A difícil arte de amar

| 8 Jan 20

É inegável que cada um de nós sente carência de ser amado de forma inteira e incondicional. Ninguém sobrevive à aterradora sensação de não ter quem o espere quando regressa a casa, console as lágrimas mais sentidas e rejubile consigo nas maiores vitórias.

Foto © Treefort Music Fest/Wikimedia Commons

 

“A medida do amor é amar sem medida”, escrevia Santo Agostinho. Este axioma é citado vezes sem conta em livros, homilias e até em banais publicações de autoajuda, utilizado como descrição do amor de Deus e também como propósito de vida. Séculos mais tarde, Santa Teresa de Lisieux escreveria na História de uma alma: “a minha vocação é o amor, e assim serei tudo.” Perante o desejo que sentia de cumprir todas as vocações existentes para melhor servir Cristo, ela percebeu que todas eram formadas da mesma matéria: o amor.

Na espiritualidade inaciana, é apontado como caminho para alcançar essa plenitude um estado de “indiferença” perante as coisas do mundo, de modo que, livres de “afeições desordenadas”, possamos trilhar o caminho da verdadeira liberdade. O mesmo é dizer que só em pleno estado de liberdade se torna possível amar sem medida e seguir o caminho proposto por Deus.

Contudo, este apelo a uma tal radicalidade de vida suscita em nós fortes resistências. Na sua maioria totalmente legítimas, de acordo com a lógica corrente. Para amar a Deus tem de ser indiferente o meu estado de saúde, emprego, filhos, marido ou o simples prazer de apreciar um bom filme? Não veio Cristo para que tivéssemos vida e vida em abundância? Importa para isso focar a atenção na essência deste ensinamento: indiferença surge, neste conceito, como sinónimo de liberdade. Qualquer relação, para que seja sã, implica que não queiramos moldar o outro à nossa medida. Dessa forma, construiríamos ídolos mais frágeis que o barro, que se desmoronarão no primeiro choque com as diferenças existentes.

É inegável que cada um de nós sente carência de ser amado de forma inteira e incondicional. Ninguém sobrevive à aterradora sensação de não ter quem o espere quando regressa a casa, console as lágrimas mais sentidas e rejubile consigo nas maiores vitórias.

A necessidade humana de amor reveste-se de múltiplas formas, desde o desejo de um amor em plena comunhão de vida, ao amor a um novo ser gerado, à necessidade do fraterno companheirismo de amigos que nos sustentam nas horas de êxito e fracasso, até ao amor pelos valores que escolhemos. Quanto mais vasto se torna um coração na amplitude de relações que o compõem, tanto mais rica se torna cada uma delas na sua singularidade.

As relações formam um todo que se nutre e rejuvenesce pela seiva e frescor que trazem umas às outras, compondo o equilíbrio de vida de cada um. A avareza que sentimos por não ter o exclusivo da atenção de quem está ao nosso lado acabará invariavelmente por se virar contra nós. A beleza de uma vida preenchida, por várias presenças, paixões, ideais é a verdadeira plenitude. Sem inteireza estaremos diante de uma mera sombra de nós mesmos. A entrega sem medida não tem reservas. O que implica integrar a nossa grandeza e abismos em cada respiração.

A nossa natural imperfeição e fragilidade implicam inevitavelmente que a carência nos leve a pisar o espaço de liberdade do outro a dado momento; falhas e tropeços que a compreensão e misericórdia de quem nos ama perdoará e apagará. Nisto está toda a beleza do amor: a conjugação de duas vontades, por vezes antagónicas.

Cada resposta corrosiva, cada impaciência ou reação brusca mais não são do que o grito por colo que damos de forma atrapalhada, porque a manifestação de emoções é vista como uma ameaça a uma ordem instalada em que a contenção e a opacidade se tornaram essenciais para preservar uma zona de conforto. Acudir a um abraço, ouvir com atenção um sofrimento demasiado pesado desinstala-nos. Preferimos apregoar um modelo de força e indiferença (aqui em sentido diverso do anteriormente descrito), a uma cultura de transparência e sensibilidade. A intimidade embaraça, porque nos pomos nus e responsabiliza-nos. Entrar no âmago de outra vida implica pôr de parte os nossos modelos e critérios para aceitar os do outro. Da intimidade nasce a responsabilidade do cuidado de um coração para que possa ser melhor, mais realizado, desenvolvendo a sua bondade.

Não raras vezes preferimos viver um meio isolamento à radicalidade desta entrega. Tornamo-nos autênticos refugiados numa vida a meio-gás. Nada aparenta ser mais sensato do que ser moderado e usar de conta, peso e medida. Diz a sabedoria popular que na moderação está a virtude. E assim vamos confortavelmente vivendo, fugindo da intensidade e radicalidade que um compromisso e fidelidade a nós e aos outros exige. Curiosamente, o que nos salvou e salva sempre é o amor sem contas, medidas e pesos. Vimo-lo no amor apaixonado e desmedido de Cristo, e no de quem tomou conta de nós quando a nossa vida era frágil como porcelana.

O meio-termo e descomprometimento estão a encaminhar-nos para uma morte lenta. Façamos votos contra esse veneno mortífero procurando conjugar o amor aos outros na medida única e irrepetível de cada um, em vez da nossa, com a carência que carregamos. Eis a difícil arte do amor.

 

Sofia Távora é estudante de Direito e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.

Artigos relacionados

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Os donativos entregues por 136 leitores e amigos somaram, até terça, 30 de junho, €12.020,00. Estes números mostram uma grande adesão ao apelo que lançámos a 7 de junho, com o objetivo de reunirmos €15.000 para expandir o 7MARGENS ao longo do segundo semestre de 2020. A campanha decorre até ao final de julho e já só faltam menos de €3.000! Contamos consigo para a divulgar.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

CE volta a ter enviado especial para promover liberdade religiosa no mundo novidade

O cargo de enviado especial para a defesa da liberdade religiosa tinha sido extinto no ano passado pela presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, mas as pressões de inúmeros líderes religiosos e políticos para reverter essa decisão parecem ter surtido efeito. O vice-presidente da CE, Margaritis Schinas, anunciou que a função irá ser recuperada.

Papa assinala sete anos da viagem a Lampedusa com missa especial online

O Papa Francisco celebra esta quarta-feira, 8 de julho, o sétimo aniversário daquela que foi a primeira (e talvez mais icónica) viagem do seu pontificado: a visita à ilha de Lampedusa. A data é assinalada com uma eucaristia presidida por Francisco na Casa Santa Marta, a qual terá início às 10 horas de Lisboa, e será transmitida online através dos meios de comunicação do Vaticano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

O hospital pediátrico Bambino Gesú, em Roma, gerido pelo Vaticano, separou com êxito duas irmãs siamesas de 2 anos, que nasceram unidas pelo crâneo na República Centro Africana. A complexa operação, que durou 18 horas e contou com uma equipa de 30 profissionais de saúde, teve lugar no passado dia 5 de junho, mas o hospital só revelou todos os detalhes esta quarta-feira, 8 de julho, numa conferência de imprensa.

É notícia

Entre margens

Do confinamento às Minas novidade

Vestígios dos trilhos usados para o contrabando abundante nesta zona da raia. Algum complemento a um salário magro. Histórias de perigos, ousadia, dignidade, persistência e superação. Na aldeia de Santana das Cambas existe um Museu do Contrabando que soubemos estar encerrado.   
Curvo-me perante uma realidade que desconhecia, apenas intuía… Ao olhar para os mineiros envelhecidos e suas famílias passei a vê-los como heróis, príncipes daquela terra, figuras exemplares de cidadania e coragem.

A favor do argumento ontológico

A realidade é um extraordinário abismo de Ilimitado em todas as direções e dimensões. É isto o Absoluto. Não tendo na sua constituição nenhuma descontinuidade, nenhum vazio absoluto (pois nele o nada absoluto [ou Nada] não pode simplesmente ter lugar), o Absoluto é plenitude de Ser. A isto se chega pela simples consideração de que o Nada, precisamente por ser Nada, não existe nem pode existir, pelo que sobra “apenas” aquilo que existe de facto, que é Tudo.

Memórias do Levante

À ideia da raça superior sucedeu a ideia da cultura superior, quase tão maléfica como aquela. E escravizar os seres humanos “inferiores” deu lugar a desvalorizar ou mesmo destruir as culturas “inferiores”. O resultado é que, se ninguém ganhou com isso, a verdade é que a humanidade perdeu e muito

Cultura e artes

Aquilino e Bartolomeu dos Mártires: o “pai dos pobres e mártir sem desejos”

Aquilino Ribeiro, escritor de prosa escorreita, pujante, honrou a dignidade da língua portuguesa à altura de outros antigos prosadores de grande qualidade. Irmanado com a Natureza beirã: aves, árvores, animais e homens. Espirituoso e de fina ironia, é bem o Mestre da nossa Língua. Em “Dom Frei Bertolameu” faz uma espécie de hagiografia do arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), canonizado pelo Papa Francisco a 6 de Julho de 2019.

Ennio Morricone: O compositor que nos ensinou a “sonhar, emocionar e reflectir”

Na sequência de uma queda em casa, que lhe provocou a ruptura do fémur, o maestro e compositor italiano Ennio Morricone morreu esta segunda-feira em Roma, na unidade de saúde onde estava hospitalizado. Tinha 91 anos. O primeiro-ministro, Giuseppe Conte, evocou com “infinito reconhecimento” o “génio artístico” do compositor, que fez o público “sonhar, emocionar, refletir, escrevendo acordes memoráveis que permanecerão indeléveis na história da música e do cinema”.

Teologia bela, à escuta do Humano

Pensar a fé, a vivência e o exercício do espírito evangélico nos dias comuns, é a tarefa da teologia, mais do que enunciar e provar fórmulas doutrinárias. Tal exercício pede atenção, humildade e escuta dos rumores divinos na vida humana, no que de mais belo e também de mais dramático acontece na comunidade dos crentes e de toda a humanidade.

Sete Partidas

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo branco, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco