A diversidade que nos constrói

| 30 Jul 2022

O pastor José Manuel Leite, da Igreja Evangélica Presbiteriana, é um dos rostos do Centro Ecuménico Reconciliação: um lugar de ecumenismo guiado “pela visão da unidade da Igreja na e pela diversidade”. Foto: Direitos Reservados

 

Em 1969 é inaugurado na Figueira da Foz um espaço de diálogo, academia, tertúlia, conhecimento, confiança, encontro da diversidade. Foi, durante muitos anos, numa sociedade sem liberdade de expressão, avessa ao pluralismo e valorização da diferença como tensão criadora, um local onde pessoas, mulheres e homens, religiosos e leigos de diversos países, crenças religiosas, ateísmos, visões políticas, se faziam encontro, partilha e onde quem chegava dava a sua visão e regressava mais rico em ideias, em motivação, confiança, amizade e, como pessoa, mais cidadão, mais sociedade. 

Foi aí, no Centro Ecuménico Reconciliação, que se começou a desenhar o embrião da Lei da Liberdade Religiosa que apenas se concretizou há cerca de 20 anos, tal como o trabalho do Reconhecimento mútuo do Batismo que apenas passa a documento em 2014. Há caminhos que levam tempo a ser percorridos, onde a pressa não ajuda, mas onde a esperança se revela construtora permanente. Também nos lembra que aquilo que parece divisão insanável é, afinal, uma questão de arte, humanidade e tempo e, nas palavras de quem acredita, da ação do Espírito.

Já nessa altura, guiados por muitas posições do Conselho Mundial de Igrejas, que na sua constituição agrega centenas de igrejas do mundo inteiro, procurando a construção de um mundo inclusivo, dialogante, justo e, talvez por isso, em paz, os temas da atualidade eram presentes a Portugal, através daqueles encontros na Quinta dos Vais, em Buarcos, de onde se avista tão bem a Figueira da Foz.

Mais tarde, em 1997, é publicado um livro, escrito pelo pastor José Manuel Leite, com um título tão atual: A Igreja Una e Plural. Nestes tempos de Caminho Sinodal que a Igreja Católica Romana vive como desafio de aprofundamento de fé e espiritualidade e, no qual tive e tenho a alegria de participar, como pastor da Igreja Presbiteriana, tal livro que é “uma introdução ao ecumenismo guiada pela visão da unidade da Igreja na e pela diversidade”, nas palavras do autor, é verdadeiramente inspirador.

Em 2018 surge, na Figueira da Foz, pela mão de alguns jovens, um movimento de cidadãos que se propõem olhar a vida a partir das diversas sensibilidades religiosas, ateias, escolas de pensamento ou outras espiritualidades, precisamente colocando numa sala o Diálogo e o Debate, olhando a realidade a partir de cada cosmovisão, sensibilidade, crença.

São bons sinais do pluralismo, da liberdade de expressão, cidadania, democracia e desenvolvimento de uma sociedade coesa que se cimenta pela tensão e energia da diferença, mas ao mesmo tempo, a alegria de conhecer o outro, a empatia, a construção de uma visão conjunta, onde precisamente valorizo e amo a diálogo, o debate, ainda que me provoque dores de ajustamento e crescimento. Mas não há vida sem essas dores, sem crescimento. S. Paulo tem um belo testemunho na carta aos Coríntios “quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte, perderá o seu sentido. Porque agora apenas vemos como por um espelho em enigma, conheço em parte”. A única perfeição humana, de momento, é reconhecer a nossa limitação que diminui com a nossa cooperação e partilha, mas cuja plenitude não nos é dada, pelo que não pode ser dada como adquirida e, muito menos, aprisionada. Criar espaço para que a verdade se passeie livremente, nos toque e anime.

Vivemos tempos de incerteza em relação à paixão pela diversidade, pluralismo e construção de uma sociedade una e plural. De muitos lados surgem acantonamentos, verdades únicas que se querem sobrepor, como se a verdade se possa impor e não seja antes e só, desejada, procurada e um horizonte. Talvez por isso os primeiros cristãos sejam conhecidos pelos que fazem caminho, precisamente nos passos daquele que diz “sou caminho, verdade e vida” e talvez por isso as religiões do Livro não tenham uma definição, nem imagem para Deus.

Como protestante desconfio da verdade única, do autocentramento e temos como lema “uma igreja reformada, sempre em reforma”. Na verdade, qualquer comunidade viva se transforma com cada pessoa que chega e com o novo que cada dia que nos é oferecido. É também assim que vejo a sociedade e as ligações que nos constroem.

Aprecio a tese que se afirma e ao mesmo tempo se dá à discussão. Aliás, essa é a origem do nome protestante. Afirmar algo convictamente para submeter à discussão pública.

Como cristão seduz-me o Jesus que nos convida a escutar a diferença como dádiva, que mais do que teologia ou catecismo nos faz perguntas para situações concretas (Lucas 10:25-37), que nos abre aos nossos fechamentos, que se deixou, ele mesmo, transformar pela mulher samaritana (mulher e gentia, duas marcas que a desqualificam como interlocutora), que como mãe ganha forças e com ele debate ética de grupos e de direitos afetivos quando lhe diz “até os cães comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores” (Mateus 15:21-27), desafia-me quando a carta aos Gálatas (3:28) nos diz que “em Jesus Cristo não há diferença entre judeu e não judeu, entre escravos e pessoas livres, entre homens ou mulheres” porque todos somos um na comunhão divina.

Aprecio com gratidão o Caminho Sinodal lançado pelo Papa Francisco. Num tempo de vitórias pelo afrontamento e não pelo diálogo, seja entre países, grupos parlamentares ou igrejas. A politiquice ruidosa e vazia de Arte de criar visão para a Polis, abafa a Política, retira o fascínio da visão e da agregação social. Talvez seja por isso que se fala tanto em pactos de regime, a pequena política não é compatível com as visões a dez, 20 ou 30 anos. É bom haver instituições e estadistas que nos lembram que somos uma só Terra e que devemos aprender a viver juntos com as nossas diferenças. Pode ser duro, ser um longo caminho, mas é o caminho. Onde não há tabus, mas procura, interrogações. Onde aprendemos o respeito e a dignificarmo-nos mutuamente. Recordo a experiência de comunidades religiosas que aprenderam a viver com a diferença, mesmo perante temas fraturantes. Onde muitas igrejas se dividem e se acusam de heresia, ao confrontarem-se na discussão de o que fazer com o aborto, sexualidade, eutanásia, posição da mulher na Igreja, algumas percorrem um caminho onde aprenderam a viver com a diferença, precisamente oram para que a Sabedoria as guie a encontrar formas de pensar diferente, mas partilhar a mesma comunidade, aprender a acolher a diversidade como um dom de Deus, a eucaristia como sinal e cimento de unidade plural. A verdade é que compensa, faz-nos mais humanos, limitados, mas mais sociais, empáticos e companheiros.

Necessitamos de criar espaços e tempos de diálogo, fazer baixar em nós o tom dos ecos de divisão, de crispação, de verdades exclusivas. Numa sociedade de informação plena, de conhecimento disponível, talvez precisamos de tempo, espaços e motivação para construir uma sociedade una e plural, fazendo de nós, mulheres e homens, jovens e crianças, cidadãos mais intervenientes, solidários e criativos. Que tal sermos agentes de mudança nas nossas relações e instituições?

(Nota: os textos bíblicos usados são da tradução ecuménica da Bíblia, na qual colaboraram, num projecto de 20 anos, biblistas católicos e protestantes, num espírito de compreensão interconfessional, datada de 1993, com recomendação de leitura pela Conferência Episcopal Portuguesa e editada pela Sociedade Bíblica Portuguesa.)

João Pereira é pastor da Igreja Presbiteriana da Figueira da Foz; o texto foi inicialmente publicado na página digital da Figueira TV.

 

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