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Escultura representando Santa beatriz da Silva, junto ao onvento local das monjas Concepcionistas Franciscanas em Viseu. Foto Ecclesia
Escultura representando Santa Beatriz da Silva, junto ao convento das monjas Concepcionistas Franciscanas em Viseu. Foto © Ecclesia

Ano Jubilar Sta. Beatriz da Silva

A devoção a São João Baptista

Até final deste ano, decorre um ano jubilar assinalando o centenário da beatificação e o cinquentenário da canonização de Beatriz da Silva, fundadora da Ordem da Imaculada Conceição. O 7MARGENS tem acompanhado os jubileus que assinalam os 800 anos da morte de Francisco de Assis e o terceiro centenário da canonização e os 100 anos da proclamação de João da Cruz como Doutor da Igreja Católica com textos que ajudam a conhecer e entender melhor essas duas figuras maiores do catolicismo. Também neste caso, a efeméride permite conhecer a pessoa e o pensamento de Beatriz da Silva, uma das principais figuras do misticismo português. O próximo texto, da autoria da irmã Ana Isabel do Coração de Jesus, será publicado dia 28 de julho, aniversário da beatificação.

 

Celebra-se em 2026 o Ano Jubilar de Santa Beatriz da Silva na Ordem da Imaculada Conceição. Este ano comemoramos o centenário da beatificação e o cinquentenário da canonização da nossa amada santa fundadora, e além disso portuguesa. Foi beatificada pelo Papa Pio XI a 28 de Julho de 1926 e o Papa Paulo VI oficializou a sua canonização a 3 de outubro de 1976. Este ano especial tem como lema “Com Beatriz, caminhar na beleza da santidade”. Indica que Santa Beatriz, unida à Imaculada Conceição, estimula-nos a viver na graça de Deus que cuida de nós como filhos muito amados; a ser “construtores” de uma história em que sejamos interdependentes uns dos outros; a estabelecer laços de comunhão e de reconciliação; a reconhecer os nossos muitos talentos para servir a Deus e aos irmãos; a proteger os mais vulneráveis; a integrar a austeridade e a simplicidade; e a contemplar a Criação a partir de Deus como atitude essencial para a edificação de um mundo fraterno.

Ao longo deste Ano Jubilar, as monjas Concepcionistas Franciscanas têm dado a conhecer, de uma forma mais familiar, a espiritualidade e o carisma de Santa Beatriz da Silva, aproximando assim a comunidade eclesial do seu testemunho e missão. A nossa espiritualidade é uma forma singular de vida consagrada por amor ao culto e serviço de Cristo e Sua Mãe Imaculada. Maria é o modelo que nos propomos imitar para nos configurarmos com Jesus, que é a santidade. Santa Beatriz foi uma das pioneiras na devoção à Conceição Imaculada da Virgem Santa Maria, venerada pela pátria portuguesa desde os primórdios do seu nascimento.

Santa_Beatriz_da_Silva Pintura do século XVII impressa numa antiga pagela de oração do início do século XX.

Santa Beatriz da Silva. Pintura do século XVII impressa numa antiga pagela de oração do início do século XX.

Antes de aludirmos a S. João Baptista como “parte” do perfil devocional de Santa Beatriz, destacaremos alguns aspetos biográficos desta grande santa portuguesa. Beatriz nasceu por volta de 1437 na vila alentejana de Campo Maior. Os seus pais eram Rui Gomes da Silva, alcaide-mor de Campo Maior e de Ouguela, e D. Isabel de Meneses, filha de D. Pedro de Meneses, governador da cidade portuguesa de Ceuta, no Norte de África. Era uma das últimas filhas, e entre os seus muitos irmãos conta-se o Beato Amadeu da Silva. Pertencia à linhagem portuguesa Teles de Meneses, que era uma das mais conhecidas naquela época. Em 1447, saiu de Portugal para viver em Castela, na qualidade de donzela de D. Isabel, filha de D. Duarte, que iria contrair núpcias com o rei D. Juan II daquele reino. Quando Beatriz atingiu a idade núbil, tornou-se o centro das atenções devido à sua aparência formosa e à sua personalidade cativante, suscitando disputas violentas entre duques e condes. Por isso, despontou o ciúme e a inveja na esposa do rei D. Juan II, a ponto de a transtornarem e de a motivarem a encerrar Beatriz num cofre durante três dias.

É neste contexto social específico e ambiente de disputa e intriga cortesãs, que conhece experiências de subjugação e violência sobre mulheres em situação matrimonial, e ainda mais por sentir que o seu único Esposo era do Céu e não da terra, Jesus Cristo, que Beatriz decide fazer voto de virgindade e abandonar a corte. Com catorze anos de idade, passa a viver como consagrada no Mosteiro de São Domingos, o Real, em Toledo, com a comunidade de monjas dominicanas, em regime de semirreclusão. Aqui dedica-se à oração, à solidariedade e a ações de mecenato. Rapidamente ganha fama de santidade e é reconhecida como modelo de vida espiritual. Este eco suscita o interesse da rainha D. Isabel, a Católica, que a visita e apoia o seu desejo de criar uma Ordem inteiramente dedicada ao serviço, à contemplação e à celebração do mistério de Maria em sua Conceição Imaculada.

Beatriz idealiza uma nova comunidade monástica tendo por modelo Maria Imaculada, que concebera o Filho de Deus sem o pecado original e que simboliza a mulher plenamente livre e realizada, totalmente disponível à vontade de Deus e ao serviço do seu Reino. Então, planeia a constituição de um mosteiro que fará nascer uma Ordem feminina autónoma nos âmbitos litúrgico, espiritual, organizacional e jurídico, tornando-se pioneira, dado que as fundações monásticas femininas dependiam das regras e ordens masculinas. Com efeito, Beatriz, na transição para a Época Moderna, rompeu com os padrões sociais e mentais ibéricos do seu tempo, construindo um espaço de protagonismo e de liberdade interior femininas.

Santa Beatriz da Silva e as Veneráveis da Ordem da Imaculada Conceição (Monjas Concepcionistas), pintura do século XIX, autor anónimo.

Santa Beatriz da Silva e as Veneráveis da Ordem da Imaculada Conceição (Monjas Concepcionistas). Pintura do século XIX, autor anónimo.

Em 1484, a rainha D. Isabel, a Católica, deu um contributo generoso a esta fundação, concedendo-lhe parte dos edifícios dos Palácios de Galiana e a igreja de Santa Fé, onde Beatriz se instalou com doze companheiras.

A 30 de Abril de 1489, o Papa Inocêncio VIII aprovou a Ordem da Imaculada Conceição sob a Regra de Cister através da Bula Inter universa, de modo a cumprir as normas do IV Concílio de Latrão, que proibira a fundação de novas Ordens sob Regras próprias. Só vinte e dois anos mais tarde, a Ordem conseguiria uma Regra própria, através da Bula Ad statum prosperum, emitida a 17 de Setembro de 1511, pelo Papa Júlio II, reconhecendo assim uma nova identidade carismática, filiada na herança espiritual de S. Francisco de Assis.

Neste dia 24 de Junho, a Igreja Católica celebra a solenidade do Nascimento de S. João Baptista. Uma das biógrafas mais antigas de Santa Beatriz, Irmã Juana de San Miguel, assentou os traços do seu perfil devocional. Entre eles, refere que a santa tecia uma especial relação com S. João Baptista não só espiritualmente, mas também familiarmente e localmente. S. João é venerado como patrono de Campo Maior, fruto de uma tradição muito antiga. Este santo é uma “custódia” do povo perante ameaças externas, como inimigos da pátria, flagelos e epidemias. A sua devoção não se restringe ao âmbito religioso. Também está presente a nível simbólico e institucional, como testemunha a bandeira e emblemas municipais de Campo Maior, destacando-o como figura identitária central na memória coletiva e cultural deste povo.

A devoção a João Baptista era muito conhecida na família de Santa Beatriz, o que a levou a afeiçoar-se a este santo desde a sua infância. Também o seu irmão Amadeu tinha uma profunda estima por ele, já que muitas vezes contava aos seus companheiros a história sobre a origem do Santo Patrono de Campo Maior, e a sua relação com o nascimento de S. João Baptista. O Baptista era a prefiguração do próprio Cristo, e o último dos profetas a anunciar a vinda do Messias. Beatriz, uma portuguesa de elite informada sobre o valor transcendental da linhagem e na exaltação do parentesco real, reconhecia que João partilhava uma relação privilegiada e direta com Jesus, uma relação de estirpe, porque ambos eram descendentes do rei David e foram anunciados por anjos a seus pais. Com efeito, o Baptista era duplamente próximo de Cristo, não só pela carne, mas sobretudo pelo espírito. Santa Beatriz via em S. João um apelo à interioridade, à austeridade de vida, à simplicidade, à penitência, e sobretudo à diminuição pessoal para que Cristo imperasse nela. Portanto, alguns núcleos da tradição monástica que ela procurou assimilar e ser coerente durante a sua peregrinação terrena, deixando a sua marca no carisma concepcionista até aos dias de hoje.

 

Bibliografia

José Eduardo Franco. «Introdução: Ordens e globalização das relações culturais, religiosas e científicas». Em Santa Beatriz da Silva – Uma Estrela para Novos Rumos, 1a edição. Cascais: Princípia Editora, Lda., 2013.

José Félix Duque. Dona Beatriz da Silva. Vida e Obra de Uma Mulher Forte. 1a edição. Maia: Labyrinthus, 2008.

Ricardo Ventura. «A Ordem da Imaculada Conceição em Portugal». Em O Esplendor da Austeridade. Mil Anos de Empreendedorismo das Ordens e Congregações em Portugal: Arte, Cultura e Solidariedade, Imprensa Nacional-Casa da Moeda., 2011.

 

A irmã Ana Isabel do Coração de Jesus reside no Mosteiro de Santa Beatriz da Silva (Viseu), da Ordem da Imaculada Conceição (OIC). 

 

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