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autores - Paulo Melo

Sessão de Estudos 2024 do Metanoia

A dignificação da política e a prática do bem comum

| 08/03/2024

“A degenerescência das democracias está diretamente relacionada com a sua incapacidade de projetar o futuro, afirmou José Manuel Pureza. Mendo Castro Henriques destacou que os processos de decisão devem ter em conta o saber científico em articulação com os interesses dos cidadãos. ” Foto: Mendo Castro Henriques, Alfreda Fonseca e José Manuel Pureza. © António José Paulino

 

Como resposta ao desafio do Papa Francisco de revalorização da política enquanto “uma das formas mais preciosas de caridade”, o Metanoia – Movimento Católico de Profissionais dedicou a sua Sessão de Estudos2024, que decorreu no dia 2 de março no Seminário de Nossa Senhora de Fátima em Alfragide, ao tema” Desafios à participação democrática – aumentar a representatividade, aperfeiçoar os processos de decisão”.

O encontro, que contou com participação de cerca de 45 pessoas, desenvolveu-se em dois momentos. No primeiro, da parte da manhã e início da tarde, Mendo Castro Henriques e José Manuel Pureza, professores universitários e cidadãos ativos, refletiram sobre o aperfeiçoamento da democracia para dignificar a política.

Mendo Castro Henriques destacou o imparável processo de globalização que contribuiu para retirar da pobreza milhões de pessoas, sem que tal tenha significado uma redução das desigualdades. Nele se confrontam ideais opostos: o dos interesses, dos mercados que elege o crescimento económico como principal desígnio, sem cuidar dos recursos naturais que delapida, a que se contrapõe o ideal da igualdade e dignidade de todos os seres humanos. Sublinhou que do mesmo modo que as democracias ocidentais foram capazes de estabelecer um contrato social que redistribuiu rendimentos e protegeu os mais vulneráveis, importa agora estabelecer um contrato natural que tenha em conta a voz da natureza que fala através fenómenos climáticos extremos e um contrato digital que impeça a manipulação e alienação dos seres humanos por sistemas digitais regidos por interesses não declarados. Os processos de decisão devem ter em conta o saber científico em articulação com os interesses dos cidadãos.

A degenerescência das democracias está diretamente relacionada com a sua incapacidade de projetar o futuro, afirmou José Manuel Pureza. O poder político está refém do poder económico, das contas certas. Trata-se de um poder difuso, uma nebulosa onde cabem grandes empresas, alguns governos, agências de rating, fundos de pensões, sendo a margem de decisão dos parlamentos nacionais que nos representam limitada. Ainda assim é possível aumentá-la, qualificá-la e reforçar a representatividade. Os eleitores podem ser mais exigentes em relação aos que elegeram a quem devem exigir que prestem contas em reuniões realizadas para tal. A criação de um círculo eleitoral de compensação que traduza em eleitos os muitos milhares de votos sem expressão nos círculos distritais reforçaria a representatividade.

Carla Madeira, presidente de uma Junta de Freguesia, Nuno Barbosa, ativista de várias causas, e Rui Lavoura, sindicalista, partilharam as suas experiências de construção do bem comum. Os seus depoimentos constituíram um desafio à participação em dinâmicas sociais de diferente natureza a partir das circunstâncias da vida de cada um. Como afirma a Fratelli Tutti, é “necessário pensar a participação social, política e económica segundo modalidades tais que incluam os movimentos populares e animem as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com aquela torrente de energia moral que nasce da integração dos excluídos na construção do destino comum”. São morosos, requerem paciência, imaginação e compromisso.  Os intervenientes sublinharam que os processos de mudança, sejam eles de combate à pobreza, de promoção da igualdade género, de luta por melhores condições de trabalho, de habitação digna ou de combate à discriminação com base na orientação sexual ou etnia só serão verdadeiramente integradores e emancipadores com a escuta e participação daqueles a quem se destinam no respeito pela sua dignidade enquanto pessoas, sem paternalismos nem juízos precipitados.

Ainda que realizada em conjuntura eleitoral, esta Sessão de Estudos propôs-se ir mais longe do que definir critérios de voto em função da moral católica ou promover uma corrente católica na política nacional. A construção do bem comum em conjunto com todos os homens e mulheres de boa vontade e a sensibilização de cada um e de cada comunidade cristã para o envolvimento em dinâmicas coletivas de mudança de âmbito local, nacional ou internacional em prol da justiça, da paz, da dignidade de cada pessoa na concretização dos Diretos Humanos foi o seu propósito e uma maneira de corresponder aos desafios da encíclica Fratelli Tutti.

Metanoia. Sessão Estudos 2024

“Carla Madeira, presidente de uma Junta de Freguesia, Nuno Barbosa, ativista de várias causas, e Rui Lavoura, sindicalista, partilharam as suas experiências de construção do bem comum.” Foto: Carla Madeira, Nuno Barbosa e Rui Lavoura. © António José Paulino

 

Paulo Melo é professor de História aposentado e associado do Metanoia. 

 

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