A dialéctica do racismo

| 5 Ago 20

A extrema-esquerda diz que a sociedade é racista. A extrema-direita afirma a pés juntos que não há racismo em Portugal. Afinal, o racismo, além de apresentar um histórico de pecado social demasiado longo, agora serve de mote para a luta na arena política.

 

Qualquer pessoa de boa-fé reconhece a existência de um racismo estrutural na sociedade portuguesa. Negá-lo é pretender negar uma evidência. Por que razão um homem branco de 70 anos, se falar com um outro homem branco, de 40 anos, o trata por você, mas se se dirigir a um negro da mesma idade já o trata por tu?

Por que razão não vemos mais deputados não caucasianos na Assembleia da República? Por que razão se ouvem populares a chamar monhé ao primeiro-ministro, em nome da sua cor de pele e origem goesa? Por acaso sabem esses ignorantes que o termo, apesar de utilizado em tom pejorativo, vem do suaíli e significa “dono” ou “senhor”? Muitos não sabem, mas dez por cento da população de Lisboa nos séculos XVI e XVII era africana, o dobro da percentagem actual.

No início do século XX realizaram-se zoos humanos em Portugal e na Europa, onde as potências coloniais exibiam alguns espécimes humanos, incluindo crianças, trazidos propositadamente de diferentes tribos e regiões africanas, com o seu folclore, indumentárias e artesanato, a fim de apresentar ao homem branco um pedaço de exotismo. Mas, pelo menos no caso da Exposição Colonial Portuguesa (Porto, 1934) os indígenas foram explorados, e quando regressaram às suas terras foram alvo de chacota dos conterrâneos por irem de mãos a abanar.

Depois vieram as guerras coloniais e o exacerbar do racismo, pois o exército colonial estava a lutar contra os turras, forma popular de dizer “os pretos”, esquecendo-nos que existiam soldados negros, nativos, integrados nas Forças Armadas, numa altura em que se clamava que África era terra portuguesa, mas quando toda a Europa já se tinha retirado de além-mar e reconhecido o direito à autodeterminação dos povos africanos.

Mais tarde veio o trauma da descolonização e a revolta dos colonos instalados que queriam uma independência branca, ao estilo da Rodésia, em Angola e Moçambique. Afinal tiveram que perder os seus bens imóveis e deixá-los aos angolanos e moçambicanos e sofrer o trauma de ter de recomeçar a vida do zero, numa metrópole em certos aspectos muito mais atrasada do que cidades como Luanda ou Lourenço Marques.

Ultimamente, com a globalização e a imigração brasileira, africana, chinesa e da Europa de Leste o racismo diversificou-se. Mas o fenómeno racista assume muitas expressões, e não se verifica apenas de brancos contra negros, mas entre negros e destes para os brancos e mulatos.

Com bem diz Luísa Semedo: Será assim tão complexo compreender que raças biológicas não existem, que fazemos todas e todos parte da raça humana – ou outras belas frases que se queiram inventar –, mas que as raças existem enquanto construção social e política hierarquizante?E acrescenta, em artigo de opinião no Público: Não existe qualquer problema em falar de cores, tal como não há qualquer problema em dizer que um indivíduo tem os olhos castanhos e outro os olhos azuis, o problema está na construção de hierarquias entre essas cores. Se não se vê a cor, não se vê a hierarquia e não se vê o racismo, e se não se vê o racismo nada é feito para o combater. Negar o racismo é perpetuar o racismo.”

É curioso que a PSP (que conta com uns quantos simpatizantes do Chega) apressou-se a passar a ideia de que o assassínio de Bruno Candé em Moscavide não tinha motivação racista, mas a Polícia Judiciária não exclui a possibilidade, tendo em conta diversos testemunhos de quem conhecia bem o homicida.

Mesmo no campo religioso cristão o racismo esteve muito presente ao longo do séc. XX, no sul dos Estados Unidos e na África do Sul, por exemplo, apesar de constituir um pecado contra Deus e uma afronta ao ensino bíblico da imagem de Deus no ser humano. Hoje já não se diz que o negro e o índio não têm alma, mas há muito boa gente que ainda pensa neles como sendo inferiores aos brancos.

Em finais do séc. XIX o filósofo Arthur de Gobineau (1816-1882) expunha no Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas, uma teoria de supremacia da raça branca, que tem permanecido mais ou menos presente desde então, seja de modo mais explícito, como o arianismo nazi ou mais disfarçado. Ainda agora o senador republicano Tom Cotton, EUA, tido como possível candidato presidencial em 2024, sugere que a escravatura foi “um mal necessário” …

De facto, negar a existência do racismo é contribuir para a sua perpetuação. Há que mudar mentalidades, mas a dialéctica dos extremos políticos não leva a lado nenhum.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

Artigos relacionados

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Peditório digital da Cáritas entre 28 de fevereiro e 7 de março

O peditório nacional da rede Caritas vai pela segunda vez decorrer em formato digital, podendo os donativos ser realizados, durante a próxima semana, de 28 de fevereiro a 7 de março, diretamente no sítio da Cáritas Nacional ou por transferência bancária.

Cardeal Tolentino vence Prémio Universidade de Coimbra

O Prémio Universidade de Coimbra foi atribuído ao cardeal José Tolentino Mendonça, anunciou a instituição nesta quinta-feira, 25. O reitor, Amílcar Falcão, referiu-se ao premiado como “uma figura ímpar, uma pessoa de cultura com uma visão social inclusiva.”

Recolha de bens e fundos para Pemba continua em Braga até 31 de março

O Centro Missionário Arquidiocesano de Braga – CMAB decidiu prolongar até 31 de março a campanha para recolha de bens a enviar para Moçambique, onde serão geridos e distribuídos pela Diocese de Pemba, para apoiar “o meio milhão de pessoas deslocadas que fogem das suas aldeias atacadas por um grupo sem rosto.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

O 7MARGENS em entrevista na Rede Social, da TSF

António Marujo, diretor do 7MARGENS, foi o entrevistado do programa Rede Social, da TSF, que foi para o ar nesta terça-feira, dia 23, conduzido, como habitualmente, pelo jornalista Fernando Alves.

Parlamento palestino vai ter mais dois deputados cristãos

Sete das 132 cadeiras do Conselho Legislativo Palestino (Parlamento) estão reservadas para cidadãos palestinos de fé cristã, determina um decreto presidencial divulgado esta semana. O diploma altera a lei eleitoral recém-aprovada e acrescenta mais dois lugares aos anteriormente reservados a deputados cristãos.

Tribunal timorense inicia julgamento de ex-padre pedófilo

O ex-padre Richard Daschbach, de 84 anos, antigo membro dos missionários da Sociedade do Verbo Divino, começou a ser julgado segunda-feira, 22, em Timor-Leste, acusado de 14 crimes de abuso sexual de adolescentes com menos de 14 anos, de atividades ligadas a pornografia infantil e de violência doméstica.

Prémio para trabalhos académicos sobre templos cristãos

Um prémio no valor de 1.000 euros e uma bolsa de estudo para um estágio de três meses no atelier Meck Architekten (Munique) vai ser atribuído pela Fundação Frate Sole à melhor tese de licenciatura, mestrado ou de doutoramento sobre uma igreja de culto cristão.

Entre margens

Que futuro, Iémen? novidade

O arrastar do conflito tornou insuficiente a negociação apenas entre Hadi e houthis, já que somados não controlam a totalidade do território e é difícil encontrar uma solução que satisfaça todos os atores. Isso será ainda mais difícil porque as alianças não são sólidas, os objetivos são contraditórios e enquanto uns prefeririam terminar a guerra depressa, outros sairiam beneficiados se o conflito continuasse. Além disso, muitos são os que enriquecem à custa dele. Para esses, o melhor é que este não termine.

A sociedade e os idosos

Ao longo do último ano, tempo em que já dura a dolorosa pandemia que nos tem retido confinados, embora pelos piores motivos muito se tem falado dos que vivem em residências para idosos. Antes da covid-19, pelo que nos é dado agora saber, uma boa parte dos cidadãos e dos políticos parece que pouco ou nada sabiam do que se passava nestas instituições, quer nas clandestinas quer nas comparticipadas pelo Estado.

Servir: lavar as mãos, lavar os pés, lavar o coração

Depois de alguma leitura, aquela conversa não me saía da cabeça. Lembrei-me do ritual do “Lava pés”, que teve lugar na última ceia de Jesus Cristo, na qual Ele ensinou-nos, entre outras coisas, a partilhar o pão e o vinho (a comida) e a servir (lavou os pés aos seus discípulos). Lembrei-me também de uma tradição ocidental, segundo a qual quando alguém vai à casa de outrem pela primeira vez, a dona de casa deve servir ao visitante o “primeiro copo”. Por ser de “bom tom”, é cortês. E é, porque abre o à vontade ao visitante.

Cultura e artes

Canções para estes tempos de inquietação 

No ano em que Nick Cave se sentou sozinho ao piano, para nos trazer 22 orações muito pessoais, desde o londrino Alexandra Palace para todo o mundo, numa transmissão em streaming, o australiano dedicou-se também à escrita de 12 litanias a convite do compositor neoclássico belga Nicholas Lens.

Franz Jalics, in memoriam: a herança mais fecunda

Correr-se-ia o risco de passar despercebido o facto de ser perder um dos mais interessantes e significativos mestres da arte da meditação cristã do século XX, de que é sinal, por exemplo, o seu reconhecimento como mestre espiritual (a par de Charles de Foucauld) pela conhecida associação espanhola Amigos del Desierto, fundada por Pablo d’Ors.

A luta de Abel com o Caim dentro dele

Como escrever sobre um filme que nos parece importante, mas nem sequer foi daqueles que mais nos entusiasmou? E, no entanto, parece “obrigatório” escrever sobre ele, o último filme de Abel Ferrara, com o seu alter-ego e crístico Willem Dafoe: Sibéria.

As ignoradas Mães (Madres) do Deserto

As “Mães” do Deserto foram, de par com os Padres do Deserto, mulheres ascetas cristãs que habitavam os desertos da Palestina, Síria e Egito nos primeiros séculos da era cristã (III, IV e V). Viveram como eremitas tal como muitos padres do deserto e algumas formaram pequenas comunidades monásticas.

Sete Partidas

Vacinas: Criticar sem generalizar

Alguns colegas de coro começaram a falar dos espertinhos – como o político que se ofereceu (juntamente com os seus próximos) para tomar as vacinas que se iam estragar, argumentando que assim davam um bom exemplo aos renitentes. Cada pessoa tinha um caso para contar. E eu ouvia, divertida.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This