A desvairada parvoíce do politicamente correcto

| 11 Out 19 | Entre Margens, Últimas

Já não há pachorra para isto. A ideologia do politicamente correcto tornou-se uma autêntica ditadura que não permite espaço para o humor, nem contextualização histórica, nem sequer uma pitadinha de bom senso. Estamos perante uma espécie de fascismo social e relacional.

 

Fiquei completamente estupefacto com o recente episódio protagonizado por Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá. Alguém desenterrou uma imagem de há dezoito anos, quando participou numa festa temática sobre “As Mil e Uma Noites”, em que os estudantes se caracterizaram e ele foi de Aladino, com o rosto escurecido. Ai, Jesus!, que o homem é um perigoso racista… Mas o mais desconcertante é que Justin, em vez de repudiar tal parvoíce, ainda veio pedir desculpa, justificando-se com as suas origens privilegiadas que não o terão feito entender quão prejudiciais poderiam ser atitudes deste tipo. Ao que obriga a desvairada parvoíce do “politicamente correcto”…

Mas aconteceu caso semelhante em solo europeu, na velha Albion. O futebolista profissional Bernardo Silva, que joga no Manchester City, publicou um tweet bem-disposto, na brincadeira com o seu grande amigo e colega de equipa desde os tempos em que ambos jogavam no Mónaco, o negro Benjamin Mendy, onde o comparava ao boneco dos chocolates Conguito. Foi imediatamente acusado de racismo pelos Torquemada de serviço, isto é, a Associação de Combate ao Racismo “Kick Out”, que veio exigir medidas à federação inglesa, a qual escreveu ao clube a pedir informações. O treinador Pep Guardiola defendeu o jogador referindo que era apenas uma piada entre grandes amigos e que não tinha qualquer conotação racista, adiantando que o Bernardo “é uma das melhores pessoas que [conhecera] na vida”.

Bernardo Silva apagou a publicação de imediato, lamentando já não ser possível “brincar com um amigo” e escreveu à federação enviando um depoimento de Mendy, a testemunhar não ter ficado ofendido, mas, segundo a BBC “é acusado de ter cometido uma violação agravada das regras da FA porque incluía referência à raça e/ou cor e/ou origem étnica”.

Esta moda do politicamente correcto está a inventar problemas onde eles não existem e a revelar um extremismo perturbador que ninguém sabe onde vai parar. A ideia que dá é que estas pessoas que acusam alguém de racista por tudo e por nada, especialmente por nada, como nestes casos, escondem uma tentativa de assumir um poder que não conseguiriam de outro modo. Bem sabemos que as acusações contra famosos rendem na opinião pública e garantem publicidade global, já que as redes sociais e mesmo os jornalistas agarram em todos estes casos e “casinhos”. Mas a esperança que nos resta é que os Torquemadas modernos acabem por descobrir que o ridículo mata.

Ao que parece, acusar de racismo sem provas nem indícios um primeiro-ministro de um país desenvolvido e um futebolista internacional que joga num dos maiores clubes do mundo e no mais importante campeonato a nível global, merece bem o risco do ridículo e chama a atenção para as organizações que inventam estes casos. Na sociedade mediática em que hoje vivemos tudo é permitido em nome de uma causa e o crime compensa.

Só que enquanto estes Torquemadas da treta se vão entretendo com os casos fabricados, esquecem-se de lutar contra o verdadeiro racismo que continua entranhado no tecido social. E esquecem-se que o racismo tem mais do que um sentido. Também há racismo contra o homem branco e racismo entre negros, a que alguns chamam tribalismo, assim como racismo de negros contra mulatos e vice-versa ou contra asiáticos.

O cristianismo primitivo, inspirado por Jesus, levantou uma bandeira contra toda a espécie de racismos ao apresentar-se desde o início como uma proposta de fé universalista: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19); “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15). Já durante o ministério público de Jesus se haviam gerado tensões recorrentes entre o judaísmo da época e a perspectiva universal da mensagem e praxis do Nazareno, que nunca discriminou pessoas tendo em conta a sua origem, sexo, religião ou condição social.

Quer a elite do Tempo de Jerusalém (classe sacerdotal, saduceus, sinédrio), quer o povo (incluindo os fariseus), nunca compreenderam bem a lógica de abertura a todos em que se movia, propondo assim um novo paradigma, caracterizado pela substituição da velha aliança (com o povo de Israel) por uma nova (com toda a humanidade). Quando escreveu às comunidades cristãs da Galácia, S. Paulo retomou a ideia de que a fé cristã é indiferente às barreiras religiosas, sociais e de género: “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

Por tudo isto parece-me urgente descobrir o antídoto para o veneno social do politicamente correcto, essa nova forma de intolerância, para que um dia não sejamos obrigados vir a gritar: “Abaixo a ditadura!”.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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