátima

Cardeal António Marto, bispo de Leiria-Fátima: o sucessor pode estar para breve, mas o actual titular do cargo não desejará que seja o bispo de Coimbra. Foto © António Marujo.

 

Com o problema de Viana resolvido, a diocese vizinha ainda terá de esperar: Braga está a aguardar há mais de dois anos que seja escolhido o sucessor do actual arcebispo, Jorge Ortiga, que pediu em 2019 para sair, ao atingir os 75 anos, conforme estipula o Código de Direito Canónico.

“Esta é uma situação que se eterniza e coloca várias dioceses em suspenso”, diz um padre do Norte ao 7MARGENS. Aveiro (cujo bispo, António Moiteiro, esteve já na lista de três nomes “candidatos” a Braga), Bragança (José Cordeiro) e Coimbra (Virgílio Antunes) são as que mais têm estado no centro do furacão. Em Junho, eram esses três os bispos que fechavam a “terna” remetida para Roma, embora outros bispos (como o de Lamego, António Couto) tenham também circulado como hipóteses nos corredores eclesiásticos.

“Com todas estas movimentações, é difícil acreditar que a nomeação de um bispo seja obra do Espírito Santo”, desabafa um outro clérigo nortenho, referindo-se a essa afirmação clássica.

O 7MARGENS noticiou em Julho, a partir de informações recolhidas junto de fontes eclesiásticas, que a escolha do bispo Virgílio Antunes, de Coimbra, estaria praticamente decidida.

Afinal, essa nomeação não aconteceu e as várias fontes contactadas garantem que o processo voltou à casa de partida: o bispo de Coimbra terá dito que não à ideia de mudar para Braga, asseguram alguns. O seu desejo, para mudar, seria Leiria, a diocese de origem, asseguram; e aí seria bem acolhido por uma parte do clero.

Outros no entanto, teriam a atitude oposta, garantem-nos, também: para esses padres, está em causa o facto de, como se acredita em Leiria, Virgílio Antunes ter apoiado as críticas à gestão do Santuário de Fátima, surgidas no ano passado.

 

A história teve mesmo um episódio delicado: a dada altura numa reunião do conselho permanente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), o reitor do santuário, padre Carlos Cabecinhas, foi chamado a responder às dúvidas dos bispos. Durante toda a reunião, o bispo de Coimbra e vice-presidente da CEP foi o único a não fazer qualquer pergunta, o que terá deixado incomodados vários dos restantes bispos. Mas, depois de o reitor ter saído, Virgílio Antunes terá dito que aquela era uma versão dos factos e que ele apresentaria outra.

O bispo de Leiria-Fátima, cardeal António Marto, terá então reagido fortemente, de acordo com um dos participantes na reunião. E vários dos participantes, entre os quais José Ornelas (bispo de Setúbal e presidente da CEP) e José Cordeiro (Bragança), manifestavam o seu profundo mal-estar em relação ao sucedido e ao papel do bispo de Coimbra.

Essas são as razões para que o cardeal Marto, que já disse publicamente várias vezes (incluindo na reunião do conselho presbiteral da diocese) que quer deixar o cargo antes de completar os 75 anos, não aceite a possibilidade de Virgílio Antunes lhe suceder. O processo para a escolha do novo bispo de Leiria está já muito adiantado, como diz uma das pessoas conhecedoras do processo. E o novo bispo de Leiria-Fátima pode ser conhecido até final do ano – já há nomes a circular na diocese. Como se trata de substituir um cardeal, o próprio terá seguramente uma palavra decisiva a dizer – e o Papa não quererá deixar de acompanhar mais intensamente o processo.

Braga ou Leiria podem ser, assim, hipóteses para o actual bispo de Bragança, José Cordeiro, que já terá dado a entender várias vezes a pessoas próximas que ficaria satisfeito se mudasse para outra diocese. E, daqui a dois anos, o patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, atingirá também os 75 anos. Nas jogadas que agora se jogam, o xadrez tem de prever já, também, essa futura movimentação. Mas, para aí, uma personalidade está a emergir: a do actual presidente da CEP (que nessa altura estará a terminar este seu mandato) e bispo de Setúbal, José Ornelas.

 

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