A discriminação das mulheres hindus e o cordão humano de 620 quilómetros

| 4 Mar 19

Ilustração © Sara Naves

No primeiro dia de janeiro, na Índia, milhares de mulheres manifestaram-se pelo direito de entrar nos templos hindus, formando um cordão humano de 620 quilómetros. Até há pouco tempo, as mulheres com idade para ser menstruadas (entre os 10 e 50 anos) estavam proibidas de entrar no Templo Sabarimala, um dos locais de peregrinação mais sagrados do hinduísmo.

O vice-presidente da Comunidade Hindu Portuguesa, Ajit Hansraj, dizia na altura, comentando o episódio, que uma situação como esta não é habitual, mesmo na Índia: “Isto não tem a ver com o hinduísmo em si, mas com os responsáveis de cada templo. É a primeira vez que tenho conhecimento de uma situação onde as mulheres não podem entrar num templo.” Mais comum é a interdição de entrar num templo apenas quando estão no período da menstruação – algo que já não acontece em Portugal, por exemplo. “Na maioria dos casos, mesmo que sejam pessoas de outro credo, desde que seja em paz, são todos bem-vindos nos templos”, conclui Ajit.

Esta não foi, no entanto, a primeira vez em que uma situação do género se verificou. Em 2016, a proibição de mulheres venerarem o altar do deus Shani no templo Shani Shingnapur causou uma revolução.O grupo de ativismo social de homens e mulheres Bhumata Brigade, fundado em 2010 por Trupti Desai (uma famosa ativista pela igualdade de género), protestou em frente ao templo, o que valeu vários processos judiciais contra membros seus.

Episódios como estes levam à pergunta sobre qual o papel das mulheres no hinduísmo.

Entre a liderança e a dona de casa obediente

Os textos sagrados hindus (Bhagavad-Gita,Upanishadase Vedas, por exemplo) apresentam diversos pontos de vista sobre a posição das mulheres, que variam entre a liderança, consagrada nas figuras de divindades femininas, até à limitação do seu papel enquanto mãe e dona de casa obediente.

No hinduísmo, a força material e causa final da existência de todo o Universo é o Impessoal Absoluto (Brahman), que não tem género. Nas escrituras hindus, há deuses masculinos, femininos ou andróginos. No livro Hindu goddesses: beliefs and practices (Divindades hindus: crenças e práticas), os autores Lynn Foulston e Stuart Abbottdão conta que há mais deusas do que deuses e tentam mostrar “quão importantes e populares” são as deusas.

Alguns hindus escolhem viver uma vida à procura de libertação ou perfeição espiritual. Os textos sagrados antigos não dizem quem pode ser espiritual, mas nos mais recentes é tratada a possibilidade de abraçar formas semelhantes a uma vida de retiro monástico, que pode ser abraçado por pessoas de todas as castas – incluindo mulheres. Os homens chamam-se Swāmi e as mulheres Sanyāsini, e este estilo de vida é muito respeitado, sendo o objetivo último do hinduísmo.

Mulheres hindus no Sri Lanka. Foto © Alfredo Cunha

Na prática, as mulheres-guru não são aceites pela sociedade, como refere Karen Pechilis, investigadora de Estudos Religiosos, no livro The Graceful guru: Hindu female gurus in India and the United States (“O Guru gracioso: Gurus femininos hindus na Índia e Estados Unidos”): “O desafio mais radical das mulheres-guru não está relacionado com a tradição, mas com as expectativas sociais.”

Vários investigadores sugerem que, nos textos religiosos que regulam a lei e as normas familiares (dharmashastra), as mulheres têm um estatuto inferior ao do homem. No entanto, como diz Vasudha Narayanan, professora de Religião na Universidade da Flórida e autora de Feminism and World Religions (“O Feminismo e as Religiões do Mundo”), esses textos não são seguidos e utilizados em várias regiões da Índia hindu: “Há uma dissonância entre as escrituras e certas áreas do dharma e o papel das mulheres recai sobre esta categoria. Manu (primeiro homem, progenitor da humanidade) pode ter negado a independência às mulheres mas havia mulheres de algumas castas e classes económicas que davam dinheiro a templos. É importante notar que não há correlação direta entre textos, estatuto, direitos ou comportamento.”

 

O papel da mulher na sociedade e a influência colonial

Alguns autores dizem que o papel da mulher no hinduísmo está mais relacionado com o seu papel na sociedade.

No livro As Grandes Religiões do Mundo, coordenado pelo historiador Jean Delumeau (Ed. Presença), Michel Hulin e Lakshmi Kapanidescrevem que, de forma geral, “a mulher hindu se define, desde o nascimento até à morte, relativamente a um ser masculino”, descrevendo o seu papel como “subordinado e essencial”. No entanto também notam que, “devido às suas maturidade e responsabilidade, é-lhes facilmente confiado um papel-chave no seio de uma empresa ou de uma administração, ainda que se fale pouco disso”.

São vários os autores que atribuem a deterioração do estatuto das mulheres à época colonial da Índia. É o caso de Maitrayee Chaudhuri, estudiosa de sistemas sociais e autora do artigo Feminism in India: The Tale and Its Telling (“Feminismo na Índia: a história e a sua narrativa). A autora afirma que a época colonial trouxe valores como a vida doméstica, a família e a modéstia próximos dos valores cristãos da época.

Mulher hindu a rezar num templo no Sri Lanka: o colonialismo pode ter ajudado à deterioração do papel das mulheres; foto © Alfredo Cunha

Asha Lata Pandey, professora na universidade de Nova Deli, afirma mesmo que a posição das mulheres na sociedade piorou, principalmente em contexto económico: “Como a vida e direito de propriedade das mulheres tinham pouco valor para os colonizadores, cada comunidade construiu uma série de normas sociais para proteger as mulheres – algo que resultou em sistemas rígidos, casamentos de crianças e tratamento diferencial de viúvas.”

A lei que regula os novos casamentos de viúvas, de 1856, permite legalmente que as mulheres indianas de castas elevadas possam voltar a casar, mas impede as das castas mais baixas de o fazer, atirando-as mais facilmente para a miséria.

No período pós-independência da Índia, o estatuto social da mulher hindu melhorou, mas ainda há um longo caminho a percorrer.O cordão humano de mulheres, com 620 quilómetros, por causa da interdição das mulheres entrarem no templo Sabarimala (que se realizou no dia 1 de janeiro), mostrou mulheres não conformadas e com uma necessidade de mudança perante o seu papel na sociedade indiana. À CNN, Subhashini Ali, uma responsável do Partido Comunista Indiano que participou no protesto, afirmou que as mulheres que saíram à rua no estado de Kerala para lutar pelos seus direitos, vão “mudar a conversa à volta do género: há muitas formas de discriminação feitas em nome da tradição”. E acrescentou: “Esta é uma questão importante para as mulheres e para a democracia.”

Quão grandes são as diferenças de género dentro de cada religião? E o que querem as mulheres crentes em cada uma das confissões? Até 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, o 7MARGENS irá traçar um retrato da situação das mulheres nas principais tradições religiosas e falará dos debates existentes sobre os seus papéis dentro das diferentes confissões.

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