Nas lojas, retiraram-se os balões e toda a parafernália de cor encarnada em formato de coração e, seguindo a cadência comercial habitual, já deram lugar a máscaras, chapéus de bruxa e toda a espécie de adereços carnavalescos que desaparecerão quando vierem gravatas, canetas e canecas, e outros objetos muito, ou pouco, originais para o Dia do Pai, que no calendário vem logo a seguir. Já lá vai o São Valentim, que todos os anos aparece, e desaparece, trazendo e levando consigo esta espécie de obrigação: um dia marcado para demonstrar como anda a nossa performance amorosa. Mas, o que será, afinal, o amor?
A essência do amor é um mistério. Desde sempre que filósofos e poetas têm tentado explicar o que significa amar e ser amado. O amor transcende fronteiras, culturas e idiomas, une pessoas, desafiando a lógica e a razão: o amor move o mundo, dando sentido à vida.
O amor, apesar de único, tem diferentes formas de se manifestar, cada uma com a sua importância e beleza única: o amor romântico, aquele que desperta a paixão e faz o coração bater mais rápido; o amor familiar, que se expressa pela dedicação incondicional entre pais, filhos, irmãos; o amor fraternal, que estabelece laços de amizade e companheirismo; e o amor altruísta, revelado através do cuidado, da compaixão para com o próximo. Independentemente da forma, o amor, quando autêntico, tem por base a entrega, o respeito, a admiração e a empatia.
A literatura e o cinema levaram a uma idealização do amor – o eterno “viveram felizes para sempre”, mas só depois de duras batalhas, lutas familiares, encontros e desencontros, o típico mata e esfola como prova de amor – dando a entender que amar a sério é sermos todos sofredores, qual “Romeu e Julieta”. Errado! O amor não se define por grandes gestos ou declarações apaixonadas, o amor encontra-se nos pequenos detalhes do dia a dia: num olhar carinhoso, num abraço reconfortante, num gesto de ajuda desinteressado. O amor verdadeiro manifesta-se na atenção, na disponibilidade para ouvir, para escutar ativamente e compreender, na paciência para aceitar as imperfeições e as dores de crescimento mútuo.

São Valentim: um dia marcado para demonstrar como anda a nossa performance amorosa? Foto © Celestra
O amor transforma e eleva o ser humano. Quando amamos verdadeiramente, tornamo-nos mais generosos, pacientes e compreensivos. O amor ensina a olhar para além do medíocre horizonte da própria existência e a dar importância e valor à felicidade do outro, desafiando-nos a superar o egoísmo e a cultivar um coração aberto e disposto a acolher.
Amar implica fazer escolhas, algumas delas bastante difíceis. Apesar de ser descrito como espontâneo e incontrolável, na verdade, o amor envolve decisões diárias: respeitar, apoiar e permanecer ao lado daqueles que amamos, mesmo nos momentos difíceis. O amor exige esforço e dedicação, mas, em troca, oferece plenitude e um sentido mais profundo para a vida.
Na espiritualidade, o amor é frequentemente considerado a força suprema do universo. As principais religiões ensinam que amar é a expressão mais elevada da existência humana, um reflexo da própria essência divina. O amor incondicional, que transcende expectativas e julgamentos, é visto como a mais pura manifestação do bem e da verdade.
Em última análise, a essência do amor reside na capacidade que tem de unir, de conectar, de transformar. Alguns chamam “energia” àquele frenesim interior que obriga à mudança e a encontrar beleza na simplicidade dos momentos partilhados. Amar é um ato de coragem e de entrega e é, acima de tudo, a mais sublime experiência humana.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










